Trabalho de Masina Pinheiro e Gal Cipreste, contemplado pelo programa “Rumos Itaú Cultural”, investiga a memória, a música e a cura por meio da fotografia e do audiovisual
Publicado em 09/06/2026
Atualizado às 15:38 de 09/06/2026
por Maria Clara Matos
Não raro, obras de arte buscam a delicadeza e a profundidade como um fim. No entanto, para Gal Cipreste e Masina Pinheiro, esses elementos funcionam como princípio – e são eles que regem seu trabalho Anticorpo, contemplado pela edição 2023-2024 do programa Rumos Itaú Cultural. O projeto, que reflete a dedicação da dupla à fotografia e ao audiovisual, retrata autobiografias de pessoas desobedientes de gênero e dissidentes sexuais, fazendo isso por meio de uma sutil e complexa costura de narrativas.
Anticoro foi estruturado em duas etapas de investigação e dividido nos dois eixos a seguir, que se complementam:
- Fotolivro GH, Gal e Hiroshima (2019-2023): entrelaçamento das autobiografias de Gal e Masina (cujo apelido de infância era Hiroshima). A obra busca ressignificar afetos ao fundir duas memórias marcantes – a experiência de um apedrejamento sofrido na infância por motivos de gênero; e a vivência de um corpo que transiciona diante de uma família religiosa.
- Série de docuficção Refrão (2022-2025): cinco vídeos-performances que dão continuidade à abordagem das vozes de pessoas LGBTQIAPN+, bem como das nuances, dos abafamentos e das transformações desses sons.
O anti-espetáculo como cura
Anticoro propõe, assim, a confluência das narrativas presentes em GH, Gal e Hiroshima e em Refrão, de modo que as histórias individuais apresentadas se confundam e, dessa forma, ganhem uma perspectiva coletiva. “Quando eu conto minha história dentro da história de Gal, no contexto de mais outras 5, 10 pessoas LGBTQIAPN+, ela ganha uma perspectiva muito mais ampla”, completa Masina, reforçando o caráter colaborativo do projeto e o poder do ato de narrar em si.
Apesar de abordar marcas deixadas pelas violências LGBTQIAPN+fóbicas, Anticoro recusa a espetacularização e a crueza agressiva – em vez disso, Gal e Masina apostam na construção de imagens que priorizam sensações, símbolos e fábulas. “Eu concordo que algumas histórias precisam do espetáculo ou necessitam do agressivo; mas, ao mesmo tempo, quando a gente trata essencialmente de histórias de infâncias, a última coisa que queríamos era o voyeur. As fotos [por exemplo] são calmas e ‘silenciosas’. É o contrário do que as pessoas esperam. Costuramos o anti-espetáculo. Hoje, poetizar é uma forma de cura também”, explica Masina.
A sonoridade do mutismo seletivo
Uma das imagens centrais de GH, Gal e Hiroshima, intitulada Arca (2020) – que exibe a arcada dentária de Masina moldada em gesso com uma chama ao centro –, serviu de ponto de partida para a elaboração de Refrão. Essa série investiga o silêncio voluntário que vozes LGBTQIAPN+ experimentam após sofrerem traumas, traçando um paralelo com o mutismo seletivo. Vale dizer que, nesse caso, não se trata de uma situação ficcional: Masina de fato parou de falar entre seus 12 e 18 anos após sofrer um episódio de violência.
Como a temática de Refrão transita entre o som e o silêncio, o próprio audiovisual fez-se uma ferramenta orgânica no processo de criação das narrativas presentes na obra. Essa docuficção destaca trabalhos como Microfonia (2025) – que retrata uma performer sentada em caixas de som, movimentando microfones ligados pelo próprio corpo, gerando frequências graves e agudas –, e Fono (2025), curta-metragem no qual uma pessoa que não fala atende o telefone para receber uma aula de música. A série, assim, provoca reflexões tanto sobre a sonoridade, como sobre a falta dela.
Em Refrão, também a música ganha corpo próprio, não apenas como um tema, mas como influência primordial na produção artística dessa obra. Gal, que assina as trilhas sonoras e o desenho de som na série, aponta que a fotografia permitiu que Refrão mantivesse uma relação total com a música – a primeira paixão delu.
O palco como território de resistência
Essa cadência musical interfere diretamente na espacialidade física de Anticoro. A disposição e o tamanho das fotografias, em GH, Gal e Hiroshima, foram pensados para que elas tivessem ritmo e intensidade – para que se expandissem e se contraíssem como se compusessem “uma música desenhada”. Sobre Refrão, Gal diz: “Nosso maior presente é olhar para a série Refrão e sentir que ela existe, que ela é concreta, que ela pode viajar”. Assim, com Anticoro consolidado, elu e Masina celebram a materialização e a força das obras que integram esse projeto – e das múltiplas novas narrativas que surgem a partir dele.
Ao transpor as memórias do corpo e as marcas do silêncio para a imagem e o som, Anticoro não só estabelece a arte como um espaço vital de cura e documentação histórica, como também reafirma a importância de descentralizar e pluralizar as vivências LGBTQIAPN+ – permitindo que narrativas comumente marcadas pela dor encontrem, no “anti-espetáculo”, uma forma de ecoar sua dignidade e sua beleza.