Pesquisadora e gestora foi homenageada pelo programa Ocupação Itaú Cultural em 2017
Publicado em 15/09/2026
Atualizado às 14:54 de 15/09/2026
A arte e a cultura brasileira despedem-se de uma das mais influentes pensadoras do país, a crítica de arte, curadora, arquiteta, jornalista e professora Aracy Amaral, falecida aos 96 anos, em São Paulo.
Maior especialista na obra de Tarsila do Amaral, Aracy nasceu em São Paulo, em 1930, e construiu uma trajetória intelectual que contribuiu substancialmente para a reflexão sobre as visões do Brasil sobre si mesmo, principalmente através de sua produção estética. Unindo rigor acadêmico e a curiosidade insaciável sobre as dinâmicas sociais da cultura, a pesquisadora tornou-se referência no estudo do modernismo brasileiro e da arte latino-americana.
Formação e Pesquisa
Formada em Jornalismo pela Pontifícia Universidade Católica de São Paulo (PUC/SP), em 1959, Aracy iniciou sua carreira na área ainda durante a graduação, escrevendo para a página feminina do jornal A Gazeta. Em toda a sua carreira, produziu artigos para grandes veículos de comunicação do país, como: Folha de S. Paulo, O Estado de S. Paulo, Correio da Manhã, entre outros.
Ainda como estudante, já cobria jornalisticamente a cena artística paulistana, inclusive a primeira Bienal de São Paulo, em 1951, acompanhando a montagem e entrevistando personalidades que compareceram ao evento, como o diretor do MoMA, Rene d’Harnoncourt. Já na segunda Bienal, em 1953, participou como monitora, ocasião em que conheceu o artista Ferreira Gullar, um dos maiores poetas brasileiros. Durante toda a sua vida, Aracy frequentou todas as edições do evento, integramdp a equipe em diversas ocasiões: como parte da Comissão Técnica de Arte na 10ª Bienal de São Paulo, conhecida como “Bienal do Boicote”, marcada pela recusa de oitenta por cento dos artistas em participar devido ao “Ato Institucional nº 5”, decretado pelo governo militar brasileiro meses antes da exposição (o boicote se estenderia ainda pela edição seguinte, de 1971). Décadas depois, em 1998, compôs a curadoria do Núcleo histórico: Antropofagia e histórias de canibalismos da 24ª edição da Bienal de São Paulo, que contou com curadoria geral de Paulo Herkenhoff e curadoria adjunta de Adriano Pedrosa.
Em 1969, obtém o título de mestra em História da Arte pela Universidade de São Paulo (USP), com a dissertação Artes Plásticas na semana de 22, publicado em livro e tornando-se obra de referência para pesquisadores do modernismo brasileiro. Aracy também foi a responsável pelo primeiro levantamento sistemático da obra da pintora Tarsila do Amaral (sua tia-avó), pesquisa de doutorado defendida em 1975 que se desdobrou em exposições, artigos, livros e a organização do catalogo raisoneé da artista, em 2008.
Além da pesquisa, Aracy também atuou como docente na Faculdade de Arquitetura e Urbanismo da Universidade de São Paulo (FAU/USP), formando gerações de artistas e pesquisadores.
Entre seus livros mais importantes estão: Tarsila sua Obra e seu Tempo (2010), Arte e Sociedade no Brasil (2005), Arte Para Quê? A Preocupação Social na Arte Brasileira (2003), Artes Plásticas na Semana de 22 (1998), A Hispanidade em São Paulo (1981) e Blaise Cendrars no Brasil e os Modernistas (1970)
Curadoria e Gestão
Na museologia, iniciou sua carreira na década de 1960, como assistente de direção do Museu de Arte Contemporânea da Universidade de São Paulo (MAC/USP). Aracy retornaria à instituição como diretora em 1982, após uma passagem, também como diretora, pela Pinacoteca do Estado de São Paulo, entre 1976 e 1979, em uma época em que os cargos de gestão em instituições culturais eram majoritariamente ocupados por homens. Nas duas instituições, renovou a perspectiva de gestão dando atenção à catalogação, conservação e ampliação de seus acervos, além de trabalhar pela visibilidade da coleção por meio da organização de exposições e do investimento em um programa educativo pioneiro.
Sua primeira curadoria aconteceu em 1961, como parte do júri da 1ª exposição do Jovem Desenho Nacional, realizada na Fundação Armando Álvares Penteado (FAAP), ao lado do crítico Walter Zanini Walter Zanini, o escrito argentino Julio Llinás e o historiador da arte polonês Ryszard Stanislawski.
Entre suas exposições de destaque, estão Tarsila – 50 Anos de Pintura, de 1969, e Alfredo Volpi: Pinturas 1914-1972, de 1972, ambas realizadas no Museu de Arte Moderna do Rio de Janeiro (MAM/RJ); ExpoProjeção 73, de 1973, na sede do Grupo de Realizadores Independentes de Filmes Experimentais (Grife); Ismael Nery – 50 Anos Depois, de 1984, no Museu de Arte Contemporânea da Universidade de São Paulo (MAC/USP) e o 34º Panorama da Arte Brasileira da Pedra da Terra Daqui, no Museu de Arte Moderna de São Paulo (MAM/SP), de 2015. Além disso, curou exposições de Alfredo Volpi, Mário de Andrade, e muitos outros.
Na Expoprojeção 73, Aracy se juntou ao Grupo de Realizadores Independentes de Filmes Experimentais (Grife) e organizou umas das mais importantes exposições dos precursores da videoarte no país, reunindo trabalhos em super-8, 16 mm, slides e outros. Entre os artistas dessa exposição, estavam Anna Bella Geiger, Cildo Meireles, Décio Pignatari, Hélio Oiticica, Iole de Freitas, Julio Abe Wakahara, Lygia Pape e Mario Cravo Neto
Já no 34º Panorama da Arte Brasileira da Pedra da Terra Daqui, parte do projeto bienal do MAM/SP, Aracy uniu duas realidades artísticas do país: uma seleção de esculturas em pedra polida (zoólitos) produzidas entre 4000 e 1000 a.C pelos povos sambaquieiros, no território que hoje se estende do sudeste brasileiro até a costa do Uruguai; e obras produzidas por artistas contemporâneos brasileiros, dialogando, contrapondo-se e reimaginando a tradição cultural dos zoólitos.
Uma longa parceria
A relevância de Aracy Amaral para a cultura brasileira foi celebrava diversas vezes ainda em vida. No Itaú Cultural, a crítica de arte foi homenageada pela 35ª edição do programa Ocupação Itaú Cultural, em 2017 – projeto que havia contado com sua participação como curadora na 4ª edição, que homenageou o artista visual Abraham Palatnik.
Um dos primeiros trabalhos com o Itaú Cultural se deu com a exposição BR/80: pintura Brasil década 80, realizada na Itaugaleria, em São Paulo, em 1991. Era o início de uma longa parceria, que resultou em exposições como Artes Plásticas: dos anos 60 à contemporaneidade, em 1994, Brasil - Arte e Sociedade: uma relação polêmica, em 2003, Rumos Itaú Cultural Artes Visuais. Paradoxos Brasil – 2005/2006, entre outras.
Por fim, em 2024, a Itaú Cultural Play – nossa plataforma de streaming gratuita – lançou o documentário A criação da Bienal, dirigido por Carlos Nader, que revela os bastidores do evento realizado entre 1950 e 1953, período de intensas transformações culturais e políticas no país. A produção, apoiada pela Fundação Bienal de São Paulo e realizada pelo Itaú Cultural, resgata o espírito de otimismo e modernização do Brasil do pós-guerra e mostra como a união de mentes distintas e visionárias deu forma ao primeiro número da Bienal, recuperando documentos, imagens e depoimentos que mostram a efervescência intelectual da época e o impacto duradouro do evento na cultura brasileira.
Confira abaixo um trecho do depoimento de Aracy Amaral para o documentário, relembrando o contexto da época e os principais protagonistas da criação da Bienal de São Paulo.