Artista e ativista cultural participa da curadoria do "\\ENTRE\\ mostra de artes e cultura def" 2026
Publicado em 30/04/2026
Atualizado às 11:34 de 30/04/2026
por André Felipe de Medeiros
Com grande experiência na literatura, música e teatro, a poeta, letrista, jornalista e ativista cultural Brisa Marques integra a curadoria do \\ENTRE\\ mostra de artes e cultura def 2026. Formada em jornalismo pelo Centro Universitário de Belo Horizonte e em teatro pela Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG), Brisa tem uma trajetória que une literatura, música e performance. Com mais de 60 canções gravadas por nomes como Mônica Salmaso e Zé Miguel Wisnik, publicou obras como Corpo-concreto. Atuou na Rede Minas e foi diretora da Rádio Inconfidência. É pesquisadora da cultura DEF e do anticapacitismo, idealizou o Festival Desvio (2025)
Nascido da reformulação do projeto ||entre|| arte e acesso, o \\ENTRE\\ mostra de artes e cultura def 2026 propõe um mergulho na pluralidade artística da comunidade DEF. O evento, que acontece de 6 a 10 de maio de 2026, é composto por apresentações de dança, teatro e shows musicais que se entrelaçam a vivências surdas, cegas, aleijadas e neurodiversas, bem como de mesas de debate que buscam intersecções entre pensamentos e modos de fazer através de temáticas como a acessibilidade estética e o anticapacitismo.
Em entrevista, a artista comenta seu encontro com a cultura def e a relevância de discutirmos como se fazer arte a partir das experiências de diferentes corpos.
Itaú Cultural: Sua obra transita por diversas linguagens artísticas - literatura, música, performance, teatro etc. Como é ser uma artista def que atua em diferentes contextos?
Brisa Marques: Nem sempre fui uma artista def. Até os meus 20 anos, eu era apenas uma artista. A partir dos 21, assumi essa categoria de artista def. Me formei em teatro e em jornalismo também. Sempre tive uma história muito forte com a escrita; desde pequenininha que escrevo, desde que aprendi a escrever. Com a música, a primeira vez que compus foi aos 15 anos, quando aprendi a tocar um pouco de violão. Não sou instrumentista, nunca me formei no estudo de instrumentos, apesar de ter feito aulas de música de maneira independente. Mas, desde muito jovem também, eu uso a música como linguagem para criar. Então, o que eu posso dizer é que sempre fui uma pessoa muito criativa e que sempre precisou da arte como forma de expressão da vida mesmo.
No momento em que me torno uma pessoa com deficiência, aos 21 anos, estava me formando no teatro. A primeira percepção que tive com relação à arte foi que eu não poderia mais ser atriz. Tenho uma lesão medular e uso duas bengalas canadenses para me locomover. Ou seja, eu tenho uma deficiência motora, uma deficiência física. Então, a primeira informação que me chegou veio a partir dessa história, que é de segmentação, de exclusão, uma história assistencialista, de impossibilidade, de falta, de incapacidades – “eu não vou mais poder ser atriz”. Então, continuo escrevendo e continuo fazendo música, porque teoricamente eu tinha estragado a minha principal ferramenta de trabalho – meu corpo. Mas, ao longo desses 20 anos (hoje, estou com 40, já é quase metade da minha experiência na vida), descobri esse campo de pesquisa, o campo da deficiência que traz saberes diversos e ainda pouco acessados em geral pela sociedade e pelas pessoas que fazem Artes – sejam artistas ou pessoas que trabalham com a arte, como gestores, produtores e comunicadores. Percebi ao longo desse tempo que existe uma pesquisa nesse campo que ainda é pouco acessada por essas pessoas que não têm deficiência e, portanto, talvez achem que não tenham a ver com isso, assim como eu também não tinha sido introduzida a esse campo de saber até me tornar uma pessoa com deficiência.
Mas, a partir do momento que eu me torno, percebo que é um campo de interesse geral. Que tem a ver com acesso, e que não é sobre pessoas com deficiência, é sobre a humanidade. É sobre crianças e jovens, é sobre adultos e idosos, sobre homens, mulheres e pessoas trans, ou pessoas não binárias, é sobre indígenas e sobre pessoas negras. É um campo que atravessa todo mundo e que excluímos porque não queremos ver e nem incorporar a deficiência na nossa existência, justamente por sempre ter sido lida como o oposto da eficiência – e eficiência é o que é bom, é o sucesso, o que é valorizado. Ou seja, te digo isso tudo para contar que sou uma pessoa com deficiência, uma artista com deficiência e, hoje, uma artista def. É o termo que se usa na contemporaneidade, que não traz esse peso histórico da deficiência como incapacidade. Eu percebo que é sobre modos de criar, modos de existir, de escrever, de se fazer dramaturgia, de atuação, de composição, de se fazer cinema. E não é só sobre recurso de acessibilidade, que é importante para dar acesso às pessoas a uma obra. É algo que não se estuda nas escolas e academias de arte. Eu faria uma associação ao processo colonial de ensino. Aprendemos a partir de uma perspectiva colonial, e estamos aos poucos redescobrindo que a história não pode ser contada apenas por uma via.
Foi algo que acessei apenas muito recentemente. Ou seja, esse modo de fazer não interferiu diretamente na minha arte, ainda que a minha subjetividade como pessoa com deficiência estivesse sempre ali, a partir do momento em que eu me torno uma. Mas, quando eu tomo consciência disso, começo a trazê-lo estética e poeticamente para o meu trabalho. Eu posso te dizer que só agora estou experimentando de fato ser uma artista def, que incorpora esse modo de saber no meu modo de fazer arte.
IC: Você hoje tem a oportunidade de participar de diversos eventos de cultura def ao redor do país. Como essa cena te impacta artisticamente?
Brisa: Me impacta principalmente com a originalidade. Por exemplo, quando vejo Daniel Moraes e seu novo livro, percebo uma escrita aleijada, e uma ilustração aleijada. Esse “aleijar” é até um termo que outros artistas já discutem, e acho também que a Teoria Crip é uma referência quando se trata desses aleijamentos. O que eu percebo é que olho para um Saci-Pererê de outro jeito. Ou, por exemplo, gravei agora um single e vou fazer um videoclipe. Então, já quero incorporar um recurso de acessibilidade, não como aquele quadradinho que está ali apenas para traduzir o texto que estou dizendo, mas como essa interpretação, essa tradução de Libras, pode ser protagonista dessa obra? Quando eu vejo Moira Braga criando um espetáculo no qual ela incorpora áudio descrição de uma maneira muito orgânica, eu deixo de olhar para isso como a possibilidade de dar oportunidade a uma pessoa com deficiência visual assistir ao espetáculo de uma outra forma, mas eu crio novas camadas semióticas para a própria obra. É algo que poucas pessoas fazem, e eu gostaria de ver cada vez mais ações como essa, que promovem uma ampliação dos sentidos - ao contrário de uma limitação dos sentidos.
Às vezes, vemos algo como uma limitação, mas pode ser muito mais. Quando eu convivo com Estela Lapponi e ela me diz que o encadernamento do seu livro foi em espiral porque é mais fácil dela segurar, é uma mudança estrutural no formato do livro que só existe porque foi necessária a partir desse corpo, e que talvez seja uma descoberta coletiva. Acho que isso acontece em todas as linguagens. E eu desejo aleijar cada vez mais as minhas obras e também conhecer obras cada vez mais aleijadas, no sentido das fraturas que podemos fazer no modo normativo de se fazer qualquer tipo de arte. Acho que não precisamos sempre falar sobre essa questão de uma maneira didática. Mas, a partir do momento que incorporamos isso no nosso fazer, é um kintsugi – a técnica japonesa de reparar uma cerâmica quebrada com ouro. Ressignifica tudo, e ainda traz beleza.
Então, sinto que também pela própria história de exclusão, de violência e de opressão que está ligada às pessoas com deficiência, ainda vemos muitos trabalhos reativos e pesados. É uma forma de dizer: eu também gosto. Mas, pessoalmente, tenho também buscado a beleza, o que é singelo nessas complexidades todas, porque não dá para dizer que “isso é bom e isso é ruim”, “isso é feio e isso é bonito”, né? Tem a ver com a cultura. E acho que, por isso, ao longo desses anos, a cultura def foi aparecendo no meio de tudo que chamamos de Cultura, porque às vezes é preciso marcar com a palavra para que algo exista de verdade.
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IC: Você citou seu contato com artistas que trabalham dentro da cultura def. Mas e para o público geral - o espectador, o leitor, o frequentador da mostra -, qual o impacto que esse movimento tem?
Brisa: Penso em duas palavras. Uma é curiosidade e a outra é estranhamento. Talvez eu colocaria uma terceira aí, que é medo. Já existe um distanciamento que foi construído durante a história da humanidade. No início dessa história, pessoas [com deficiência] eram exterminadas. Em outro momento, elas estavam nas ruas pedindo esmola. Durante algum tempo, a igreja também empregou o olhar da moral, do assistencialismo e da caridade, então sempre foram pessoas consideradas vulneráveis, sempre estiveram nessa linha da vulnerabilidade e eram tratadas hierarquicamente como piores, como se houvesse essa hierarquia entre os corpos na qual um é melhor que o outro – penso que isso ainda existe, não só com relação aos corpos de pessoas com deficiência. Ao longo do tempo, construímos essa distância entre pessoas com e pessoas sem deficiência, ou seja, acho que atualmente é até exaustivo esse trabalho de ressignificar esses corpos e refazer essa hierarquia. Então, quando as pessoas sem deficiência têm a oportunidade de conviver com outras pessoas com deficiência, existe esse estranhamento em um primeiro momento, mas há também curiosidade, às vezes uma objetificação.
A história do corpo com deficiência no circo esteve por muito tempo no lugar da aberração, a curiosidade levava as pessoas aos corpos fora do padrão. Acho que, agora, falamos de tirar esses corpos desses lugares e de reconhecer o valor de uma pessoa que, no futuro, não vamos identificar como “com deficiência”, mas apenas como uma pessoa. Talvez nem precise de uma sigla ali, de um “PCD”. Na minha opinião, não se pode significar uma pessoa por esses marcadores. É preciso entendê-la como indivíduo que pode ocupar vários lugares, que pode estar no palco ou na plateia, em um lugar de poder, que pode ter voz – ainda que não seja a partir da Língua Portuguesa ou de uma oralidade padrão, né? Quando encontro um diretor de cinema que é uma pessoa surda, quero saber mais sobre seu filme e seu modo de produção. Enfim, qualquer coisa sobre o conhecimento que essa pessoa possui, essa sua “def-ciência”, né?
Quando convivemos, começamos a desmistificar um pouco esse lugar que não é nem de superação, nem de herói, não é de impotência, mas de mais alguém que está ali como artista produzindo uma obra. Essa é a importância de eventos como o \\ENTRE\\, que incorporam esses modos tão diversos do fazer artístico. Acho que o caminho é que ele esteja cada vez menos segmentado, porque percebo que poucas pessoas sem deficiência têm interesse em estar nesses lugares. E é um lugar que não necessariamente precisa ser didático, precisa ser chato, ou careta. Ele pode ser gostoso, pode ter prazer, pode ser bonito e também divertido. Por enquanto, esses artistas participam de outros festivais e mostras por meio de vagas afirmativas, um campo segmentado. Mas penso que eles podem estar lá de maneira natural e orgânica, por sua arte e trabalho, não por serem pessoas com deficiência. Aí, de fato, vamos começar a perder esse estranhamento e medo. E essa curiosidade faz parte de todas as relações humanas, né? Acho que temos que buscar conhecer o outro não só pela curiosidade que temos pelo corpo dele, porque eu acredito que isso é muito superficial. Prefiro me aprofundar nas minhas descobertas.
IC: Como foi fazer parte da curadoria desta edição do \\ENTRE\\? Como se deu o processo curatorial?
Brisa: Foi um processo muito fluido, né? Acho que todas as pessoas da equipe estavam sempre com o campo da escuta bem aberto - e uma escuta de maneira multissensorial. Compartilhamos ideias e saberes, levei minhas referências e elas trouxeram as suas, e pensamos o Brasil como esse território também grande e múltiplo, que tem sua diversidade. Então, tentamos não nos concentrar no Sudeste, mas mapear artistas que estão nesse território amplo, e também pensar na variedade das linguagens e nas representatividades dentro dessas interseccionalidades de raça e de gênero. Acho que, quanto mais conseguirmos cruzar essas identidades, mais abrangente será o nosso trabalho. Teremos oportunidade de conhecer outras pessoas e promover novos encontros.
Achei o resultado muito legal, acho que vai ser muito bonito. Estou super feliz de ter participado desse processo, que é também de mudança no formato do \\ENTRE\\, no qual teremos oportunidade de ver mais trabalhos nessas diferentes linguagens. Acho que essa diversidade tem a ver com podermos acessar corpos que estão fora da norma – perfis criativos que criam a partir da experiência com seus próprios corpos.
IC: E o que você imagina que esta edição do \\ENTRE\\ mostra de artes e cultura def terá de melhor?
Brisa: Acho que essa diversidade nos modos de fazer. Uma proposta muito importante também que essa edição trará, além das oficinas, são as mesas e as rodas de conversa, que têm sempre o filtro do anticapacitismo. Percebo que, mesmo com temáticas diferentes, partimos do pressuposto que esta ainda é uma discussão muito nova para a sociedade de maneira geral. É claro que é importante vermos um espetáculo que incorpora todas essas discussões, mas falar sobre isso é parte de desmistificar, de perder o medo, de não se estranhar tanto. Essas rodas de conversa permitem justamente a convivência, o encontro.
A interseccionalidade entre esses marcadores sociais - que eu tenho chamado de Encruzilhadas, para abrasileirar a expressão - ainda é algo muito novo. Só recentemente entendemos como não é só a deficiência, mas várias outras questões também nos identificam socialmente. Isso é importante trazermos para a discussão, assim como nos aprofundarmos nas discussões sobre estética e sensibilidade estética