Thiago Guimarães escreve sobre o terror no audiovisual brasileiro, com destaque para filmes disponíveis na IC Play
Publicado em 04/11/2026
Atualizado às 12:31 de 04/11/2026
por Thiago Guimarães
Há uma tradição no horror que se dedica ao retorno de um passado esquecido. Memórias ressurgem como fantasmas, violências são desenterradas e maldições emergem ao som de línguas há muito silenciadas. Paradoxalmente, o futuro também tem um papel importante no gênero: premonições, profecias e agouros condenam os personagens a destinos horripilantes. O presente é um mero instante que precede o mal inescapável.
Em sua vasta história, o cinema brasileiro desenvolveu suas próprias tradições de horror e, com elas, uma relação específica com o fluxo temporal. Na obra de José Mojica Marins, o Zé do Caixão, o futuro é um agouro expresso nos títulos de filmes como À meia-noite levarei sua alma (1964) e Esta noite encarnarei no teu cadáver (1967). O protagonista, obcecado em garantir a continuidade de sua linhagem, é atormentado pelos fantasmas das pessoas que ele mesmo violentou no passado. O presente é um limiar entre feridas não cicatrizadas e futuros moldados por legados interrompidos.
De 1967 pra cá, o horror brasileiro incorporou múltiplas tradições e por elas também foi incorporado: da chanchada, anterior a Mojica e precursora de uma vertente farsesca do gênero, ao cinema erótico dos anos 1970, com experiências limítrofes como Barão Olavo, o horrível, de Júlio Bressane, e a uma produção heterogênea nas décadas de 1980 e 1990, que transitou entre o trash, o erotismo e o fantástico. No século XXI, o horror social dá continuidade a essa tradição de hibridismo, dialogando com o drama, o suspense, a comédia e outros gêneros para elaborar medos ligados à vida social brasileira. A relação entre o macabro dessas histórias e o fluxo temporal se dá de forma crítica e consciente, estabelecendo um diálogo direto com questões históricas e territoriais.
Na abertura de Trabalhar cansa (2011), de Juliana Rojas e Marco Dutra, duas mulheres se veem dentro de um supermercado sujo, decrépito e vazio. “Isso aqui é um achado”, diz a corretora imobiliária para sua cliente em tom de promessa de possibilidades futuras. O que se revela, no decorrer do longa, é que o futuro prometido esconde algo monstruoso, vivo e impregnado nas paredes do local, expondo um horror urbano em que o concreto da cidade não existe separado da natureza. Similarmente, em O som ao redor (2012), de Kleber Mendonça Filho, a cidade é o eco de um passado rural em que dinâmicas exploratórias e relações sociais se reconfiguram ao longo dos anos.
São filmes em que o passado não é algo enterrado que ressurge, porque ele não foi a lugar algum. Do mesmo modo, o agouro não é algo que está por vir, mas sim o que nunca foi embora. O tempo, assim como o horror, é cíclico; o passado é onipresente e o futuro uma sucessão de interrupções. O horror brasileiro, portanto, reverbera a relação do Brasil com sua própria história, revelando um país marcado por rupturas e permanências, futuros que não chegam e um passado que insiste em se fazer presente.
Thiago Guimarães é roteirista, produtor audiovisual e criador de conteúdo. Desenvolve videoensaios e projetos de comunicação sobre cinema, televisão, cultura pop, plataformas digitais e políticas para o ecossistema da comunicação e do audiovisual. Seu trabalho articula análise crítica, pesquisa e divulgação científica para discutir as relações entre mídia, tecnologia e sociedade, com atuação em temas como regulação de plataformas, inteligência artificial, direitos dos criadores, políticas públicas para o audiovisual e desinformação. Também participa de iniciativas voltadas à educação midiática e ao fortalecimento do ecossistema digital brasileiro.