A jornalista Luísa Pécora escreve sobre o documentário de Jom Tob Azulay, disponível na Itaú Cultural Play
Publicado em 04/08/2026
Atualizado às 19:36 de 04/08/2026
por Luísa Pécora
“Todos os quatro são legais. Juntos, ficou muito mais legal ainda.”
Esse breve comentário de uma jovem de Florianópolis talvez seja suficiente para dizer por que alguém deve assistir a Os Doces Bárbaros, documentário que registra a histórica turnê conjunta de Caetano Veloso, Gal Costa (1945-2022), Gilberto Gil e Maria Bethânia.
Mas permitam-me contar um pouco mais. Em 1976, quando comemoravam uma década de carreira, os baianos se uniram em uma temporada de shows pelo Brasil. O encontro rendeu o disco ao vivo Os Doces Bárbaros, que completa 50 anos em 2026, e o documentário de Jom Tob Azulay, lançado em 1977.
Disponível na Itaú Cultural Play, o filme combina imagens das apresentações com cenas de bastidores, ensaios e entrevistas, incluindo a da jovem de Florianópolis. Foi na capital catarinense que Gil e o baterista Chiquinho Azevedo foram presos por porte de maconha e condenados a internação numa clínica psiquiátrica, o que interrompeu a turnê temporariamente.
A partir daí, o filme que retratava um momento especial na carreira dos quatro artistas revela-se também como retrato de um momento sombrio da história do Brasil. Gil e Caetano já tinham voltado do exílio, mas o país ainda vivia sob o autoritarismo da ditadura militar. E no palco, tudo fazia ode à liberdade: a atitude, os movimentos, os figurinos, o misto de influências (do rock ao candomblé) e as próprias canções, incluindo “Pássaro proibido” e “O seu amor”.
Azulay usou enquadramentos, movimento de câmera e montagem para destacar a força das interpretações e valorizar o que já era um espetáculo bem produzido e cheio de energia. Tomou, ainda, a acertada decisão de deixar que cada canção fosse vista na íntegra, e não em trechos curtos ou como trilha sonora para um compilado de outras imagens.
Documentários musicais apelam aos fãs, mas também apresentam a riqueza da música brasileira a novos públicos e gerações. No catálogo da IC Play é possível, por exemplo, conhecer melhor a obra de artistas que foram referência para o quarteto baiano, como Dorival Caymmi (1914-2008); que foram originais e influentes, mas não alcançaram o mesmo reconhecimento, como Itamar Assumpção (1949-2003); ou que tiveram sucesso regional, como Delinha (1936-2022), a Dama do Rasqueado.
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