Pintura faz parte do projeto “Arte Urbana”, que convida artistas a transformar o cenário da Avenida Paulista em um belo jardim botânico
Publicado em 04/02/2026
Atualizado às 15:53 de 04/02/2026
Por Gabriel Lopes
Ainda que o progresso tenha avançado em São Paulo e a cidade de concreto sido erguida, a memória de um lugar repleto de vida e diversidade ainda existe. A Mata Atlântica, mesmo que como um espírito ancestral, ainda vive na capital paulista – mas, no lugar antes conhecido como a terra da garoa, hoje, já não garoa mais.
É a partir da ideia dessa reflexão que a artista plástica Pati Rigon decide trazer a floresta de volta à Avenida Paulista. Sua obra, Não garoa mais na terra da garoa, colore a fachada do Itaú Cultural (IC). A pintura exibe um galho repleto de flores de paineira, uma planta que é nativa da América do Sul e que, para a artista, simboliza um resgate da memória paulistana.
Gaúcha, Pati cresceu envolta por uma paisagem marcada pela vegetação rasteira dos Pampas, onde desde cedo criou uma profunda conexão com a natureza. Formada em design pela Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS), ela conta ao site do IC como suas experiências em diferentes países a levaram a abraçar e viver de sua vocação, a pintura, e mudar-se para o interior de São Paulo, vivendo ao lado da floresta.
Confira a entrevista na íntegra.
Como começou seu envolvimento com a arte e com a natureza?
Meu contato com a natureza começou desde o nascimento, pois nasci no interior do Rio Grande do Sul, muito próximo aos campos do Pampa. Desde sempre cultivei uma conexão quase espiritual com a natureza, algo que mantenho até hoje. Atualmente, moro no interior de São Paulo, em um lugar repleto de árvores; uma floresta intocável, e para mim é um privilégio estar aqui.
Assim como a natureza, minha conexão com a arte é natural. A arte é algo que sempre esteve comigo, e costumo dizer que nunca me tornei artista, eu sempre fui, só não monetizava com isso. Quando criança, sempre fui muito criativa, adorava desenhar, criar e inventar coisas com todo tipo de material.
Com o passar do tempo, cresci e mudei de cidades e países diversas vezes para estudar e trabalhar, mas sempre procurei manter o vínculo com a natureza e a arte aceso. Sou formada em design, mas não achava que era viável viver de arte, naquela época, já que não conhecia ninguém que vivesse disso.
Foi enquanto eu morei na Itália, entre 2009 e 2012, que decidi começar a pintar, por causa do quadro O nascimento de Vênus, de Sandro Botticelli. A experiência de enxergar aquela obra de perto enquanto eu ainda era estudante me trouxe inspiração, e eu disse a mim mesma: “Eu consigo fazer isso”. A partir de 2015, tornei a pintura minha principal fonte de renda.
E como foi seu processo criativo para criar a arte exposta na fachada do IC e trazer esse resgate da Mata Atlântica?
Como disse, hoje eu moro cercada pela Mata Atlântica. Embora tenha conhecido diversos lugares com natureza muito exuberante, essa floresta para mim é especial. Além disso, São Paulo inteira já foi uma floresta; rios e nascentes já correram na cidade, que se tornou apenas uma selva de concreto. É triste pensar que perdemos toda a biodiversidade que antes existia.
Por isso, trouxe a paineira, uma planta nativa do bioma. Quando ela fica muito alta, sua copa se sobressai e ela floresce, por isso também é conhecida como “a coroa da Mata Atlântica”. Trouxe apenas um galho, como um ato de memória, e nomeei a pintura como Não garoa mais na terra da garoa, em crítica ao que se perdeu.
O que você espera despertar nas pessoas que entram em contato com a arte?
Espero que a pintura, mesmo para quem está apenas de passagem na Avenida Paulista e não se aprofunda na leitura e nos conceitos, traga felicidade e seja algo agradável aos olhos.
Inclusive, enquanto eu pintava, todas as senhorinhas e crianças que passaram ficaram encantadas com a pintura; uma dessas crianças me disse que o desenho da flor alegrou seu dia.
Então, minha intenção é despertar a alegria, em primeiro lugar, e, para aqueles que se aprofundam na leitura e no conceito, proporcionar também um sentimento de reflexão sobre o progresso.
Como você entende a importância de a arte ocupar esses espaços públicos?
Eu adoro e acho muito importante! Eu comecei a pintar em telas, que eram expostas em galerias e museus, mas para um público muito restrito. Já ouvi relatos de pessoas que se sentiam desconfortáveis de frequentar esses lugares, por acreditarem serem mais simples que eles. Por isso, a arte de rua é muito importante, pois qualquer um a verá sem sentir inferior. Essa é a principal forma de democratizar a arte e seu acesso.
Além disso, pintar na rua é sempre melhor para mim por causa da troca com o público. As pessoas costumam ser muito solícitas e ficam empolgadas com o desenho, pois a arte as toca.