por Heloísa Iaconis

Conta a lenda que indígenas do grupo dos Caingangues adoravam dois deuses: Tupã e o seu filho, Mboi (criatura com feição de serpente que habitava o Rio Iguaçu). Para o deus cobra, o povo oferecia em sacrifício as mais belas virgens da terra – e Naipi, descendente do cacique Igobi, foi, certa vez, a escolhida. Durante o ritual, porém, Tarobá, jovem guerreiro apaixonado pela moça, fugiu com a amada em uma canoa. Contrariado, Mboi abriu uma fenda que originou as cataratas: nelas, Naipi foi transformada na rocha principal e Igobi virou uma palmeira a pender sobre a garganta das águas. A narrativa simbólica a respeito das Cataratas do Iguaçu permeia a rotina de Soledad, professora de dança do Paraguai: à noite, ela vem para o Brasil e, em uma churrascaria famosa, apresenta um show no qual interpreta a donzela indígena.

Entre idas, vindas, vindas, idas, vivem Soledad e outras várias trabalhadoras: um constante cruzar de divisas e histórias que, há mais de uma década, intriga a documentarista Francieli Rebelatto. Com o tempo, esse interesse primeiro cresceu, ganhou formas distintas (de registros em vídeo a um mestrado em antropologia), maturou. Até que, sete anos atrás, a cineasta passou a lecionar na Universidade Federal da Integração Latino-Americana (Unila), onde começou, em definitivo, a se aprofundar na relação entre fronteiras e mulheres.

De tanto refletir acerca desse tema, surgiu, há oito semestres, o projeto Pasajeras, uma busca audiovisual por compreender o contexto todo em que se inserem essas figuras femininas. Na edição de 2017-2018 do Rumos Itaú Cultural, o trabalho foi contemplado e, dessa maneira, Francieli obteve aparato (técnico, financeiro, de ideias) e segurança para eternizar trajetórias de quem não para de se deslocar. “Fiquei feliz por saber que gravarei tudo com recursos, estrutura, condições”, observa a selecionada.

Corações na câmera

Quando pequenina, Francieli incomodava-se com as fotos que o seu pai fazia dela e dos demais parentes. Os recortes não lhe agradavam. Mas, apesar do desconforto, a imagem paterna carregando uma câmera fixou-se na então menina. Já com o vídeo, o laço emergiu por meio da memória – ou melhor, da falta dela. Não ter registros em movimento instigou a garota a conservar experiências. Cliques e enquadramentos, desse modo, chegaram até ela por caminhos familiares, de afeto. À frente, ainda novata na faculdade de jornalismo, encontrou uma filmadora e uma máquina fotográfica e não mais parou de ver o mundo através de lentes – as suas e aquelas de Agnés Varda, Abbas Kiarostami, do cinema paraguaio.

Agora, no processo de realização do documentário Pasajeras, a artista não se desatrela do seu instrumento primeiro. Na ferramenta de gravação, coopera um time de corações: o da própria diretora, os da equipe completa (integrada apenas por mulheres e que firmou uma parceria com a empresa produtora Besouro Filmes) e, claro, os das personagens, gente que se abre em flor e, diferente de scripts fechados, não cabe em um controle rígido. “Temos de ter cuidado, ética, respeito para entender o ritmo de cada uma, lidar com imprevistos e, dotadas de sensibilidade, perceber o elo que elas desenvolvem com o equipamento”, ressalta Francieli.

Com a primeira versão do roteiro concluída, a obra deve ser rodada entre o fim de agosto e meados de setembro, período em que Soledad, Felicia e companhia ficarão na tela – e para além dela.

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