por William Nunes

“Quer dizer que as mulheres não estavam escrevendo nessa época?”, questionou a poeta, tradutora, editora e livreira Sarah Rebecca Kersley. Ela, que chegou do Reino Unido ao Brasil há 20 anos, coordena a Livraria Boto-Cor-de-Rosa e o selo editorial paraLeLo13S ao lado da pesquisadora e professora Milena Britto. A dupla é responsável pelo lançamento de O mameluco, romance inédito da autora baiana Amélia Rodrigues – obra escrita no final do século XIX e publicada apenas em folhetim no Recôncavo Baiano em 1882. Selecionado pelo Rumos Itaú Cultural 2019-2020, o projeto surge de um extenso trabalho de pesquisa iniciado ainda na graduação de Milena e, posteriormente, retomado em parceria com Sarah.

Amélia Rodrigues nasceu no município de Santo Amaro, em 1861, e faleceu em Salvador, em 1926. Escritora, poeta, jornalista, dramaturga e professora, é lembrada por sua importante atuação em temas sociais, raciais e de gênero na Bahia. “Ela tem uma percepção muito mais interessante do que a sociedade na época fazia. Até mais interessante, por exemplo, do que seus pares masculinos”, diz Milena.

Lançamento

O mameluco está em pré-lançamento no site da Boto Cor-de-Rosa. O lançamento ocorre no dia 21 de junho, junto com um debate que acontecerá ao vivo no canal do YouTube da livraria. A narrativa situa as discussões raciais da época e traz a mestiçagem brasileira para um debate aprofundado, além de abordar a violência da Guerra do Paraguai.

Nesta entrevista, Milena e Sarah falam sobre Amélia Rodrigues e a obra inédita, além de detalharem o processo de pesquisa que resultou no livro.

Como foi o primeiro contato de vocês com Amélia Rodrigues e sua obra?

Milena: Vi o anúncio de um projeto de pesquisa de literatura que trabalhava com manuscritos da escritora Amélia Rodrigues. Os manuscritos estavam numa espécie de biblioteca do Instituto Feminino da Bahia, uma escola para mulheres em que Amélia foi professora. A minha orientadora, Ivia Alves, estava começando a recolher esse material e dividiu a equipe – algumas ficavam com as cartas, com os textos em prosa, outras ficavam com a poesia. Eu comecei com o teatro de Amélia Rodrigues, transcrevi a peça Fausta – que depois foi publicada em livro por esse projeto de pesquisa. Eu era uma aluna de graduação e estava fascinada com aqueles documentos. Naquele momento, pensava neles mais como uma memória, ainda não estava articulando questões políticas nem mesmo feministas, como a gente faz hoje. Foi um primeiro momento para entender a quantidade imensa de material que ela tinha; Amélia escrevia muito. A peça me chamou atenção porque tinha uma personagem negra muito forte.

Tivemos acesso a uma grande quantidade de material de jornal que ela repostava. Ela recortava matérias do exterior, notícias sobre a cidade, produções poéticas de mulheres católicas, de padres – ela teve esse envolvimento com a Igreja católica. Os documentos demonstravam essas [diferentes] fases. Quando apareceu a notícia que falava do romance, O mameluco, ninguém sabia desse material – éramos três ou quatro pesquisadoras e a minha orientadora. Quando descobrimos que era no jornal Echo Sant’Amarense, começamos a procurar, mas não tinha data. Lembro-me de olhar vários anos anteriores até que um dia me deparei com o jornal que tinha [a notícia de O mameluco], e a partir daí quis estudar o romance.

Tive que transcrevê-lo, mas naquela época nós não podíamos levar a câmera fotográfica para fotografar, não podia nem usar flash; usávamos luvas para manusear e não havia recursos. Não havia microfilme no jornal – até hoje, na verdade, é o jornal original. Então, são trechos amarelados ou totalmente apagados, ou uma frase inteira muito boa para ler e depois outra frase totalmente danificada. Fiz a primeira transcrição para depois estudar o que ela estava escrevendo, o que virou uma parte do meu mestrado e depois aprofundei no doutorado, juntando toda a produção dela a que tive acesso. Esse material se perdeu, eu fui embora do Brasil e passei quase uma década fora. O Instituto de Letras também não guardou os materiais, e só ficou uma cópia de rascunho da minha própria tese, ainda dessa forma, incompleta, com muito texto para resolver.

Acho que Sarah conheceu a partir desse material que mostrei a ela.

Sarah: Depois disso tudo, sim, eu entro. Ela me contando desse projeto e sobre as dificuldades.

Eu venho do Reino Unido, de uma formação acadêmica, mas não só acadêmica. É uma coisa completamente natural para mim, como leitora e pessoa interessada em literatura, conhecer todo esse contexto de mulheres canônicas dos séculos XVIII e XIX – época em que se insere Amélia Rodrigues. É completamente normal no imaginário de uma leitora inglesa falar de mulheres ao lado dos vários homens dessa mesma época. Quando cheguei ao Brasil – na Bahia, há 20 anos –, uma das coisas que percebi foi que, quando as pessoas falam dos escritores canônicos dos séculos XVIII e XIX, as referências são todas de homens. Quer dizer que as mulheres não estavam escrevendo nessa época? Eu fiquei um pouco desnorteada nesse sentido.

Quando cheguei a Salvador, conheci Milena e ela começou a contar um pouquinho da tese a respeito de Amélia Rodrigues. Eu fiquei fascinada com essa história. Sendo contemporânea de autores como José de Alencar, e todas essas questões, ela não é uma escritora conhecida, e esse romance nunca foi publicado em livro. Milena foi se aprofundando na história da tese e eu tentando entender essa situação – enfatizando de novo que venho desse lugar em que, por exemplo, como não existe microfilme na biblioteca? Como você não pode ligar para a biblioteca e pedir que eles lhe enviem fotos dos jornais? Olhei os fragmentos e o romance como ele estava, além de Milena ter falado muito da parte da transcrição do romance do jornal.

Além disso, Milena fez uma fantástica análise do próprio romance de uma forma literária também na tese dela, tanto do romance quanto do contexto. Fiquei muito encantada com a história de Amélia Rodrigues e suas escritas, em especial o romance O mameluco, e percebi que era uma coisa muito importante para o contexto da literatura brasileira publicar esse trabalho em livro.

Quem foi Amélia Rodrigues? E em que contexto ela estava inserida?

Milena: Amélia Rodrigues era uma mulher branca que teve acesso à educação, então ela está obviamente numa condição que já é privilegiada. Mas também, pelo contexto da época, a gente percebe que a família dela não tinha dinheiro, porque ela fez vários concursos para o magistério, e é um momento no qual as mulheres que têm dinheiro são realmente preparadas para o casamento – são as herdeiras, elas cuidam da família. Portanto, ela está nesse entrelugar de uma classe média remediada ou uma família branca que não é aristocrática, mas que, mesmo assim, no século XIX, pertencia a uma classe social que era próxima do que a gente chamaria de “ela tinha permissão para circular”. Ela era muito respeitada por religiosos, porque foi formada, inclusive, por cônegos famosos na época. Os preceptores, professores e mestres dela eram todos religiosos, ligados à Igreja católica, já no Recôncavo Baiano e posteriormente em Salvador.

É fascinante, porque é um desses casos em que ela tinha o dom da escrita. A gente tem notícia de poemas dela desde que ela tinha 12 anos. Amélia era muito elogiada pela capacidade de articulação e de escrita. Na época, era difícil para a mulher passar em concursos públicos, então, quando elas passavam, isso saía em jornal. Existem muitas notícias de jornais falando que ela passou nesse concurso, que era uma grande coisa. Amélia tinha uma formação intelectual muito avançada e, ao mesmo tempo, pelo material que a gente viu, era muito interessada em assuntos variados. A questão religiosa sempre esteve presente, mas, quando ela começa a escrever, está menos vinculada à ética religiosa. Os temas passaram a ser mais religiosos quando ela passou a morar em Salvador, quase com 30 anos. Amélia estava bem vinculada à Igreja, organizou movimentos de senhoras católicas em defesa da moral e dos bons costumes. Mas sua primeira fase tem poemas que são um pouco mais... Não diria eróticos, e sim dependentes de uma certa forma de falar. Os temas sociais sempre estiveram presentes.

O que acho interessante é que ela vinha de uma região escravocrata, conservadora, que mantinha a estratificação social muito vinculada ao período colonial. A gente não tem notícias de escritoras mulheres negras da Bahia, mesmo que devêssemos ter mulheres negras escrevendo na época – tivemos Maria Firmina dos Reis no Maranhão. Para mim era muito chocante ver que ela estava produzindo poemas, peças de teatro, romances. Este [O mameluco] foi publicado no principal jornal conservador do Recôncavo Baiano, o mesmo jornal em que todos os senhores de escravizados publicavam notícias sobre escravizados que tinham fugido ou sumido. Os títulos eram: “Meu escravo fugiu”, “Escravo fugido”, “Recompensa para quem achar o meu escravo”. O que ela escreve na sua vida adulta, depois dessa primeira fase, é mais voltado para uma dinâmica católica, paternalista, humanista sempre, mas muito voltada para a questão da fé. Mas, naquele momento, o interesse dela era muito mais dentro de uma lógica social, o mecanismo social que recebia e acolhia esses indivíduos.

Ela, jovem – o romance foi publicado quando tinha 21 anos –, já estava pensando muito nessas questões. Ela provavelmente estava lidando com um ambiente social cujas contradições, pensando na Bahia, estavam num nível muito profundo de convivência mútua e um tipo de desequilíbrio. Provavelmente, como ela estava alfabetizando crianças, estava começando a lidar com essas relações da mestiçagem – até porque, na estrutura social do Recôncavo, pesquisei que muitos dos donos das pequenas propriedades já não eram brancos, eram negros de pele clara (e eles também não eram aceitos como os brancos proprietários de terra).

Temos que pensar o seguinte: era o final dos anos 1800, quando muitas coisas estão acontecendo, e os romances urbanos no país e as relações urbanas estavam sendo discutidos de outra maneira. Pode parecer atrasado, mas não é. Na situação de que na Bahia, contextualmente e historicamente, se mantinha a mesma estrutura social racializada dentro desse esquema de grandes proprietários de escravizados, de terra, de engenho. Tanto que, depois que Amélia vai para Salvador, começa a ver outra forma de viver a vida na cidade. No Recôncavo, ela estava tentando escrever a partir do lugar dela. Eu fico um pouco chocada, porque não eram os homens da Bahia dessa época que estavam escrevendo sobre isso, era ela, uma mulher jovem de 21 anos. Quem está interessado pelos temas marginalizados, pelos temas que estão causando certo desconforto, é sempre um corpo que de alguma forma está fora de uma lógica.

Imagino que era esperado dela um casamento, uma adequação, mas Amélia não vai por esse caminho. Ela é uma intelectual nata, que se interessa por muitos assuntos, fala, lê e escreve em várias línguas. É tão erudita que escreve, como descobrimos depois, os sermões dos padres. Os padres mais famosos da época estavam todos ligados a ela. É uma pessoa que tanto sabe da parte religiosa quanto estava lendo sobre tudo o que acontecia no mundo, todas as mudanças políticas.

Quando começa esse feminismo, no século XIX, ela é daquele grupo que traz o feminismo para o catolicismo e começa a falar que as mulheres têm de formar cidadãos. Ela começa a defender o direito de as mulheres estudarem, se interessarem pelas questões políticas – há artigos dela defendendo o voto feminino.

Sarah: E, no caso desse romance, O mameluco, publicado nesse jornal conservador, estava, além de escrever, sendo lida por pessoas da sociedade dominante dessa região. Eu percebi isso quando vi o jornal na biblioteca onde foi feita essa transcrição. Não é que ela tivesse um cantinho numa página do jornal, escondido. Todos os dias – porque esse romance foi publicado em episódios, um capítulo por dia – e durante boa parte de um ano, O mameluco ocupava metade de uma página inteira desse jornal. Ela estava nesse lugar ao lado de outros artigos que eram muito importantes para a sociedade na época, sendo lida e comentada dentro desse mainstream do momento.

Imagem da capa do livro O Mameluco, em preto e branco. A capa traz uma imagem de um vasto campo com algumas pessoas. O título do livro e da autora estão escrito na parte superior da capa, na cor preta.
Capa do livro O mameluco, romance inédito da escritora Amélia Rodrigues (imagem: divulgação)

Qual é a narrativa de O mameluco?

Milena: O romance, basicamente, tem três temas fundamentais. Um dos temas é a mestiçagem, porque ela recupera esse diálogo com José de Alencar, a partir desses irmãos – uma moça e um rapaz – filhos de branco com indígena, por isso são mamelucos. O pai morre e eles ficam órfãos. O tio, que é o homem branco, não deixa que os sobrinhos que são mestiços herdem essas terras. Eles estão sendo tratados como empregados, maltratados, e o rapaz é agarrado por um coronel para ser mandado à Guerra do Paraguai em troca de patente. A presença indígena na formação desses dois jovens é a marca negativa, a qual coloca eles abaixo de uma linha social.

É muito interessante que, para provar – e nisso entramos no segundo assunto do romance – o seu valor, ele não quer ser submisso nem inferior, o rapaz escolhe ir para a Guerra do Paraguai. Ele passa três anos na guerra, dando toda a sua força e a sua juventude, lutando, oferecendo a sua vida em prol da pátria. Amélia Rodrigues também aproveita, algo incomum na época, para falar muito mal da guerra – inclusive da hipocrisia do país em todos os níveis. Ela não trata, em nenhum momento, esse patriotismo como uma coisa positiva; ela mostra mesmo o desperdício da vida humana. Amélia exerce o pacifismo quando em nenhum momento do romance ela exalta essa guerra.

E o terceiro assunto do romance é essa nova forma que está começando a surgir, e ela está no Recôncavo vendo isso, que são essas convivências sociais entre raças. O que se vai fazer? Como organizar? De repente essas revoltas que aparecem no romance são uma espécie de metáfora também, muito violenta e forte, mas são uma metáfora de um Brasil velho que tem que ficar para trás. E ela escolhe esse corpo negro. Os escravizados ficam à mercê o tempo inteiro da vontade do branco, então, quando essa jovem negra escravizada toma a frente, organiza tudo isso, Amélia Rodrigues já está lidando metaforicamente com uma estrutura de país que é inviável e que precisa do risco monumentalmente radical de uma figura.

Eu quase imagino que o romance foi escrito para esse tipo de classe que está entre um Brasil e outro, mas dentro de uma forma social que está se modificando e quase como se ela estivesse didaticamente explorando os ânimos das pessoas para aceitarem pacificamente. É quase como dizer: “Olha, branco, se você não quiser pacificamente, vai chegar esse momento de sua fazenda ser atacada, de você poder ser assassinado pelos escravizados, de você perder tudo pelo fogo...”. Na verdade, acontecia muito, estava cada vez mais acontecendo, mas ela faz isso de uma maneira monumental no romance.

Como a obra está inserida naquela época?

Milena: Pense que ela está escrevendo em 1880, e o José de Alencar, a essa altura, já estava morto, então, é óbvio que ela leu a trilogia de José de Alencar, mas provavelmente ela não leu Maria Firmina – Maria Firmina também ficou numa espécie de limbo e foi resgatada mais ou menos dentro dessa onda de resgate de mulheres desse período. Agora, a Maria Firmina teve um sucesso, ela fez uma espécie de best-seller na sociedade maranhense, ela teve um sucesso no grupo, mas não acredito que Amélia chegou a ter acesso a esse romance. Ela teve uma formação muito fincada no cânone europeu principalmente – francês, alemão, inglês, como falei, era uma pessoa muito leitora e atenta a essas questões.

Esses romances que estavam discutindo o Brasil circulavam muito, até porque era uma discussão que envolvia dinâmicas de divisão social, de fixar a pátria. Todo o Romantismo é a formação de Amélia Rodrigues, ela nasce dentro desses limites entre o Romantismo e o Primeiro Realismo. Mas lembrando que a Bahia – diferentemente do Rio de Janeiro e de centros urbanos –, principalmente a Bahia do Recôncavo, de certa forma está dentro de uma tradição que está mais interessada em trazer essas dinâmicas e essas relações como uma forma de verniz cultural e intelectual, e muito menos em promover interesse de modificações reais.

Embora Amélia Rodrigues escreva sobre a mestiçagem brasileira, acho muito interessante entendê-la mais dentro dessa turma que está pensando a formação da identidade brasileira a partir da mestiçagem. Acaba documentando para a gente essa dicotomia de como ver essas pessoas escravizadas, principalmente as pessoas negras escravizadas da época. Porque a sociedade está indo para toda a discussão de liberdade, em fase de transição. A Bahia foi um dos últimos estados a aderir, de fato, à abolição. Tardou muito, ao contrário do que se esperava, mas, ao mesmo tempo que existe toda essa conservação violenta da estrutura, é também onde mais há levantes, revoltas e fugas coletivas de escravizados. E eu acho que Amélia, naquele momento, com uma visão progressista, estava pensando em como esses elementos teriam de compartilhar essa nação nova que estava chegando.

Ela faz uma coisa muito interessante que é destacar mesmo a violência que foi a escravização – ela repete de várias formas como isso foi injusto, como esses corpos foram arrancados contra a sua vontade, como eles foram desprovidos de suas culturas, de suas línguas, de suas terras, de seus entes amados. Ao mesmo tempo, estruturalmente, ela também está numa engrenagem racista. A gente não pode esquecer que é uma época em que falar sobre isso já é uma grande coisa, e é por isso que vemos o avanço dela. Amélia está tentando entender isso em colaboração com a raça branca. Ela não é, por exemplo, uma escritora negra, nem descendente de negros, indo por uma radicalização; muito pelo contrário, está tentando ver a conciliação desse desequilíbrio de forma que as pessoas brancas que ainda são contra essa presença entendam essas pessoas, primeiro como seres humanos, depois como pessoas que foram violentadas.

Ela sempre traz em suas obras personagens negras que são muito puras, mas também coloca personagens negras que são muito estereotipadas: as violentas, perversas, invejosas. Então, sim, estruturalmente está reproduzindo os esquemas racistas também, mas dentro do que era feito na época. A diferença é que ela coloca sem nenhum temor a inteligência muito rebuscada dessas figuras. Ao mesmo tempo que ela demoniza certas personagens, ela coloca uma agudez que vai de encontro àquela ideia de que os negros escravizados não tinham cérebro, não pensavam, não tinham autonomia.

Mesmo que Amélia Rodrigues seja essa branca remediada, ela tem uma percepção muito mais interessante do que a sociedade na época fazia. Até mais interessante, por exemplo, do que seus pares masculinos, porque ela coloca essas questões de uma maneira mais complexa.

Ela se coloca de alguma forma dentro do texto ou ela é, de fato, uma observadora?

Milena: A narração é toda em terceira pessoa, mas é muito interessante, pois há momentos em que, através da mameluca, a gente pode sentir uma voz de Amélia. Ela vai variando as personagens para falar certas ideias. Isso eu percebo porque li muita coisa dela. Há momentos em que ela vai usar a menina branca, mas são raros esses momentos, porque a menina branca representa algo de que a própria Amélia não faz parte. É a menina branca aristocrática, protegida, rica, mimada, que não tem acesso à educação, no sentido de que Amélia tem. Então, a própria Amélia despreza a menina branca. A menina branca tem as falas religiosas, paternalistas, românticas. Mas ela usa outras mulheres e homens para falar de ideias que pensa, isso dá para perceber.

Ilustração colorida que mostra uma mulher negra, com um lenço vermelho na cabeça. Ela está com uma roupa preta com detalhes em amarelo e verde e carrega uma bagagem nas costas. A ilustração faz parte do livro O mameluco, de Amélia Rodrigues.
Ilustração para o livro O mameluco, lançado pela livraria Boto-Cor-de-Rosa e o selo editorial paraLeLo13S (imagem: Flávia Bomfim)

Como foi o processo de resgatar a obra?

Milena: Eu falei para a Sarah que, para mim, o projeto só teria sentido se o público leitor pudesse ler o romance. Fico pensando muito em como conectamos o passado e o presente. Eu vejo esse documento, apesar de ser uma memória cultural, política. Esses assuntos se conectam com o que discutimos agora. Até hoje a gente não tem essa solução racial, o Brasil volta sempre a esse tema. Quando pensamos sobre as questões raciais, a questão da identidade nacional e essa tradição da mestiçagem, é um romance que dá mais – principalmente porque é uma mulher falando sobre isso – caldo, digamos assim.

É um documento que serve para quando falamos do silenciamento sobre corpos negros e as estruturas dos brancos. É um material para entender esse percurso. Questões econômicas, educacionais, estéticas, tudo está vinculado a isso. Eu queria trazer esse tema de forma que o leitor conseguisse ver o que estou discutindo, e não só o meu trabalho acadêmico.

Fui para a biblioteca um pouco antes da pandemia para começar a ver se o jornal ainda existia. Quando voltei, o material estava do mesmo jeito, só que mais velho. Percebi que, se a gente fotografasse com celular muitas das partes que não conseguia ler, usando o zoom, conseguiríamos resolver. A gente fazia a transcrição do que era possível na biblioteca, mas também fotografávamos para poder manusear. Eu, Sarah e Isis – nossa preparadora – tentávamos adivinhar palavras que só tinham uma letra ou uma frase que estava apagada. Chegou uma hora em que tivemos que decidir o que fazer com o que não conseguimos. Editamos um pouquinho só para poder fazer sentido para o leitor, adicionando uma nota de rodapé no trecho editado. Foram poucos lugares do texto.

Como Amélia é vista ou estudada hoje?

Milena: Amélia Rodrigues é uma personagem muito famosa na Bahia, porque ela foi pioneira por essas questões do ensino misto, por exemplo. Quando vai para Salvador, ela tem a primeira escola mista de meninos e meninas, foi muito atuante na sociedade com os problemas da cidade. Ela faz revistas que ensinam o que todas as revistas femininas ensinavam – de culinária, de tudo –, mas também discute questões morais, políticas, como as mulheres devem formar os cidadãos – que são os meninos.

A primeira parte da vida dela, como falei, foi de uma produção muito interessante, desvinculada da Igreja católica, mas a fase adulta é tudo dentro da moral cristã e católica da época. Os romances passam a ser romances didáticos, de ensinamentos morais. Ela fez um grande projeto de vida, Flores da Bíblia, que era reescrever toda a Bíblia em verso para crianças, e ela dedica décadas da vida para fazer isso e, no final, morre sem ver o livro publicado.

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