CineAula IC Play 2026 #3: Resistência negra como casa de memórias, afetos e histórias
A terceira sequência didática da edição de 2026 do “CineAula IC Play” aborda o “O dia de Jerusa”, de Viviane Ferreira
Publicado em 11/05/2026
Atualizado às 15:32 de 11/05/2026
CineAula IC Play – 2a edição Luz, câmera, educAção: o streaming gratuito do cinema brasileiro na sala de aula
por Iza Reis Gomes
Sequência didática #3: Resistência negra como casa de memórias, afetos e histórias
Ficha técnica
Título:O dia de Jerusa Ano: 2013 Direção: Viviane Ferreira Elenco: Abel Borba, Antônio Fagundes, Pedro Santos e Zé Victor Castel Elenco: Débora Marçal e Léa Garcia Estado: São Paulo Classificação indicativa: A12 Gênero: drama Idioma: português Sinopse: Jerusa é uma senhora que completará 77 anos. Silvia é uma pesquisadora de uma marca de sabão. Do encontro das duas nasce um momento de acolhimento, resistência, memórias, presenças e ausências. O dia de Jerusa é uma história sobre envelhecer sem desaparecer, sobre enfrentar o peso invisível do racismo, sobre a força de quem resiste todos os dias para poder existir. Um filme que prova que família pode nascer de encontros improváveis e que a empatia é capaz de costurar, ainda que por algumas horas, os rasgos deixados pelo tempo. I. CARTA AO PROFESSOR – O PODER DAS MEMÓRIAS NA EDUCAÇÃO
Caro professor e cara professora,
Vamos imaginar ou lembrar como é a sua relação com os mais velhos, como ela é ou foi com os seus avós ou outras pessoas idosas de sua convivência, como vizinhos, colegas de trabalho, amigos, familiares e familiares de amigos, entre tantas outras possibilidades. Vamos pensar em como você se relaciona com essas pessoas que passaram por muitas situações e experiências no decorrer da vida. Além disso, se você é idoso, como as pessoas se relacionam com você e como você se relaciona com outros idosos? A experiência é uma palavra que carrega muitas subjetividades – e, quando a utilizamos em parceria com o termo “educação”, podemos criar realidades potencializadoras.
Jorge Larrosa Bondía (2002) pontuou sobre a relação entre “experiência” e “sentido”, na perspectiva de essas palavras potencializarem subjetividades. No curta-metragem O dia de Jerusa há essa relação potencializadora no encontro da experiência da personagem Jerusa com a luta por uma vida melhor da personagem Silvia. Jerusa, uma senhora negra, aposentada e viúva, mora sozinha e espera a visita dos filhos e dos netos para seu aniversário. Silvia, uma jovem negra, pesquisadora de produtos, vai de casa em casa realizando um questionário sobre a marca de um sabão. Nessa caminhada, enfrenta assédio, racismo e dificuldades para permanecer em seu emprego.
Jerusa arruma a casa e faz bolo e doces para ver sua família e comemorar seus 77 anos. No entanto, a única visita que recebe é a da pesquisadora de produtos Silvia. Nesse encontro, Jerusa, com as suas palavras, nos conecta a vários sentimentos e realidades que uma pessoa com mais vivências pode apresentar. Suas falas e o modo como as diz estimulam uma reflexão sobre memórias, família, histórias, solidão, reconhecimento, valorização, resistências, ausências e presenças. Já Silvia nos traz a esperança do acolhimento, da empatia, da solidariedade, da resistência pela escuta e pela sensibilidade atenta.
Percursos de lutas e resistências, como as que marcam a história de Jerusa e Silvia, são encontrados em nosso dia a dia constantemente. Levar essas temáticas para a sala de aula por meio de um curta-metragem, portanto, é uma possibilidade de aprofundar reflexões sobre questões reais que perpassam a vida em sociedade, incluindo a dos estudantes, de seus familiares, colegas, amigos e conhecidos. Dessa forma, estabelece-se uma profunda relação entre a abordagem escolar e a vida.
Além disso, aproximar o cinema da escola é também ampliar as formas de leitura que oferecemos aos nossos estudantes. Pensando nisso, propomos esta experiência de cineaula com o curta-metragem O dia de Jerusa, visando favorecer o letramento audiovisual, a formação estética e o olhar crítico dos jovens sobre si, o outro e o mundo.
Nesta proposta, o filme será tratado além de sua potência como entretenimento: ele será trabalhado como texto cultural e literário, que narra, simboliza, silencia e diz, assim como um conto, um poema ou um romance. A observação atenta das imagens, dos gestos, dos enquadramentos e dos tempos narrativos permitirá que os estudantes desenvolvam uma leitura sensível das relações humanas, da memória, do afeto e da velhice, temas centrais da obra.
A proposta dialoga diretamente com a Lei no 13.006/2014, que visa garantir a exibição de produções nacionais na educação básica, e com a Base Nacional Comum Curricular (BNCC), ao mobilizar competências ligadas à leitura, à interpretação, à empatia, à diversidade cultural e à análise crítica das linguagens contemporâneas.
As atividades sugeridas para abordar a obra em sala de aula estão organizadas como as partes de um filme:
·1a – abertura: para preparar o olhar do estudante; ·2a – fruição: para assistir à obra; ·3a – reflexão e criação: a fim de que imagem, palavra e experiência se encontrem.
Durante o percurso, você atuará como mediador de sentidos, ajudando os estudantes a perceber que o cinema, assim como a literatura, constrói narrativas, produz memórias e nos convida a ver o mundo por outras lentes. A mediação proposta dialoga com as ideias de Juliana Pádua Medeiros e Joana Marques Ribeiro (2024), que promovem a leitura como um jogo investigativo, priorizando a qualidade das situações de aprendizagem por meio de exercícios criativo-interpretativos, ampliando horizontes de leitura e ressignificando a prática docente.
Ressaltamos que o uso de recursos digitais, quando necessário, deve ser feito exclusivamente para fins pedagógicos, conforme a legislação vigente, e sempre sob a orientação docente. Além disso, reforçamos que a centralidade desta proposta está no encontro do estudante com a obra, no silêncio da observação, na palavra que nasce depois da imagem e na escuta que se constrói em grupo.
Desejamos que esta cineaula seja um caminho para promover humanização e sensibilidade e que o filme O dia de Jerusa possa tocar os estudantes como os bons livros costumam tocar as pessoas: abrindo espaço para perguntas, despertando afetos e ampliando modos de existir e compreender o outro.
Assim como um bom texto literário, O dia de Jerusa permite diferentes entradas de leitura, podendo ser trabalhado em diversos contextos escolares, desde que se observem, com atenção, a classificação indicativa e o perfil dos estudantes. As atividades aqui sugeridas não devem ser consideradas como um roteiro rígido, mas como possibilidades de mediação de leituras, que podem ser ajustadas conforme as especificidades da turma, os temas que emergirem da apreciação da obra e as relações que os estudantes estabelecerem com a narrativa. O essencial é que o contato com O dia de Jerusa seja formativo, sensível e respeitoso, permitindo que cada estudante encontre, nas imagens e nos silêncios do filme, algo que dialogue com sua própria história.
Boa leitura e boa sessão!
II. PLANO-SEQUÊNCIA
a) Luz – Um mergulho nas linguagens sonora e visual de O dia de Jerusa
Objetivos
Realizar uma aproximação sensível e crítica dos estudantes com o curta-metragem O dia de Jerusa, ajudando-os a compreender – e dialogar com – temas como memória, envelhecimento, afeto, racismo, trabalho e a escuta das histórias de vida, ao mesmo tempo que aprendem a ler o cinema como um texto, observando imagens, silêncios, cenas e enquadramentos.
Promover o autoconhecimento dos estudantes e o conhecimento dos outros como sujeitos sociais, culturais e humanos, com trajetórias diferentes, mas igualmente importantes na construção de uma sociedade marcada pela diversidade. Habilidades da BNCC
(EM13LP13) Analisar, a partir de referências contextuais, estéticas e culturais, efeitos de sentido decorrentes de escolhas de elementos sonoros (volume, timbre, intensidade, pausas, ritmo, efeitos sonoros, sincronização etc.) e de suas relações com o verbal, levando-os em conta na produção de áudios, para ampliar as possibilidades de construção de sentidos e de apreciação.
(EM13LP14) Analisar, a partir de referências contextuais, estéticas e culturais, efeitos de sentido decorrentes de escolhas e composição das imagens (enquadramento, ângulo/vetor, foco/profundidade de campo, iluminação, cor, linhas, formas etc.) e de sua sequenciação (disposição e transição, movimentos de câmera, remix, entre outros), das performances (movimentos do corpo, gestos, ocupação do espaço cênico), dos elementos sonoros (entonação, trilha sonora, sampleamento etc.) e das relações desses elementos com o verbal, levando em conta esses efeitos nas produções de imagens e vídeos, para ampliar as possibilidades de construção de sentidos e de apreciação.
(EM13LP53) Produzir apresentações e comentários apreciativos e críticos sobre livros, filmes, discos, canções, espetáculos de teatro e dança, exposições etc. (resenhas, vlogs e podcasts literários e artísticos, playlists comentadas, fanzines, e-zines etc.).
Mãos à obra
Antes de exibir o curta-metragem, construa um ambiente de escuta e memória. Se possível, coloque uma luz mais suave, organize as cadeiras em círculo ou sem fileiras determinadas e exiba o pôster do filme O dia de Jerusa, a fim de que todos possam observá-lo com atenção. Diga aos alunos que, antes de assistirem ao curta, irão ouvir o mundo do filme, com o objetivo principal de sentirem aspectos da obra por meio da sua sonoridade.
Dito isso, reproduza, em volume baixo, apenas o som do curta de 14min40s até 15min45s, quando não há palavras sendo ditas – faça isso de modo que os estudantes não vejam o vídeo ainda. Você pode pedir a eles que fechem os olhos durante a reprodução do áudio, a fim de que se concentrem melhor nos sons. Após a escuta, é possível realizar algumas das perguntas a seguir:
- Em que ambiente/local esses sons parecem ocorrer? - Os sons remetem a uma atmosfera calma ou apressada? Por quê? - Quem vocês imaginariam nesse ambiente? - Vocês lembraram de algo ou alguém por meio desses sons?
Com essas questões, a ideia é que eles percebam que o som também constrói espaço, tempo e personagem. Após essas reflexões, peça aos estudantes que voltem a atenção para o pôster. Então, questione:
- O que esta imagem parece nos contar? - Quem seria esta pessoa? - Ela se parece com alguém que vocês conhecem? - Ela parece sozinha? Esperando por algo? Pensando em algo? - Se esta imagem tivesse um som, qual seria?
Após essa conversa, solicite aos estudante que cada um pense em um som que lhe faça se lembrar de alguém importante. Então, peça que anote no caderno a descrição do som. Por exemplo: o barulho de panelas; o barulho de um carro; alguém cantarolando/assoviando; passos arrastando chinelo ou passos de salto etc.
Quando os estudantes finalizarem o registro no caderno, peça que leiam as descrições e expliquem o motivo pelo qual esses sons lhes fazem se lembrar de alguém específico. O objetivo é reforçar que a sonoridade, assim como o visual (as imagens), constrói narrativas, faz parte de um contexto de criação e influencia as nossas leituras e interpretações.
O estudante poderá, ainda, ser incentivado a ampliar as suas possibilidades de construção de sentidos e de apreciação ao construir relações entre imagens, sons e conteúdo verbal, considerando os efeitos que esses elementos geram em produções multimodais. Esse estímulo está de acordo com o que a BNCC prevê para promover o desenvolvimento dos estudantes na área de linguagens.
Ao fim deste primeiro momento, que antecede a exibição do filme, você pode apresentar algumas perguntas norteadoras, orientando os estudantes a refletir sobre elas enquanto assistem à obra: - Pensem nos sons da introdução do filme. O que eles nos dizem? - O que os sons de uma casa podem contar sobre quem vive nela? - Como o tempo tende a passar para quem vive só? - O que a sociedade costuma não ver nos idosos? - Quais ideias a sociedadeconstrói sobre uma jovem mulher negra? - Que histórias moram nos pequenos gestos? - Como o silêncio também pode gerar sentidos?
Você pode imprimir e distribuir essas questões ou, ainda, anotá-las no quadro, a fim de que sejam consultadas durante a exibição do filme. Essas perguntas ajudarão a guiar a escuta e a observação da obra.
b) Câmera – Construindo relações afetivas com Jerusa e Silvia
Objetivos
Promover uma leitura sensível, crítica e interpretativa do curta-metragem O dia de Jerusa, estimulando os estudantes a compreender como sons, silêncios, imagens, gestos e ritmo narrativo constroem sentidos sobre temas como envelhecimento, memória, solidão, presença, ausência, cuidado e invisibilidades sociais.
Incentivar os estudantes a articular o texto audiovisual às próprias experiências e repertórios culturais.
Habilidades da BNCC
(EM13LGG602) Fruir e apreciar esteticamente diversas manifestações artísticas e culturais, das locais às mundiais, assim como delas participar, de modo a aguçar continuamente a sensibilidade, a imaginação e a criatividade.
(EM13CHS502) Analisar situações da vida cotidiana, estilos de vida, valores, condutas etc., desnaturalizando e problematizando formas de desigualdade, preconceito, intolerância e discriminação, e identificar ações que promovam os Direitos Humanos, a solidariedade e o respeito às diferenças e às liberdades individuais.
(EM13LP03) Analisar relações de intertextualidade e interdiscursividade que permitam a explicitação de relações dialógicas, a identificação de posicionamentos ou de perspectivas, a compreensão de paráfrases, paródias e estilizações, entre outras possibilidades.
(EM13LP21) Produzir, de forma colaborativa, e socializar playlists comentadas de preferências culturais e de entretenimento, revistas culturais, fanzines, e-zines ou publicações afins que divulguem, comentem e avaliem músicas, games, séries, filmes, quadrinhos, livros, peças, exposições, espetáculos de dança etc., de forma a compartilhar gostos, identificar afinidades, fomentar comunidades etc.
Mãos à obra
Organize a exibição do curta em um espaço que favoreça a experiência cinematográfica. Procure uma sala com iluminação reduzida e algum isolamento acústico, de modo que ruídos externos não distraiam os estudantes. Oriente também a turma a desligar os celulares, conforme a Lei no 15.100/2025. Pequenos cuidados como esses fazem toda a diferença: ajudam a criar um clima de concentração, respeito e escuta, permitindo que cada estudante se entregue à apreciação do filme. Sugira aos alunos que aproveitem este momento para suspender por alguns minutos a correria do cotidiano, a fim de deixarem-se afetar por uma história nova. Eles aprenderão que o cinema, assim como a literatura, pede preparação do olhar, e isso começa com o ambiente que construímos juntos.
Depois de todos esses cuidados com o espaço e com a preparação da escuta e da observação, convide os estudantes a assistir ao curta. Lembre-os de terem em mente as perguntas norteadoras apresentadas ao fim da etapa anterior, de preparação para este momento. As questões ajudam a ajustar as lentes de leitura, promovendo um olhar mais atento e profundo sobre a obra.
Ao término do filme, é importante evitar comentários imediatos. Um breve silêncio permite que as imagens, os sons e as emoções encontrem lugar dentro de cada espectador. Em seguida, proponha uma roda de conversa, retomando as perguntas apresentadas anteriormente. Esse diálogo é essencial, pois transforma a exibição em experiência formativa, coletiva e humana. A ideia não é chegar a respostas únicas, mas, sim, possibilitar que os estudantes relacionem o que viram com os próprios repertórios, percepções e vivências, construindo uma interpretação crítica e sensível das temáticas abordadas no filme.
Para a roda de conversa, sugere-se abordar questões sobre: memória; envelhecimento; solidão; cuidado com o outro; racismo estrutural; relações humanas; prsenças e ausências. A seguir são propostas algumas afirmações que poderão ser lidas para gerar debate, conflito e reflexão. Explique a eles que não existem respostas definitivas, mas que todas elas deverão ser respeitosas e éticas. Cada frase é um convite para pensar, discordar, argumentar e relacionar o filme ao cotidiano:
- A sociedade prefere não olhar para os idosos. - O silêncio diz mais sobre Jerusa do que qualquer diálogo do filme. - Envelhecer hoje significa perder espaço no mundo. - As pessoas só se lembram dos idosos quando precisam deles. - A correria do nosso dia a dia nos impede de perceber as pessoas que estão ao nosso redor. - Os jovens não sabem escutar os mais velhos. - O filme revela que o racismo não precisa de agressão para existir: basta a indiferença. - Memória é uma forma de resistência. - A pressa da vida moderna está apagando a nossa capacidade de lembrar e de ouvir. - Pequenos gestos de atenção podem mudar completamente o dia de uma pessoa. - Racismo, solidão e esquecimento caminham juntos na vida de muitas pessoas idosas no Brasil. - Ouvir Jerusa é também ouvir milhares de mulheres negras que muitas vezes não são escutadas.
Escolha algumas dessas afirmações e as apresente na roda de conversa. Os alunos poderão concordar, discordar ou concordar em parte, sempre justificando suas interpretações. Caso seja pertinente, você poderá incluir outras afirmações junto com essas. Após ouvir as leituras e as opiniões dos estudantes, proponha a seguinte experiência coletiva: 1. Divida a sala em grupos de cinco estudantes. 2. Cada grupo escolherá duas das afirmações discutidas para relacioná-las a cenas específicas do filme. 3.Depois, irão relacioná-las também com situações da própria realidade. 4. Vão listar argumentos a favor e contra as afirmações – quando pertinente, se julgarem que não é possível argumentar a favor de alguma afirmação, respeite a escolha. Nesse sentido, eles podem, por exemplo, tanto mostrar como a velhice pode ser uma fase difícil e solitária quanto abordar como o envelhecimento tem se transformado nos últimos anos, com idosos mais ativos, com mais qualidade de vida e participação na sociedade. Assim como podem tanto abordar os obstáculos que o racismo impõe às pessoas negras como valorizar as suas conquistas de espaço e protagonismo na sociedade.
Essa experiência de ver, ouvir, falar, concordar, discordar, argumentar e compartilhar amplia a leitura crítica e transforma o curta em ponto de partida para pensar a vida, a sociedade e a identidade de cada um. Em conformidade com a BNCC, o estudante analisará situações da vida cotidiana, estilos de vida, valores, condutas etc., desnaturalizando e problematizando formas de desigualdade, preconceito, intolerância e discriminação. Assim, poderá também identificar ações que promovam os direitos humanos, a solidariedade e o respeito às diferenças e às liberdades individuais.
Com esta etapa coletiva, o que se constrói na sala de aula vai muito além da compreensão de um filme. O que se forma é um espaço de encontro. Quando os estudantes veem, escutam, falam, discordam, justificam e compartilham sentidos, eles exercitam competências que nenhuma atividade expositiva alcança sozinha: a leitura atenta do mundo, a escuta do outro, a coragem de argumentar e a humildade de rever posições. O cinema, nesse contexto, deixa de ser apenas exibição e se torna texto vivo, feito de imagens, silêncios, gestos e memórias. Precisa ser lido com os olhos, com a palavra e com a sensibilidade.
Ao relacionarem as cenas do curta com a própria realidade, os estudantes aprendem que interpretar não é repetir a história, mas dialogar com ela. Eles percebem desigualdades, preconceitos, afetos, ausências e resistências que atravessam tanto a narrativa quanto suas próprias vivências. Esse movimento desnaturaliza o que parecia normal, problematiza injustiças e pode fortalecer valores como empatia, solidariedade e respeito às diferenças, em sintonia com os princípios da BNCC e com a educação comprometida com os direitos humanos.
O dia de Jerusa (2013),de Viviane Ferreira | imagem: divulgação
c) Ação – Apito final
Objetivos
Propor uma produção que amplia o diálogo do filme para além da sala de aula, possibilitando relacionar profundamente a obra às próprias vivências. Incentivar a articulação entre leitura, escrita, oralidade e cultura digital, estimulando os estudantes a investigar histórias de familiares. Promover a criação textual inspirada em afetos.
Habilidades da BNCC
(EM13LP32) Selecionar informações e dados necessários para uma dada pesquisa (sem excedê-los) em diferentes fontes (orais, impressas, digitais etc.) e comparar autonomamente esses conteúdos, levando em conta seus contextos de produção, referências e índices de confiabilidade, e percebendo coincidências, complementaridades, contradições, erros ou imprecisões conceituais e de dados, de forma a compreender e posicionar-se criticamente sobre esses conteúdos e estabelecer recortes precisos.
(EM13LP33) Selecionar, elaborar e utilizar instrumentos de coleta de dados e informações (questionários, enquetes, mapeamentos, opinários) e de tratamento e análise dos conteúdos obtidos, que atendam adequadamente a diferentes objetivos de pesquisa.
(EM13LP53) Produzir apresentações e comentários apreciativos e críticos sobre livros, filmes, discos, canções, espetáculos de teatro e dança, exposições etc. (resenhas, vlogs e podcasts literários e artísticos, playlists comentadas, fanzines, e-zines etc.).
Habilidades da BNCC Computação
(EM13CO21) Comunicar ideias complexas de forma clara por meio de objetos digitais como mapas conceituais, infográficos, hipertextos e outros.
(EM13CO22) Produzir e publicar conteúdo como textos, imagens, áudios, vídeos e suas associações, bem como ferramentas para sua integração, organização e apresentação, utilizando diferentes mídias digitais.
Mãos à obra
A proposta de produção nesta etapa visa articular leitura, escrita, oralidade e cultura digital, de modo a incentivar os estudantes a investigar histórias familiares, produzir registros significativos sobre a pessoa mais idosa presente em sua vida e transformar esses registros em infográficos digitais a serem compartilhados com a comunidade escolar. A produção valorizará memórias, afetos e a diversidade de trajetórias de vida, assim como o curta faz ao apresentar as personagens Jerusa e Silvia.
Após o debate sobre o filme e as suas temáticas, é importante que os estudantes tenham a oportunidade de transformar as reflexões em uma atividade prática e significativa, em diálogo com sua própria realidade e suas experiências. Esta atividade, nesse sentido, aproxima cinema, memória e vivências.
Para iniciar a proposta, solicite aos estudantes que cada um leve para a aula uma fotografia antiga ou recente da família – lembrando que há uma ampla diversidade de famílias, como é a nossa sociedade, com riqueza de cores, credos, posições e composições. Valorize essa diversidade ao fazer a solicitação.
Em uma roda de conversa, cada aluno deverá apresentar a foto aos colegas, contando quem são as pessoas nela, em que momento foram registradas e quais lembranças a imagem lhe desperta. Esse momento inicial é fundamental para os jovens perceberem as histórias e memórias contidas na própria vida deles e no entorno, assim como puderam pensar na história e nas memórias de Jerusa, a personagem do curta.
Após essa partilha, oriente os alunos a escolher a pessoa mais idosa presente em sua vida (pode ser avô, avó, tio, madrinha ou amigo próximo). Explique que a proposta é ouvir essa pessoa com atenção e registrar um pouco da trajetória de vida dela. Se algum estudante afirmar que não convive com alguém idoso, peça que procure alguém do entorno onde mora ou da comunidade escolar. O aluno pode, ainda, questionar seus familiares sobre histórias de alguém idoso de sua família com quem não conviveu – como um avô(ó) ou bisavô(ó).
Na etapa seguinte, trabalhe com os alunos a construção de uma entrevista, com perguntas que os ajudem a conhecer melhor a história da pessoa escolhida. Pode-se abordar, por exemplo: lembranças da infância ou da escola; histórias de trabalho; histórias de amizades; dificuldades enfrentadas; momentos felizes; mudanças vividas ao longo do tempo; e conselhos/ensinamentos que essa pessoa pode compartilhar com os mais jovens. É importante, ainda, que as questões visem coletar informações sobre diferentes etapas da vida (infância, juventude e velhice). Essa construção coletiva ajuda o estudante a compreender como se organiza uma pesquisa e como as perguntas podem orientar uma conversa.
Com a entrevista pronta, cada estudante realizará as perguntas em casa. Se algum aluno tiver de entrevistar um familiar sobre outra pessoa, oriente-o a adaptar as perguntas para que sejam feitas a respeito de uma terceira pessoa. Por exemplo, em vez de perguntar “Que mudanças mais significativas você enfrentou em sua vida?”, questionar: “Que mudanças mais significativas ela(e) enfrentou na vida dele(a)?”.
Para o registro das respostas, sugira que sejam escritas, à mão ou digitadas, ou gravadas em áudio ou vídeo, se o entrevistado permitir. O importante é que os alunos levem para a aula as informações organizadas sobre a vida da pessoa idosa escolhida.
Na aula seguinte, reserve um momento para que os estudantes organizem o material gerado. Ajude-os a transformar as respostas da entrevista em uma pequena linha do tempo, destacando os principais acontecimentos da vida daquela pessoa: nascimento, infância, juventude, trabalho, família, sonhos, aprendizados etc. Esse processo de organização é essencial para que o aluno aprenda a selecionar informações relevantes e a construir uma narrativa coerente.
Com esse material organizado, inicia-se a etapa digital. Oriente a turma a utilizar uma ferramenta simples e acessível para produção visual, como o Canva, a fim de criar um infográfico. Explique que o infográfico é uma forma de apresentar informações de maneira visual e organizada. Nele, os estudantes poderão inserir a foto da pessoa, dados importantes, frases marcantes da entrevista e a linha do tempo construída anteriormente. É interessante conversar com a turma sobre aspectos básicos da comunicação visual, como clareza, escolha de cores, organização dos elementos e legibilidade do texto.
Depois de produzirem os infográficos, os estudantes devem apresentá-los para a turma. Cada um compartilha o que descobriu sobre a pessoa, quais histórias mais o emocionaram e de que forma essa experiência se relaciona com as temáticas discutidas no filme, como memórias, envelhecimento, cuidado, presença, ausência e relações humanas. Esse momento valoriza a oralidade, a escuta e o respeito às diferentes trajetórias de vida.
Para finalizar, proponha a organização de uma exposição na escola, reunindo os trabalhos produzidos. A mostra pode receber o nome Memórias e afetos e envolver não apenas os estudantes, mas também as famílias e a comunidade escolar. Os infográficos podem ser impressos ou projetados, acompanhados das fotografias e, se possível, de pequenos trechos das entrevistas. Nesse sentido, reforce a importância da autorização das pessoas entrevistadas para a divulgação da entrevista e da fotografia.
Com a mostra, o trabalho ultrapassa os limites da sala de aula e se transforma em uma ação coletiva de valorização das histórias de vida, promovendo também a vivência em comunidade e o compartilhamento de experiências.
Por fim, proponha uma conversa com a turma sobre as experiências vivenciadas nesta sequência didática. Com as propostas apresentadas aqui, buscamos valorizar o desenvolvimento de diversas habilidades, como: ouvir com atenção, produzir textos, organizar informações, utilizar ferramentas digitais e, principalmente, valorizar pessoas idosas e suas trajetórias, reconhecendo também a importância delas na própria vida.
Esta sequência incentiva, assim, a formação de sujeitos capazes de ouvir antes de julgar, de sustentar argumentos, de acolher opiniões diversas e de compreender que a sala de aula é território de diálogo, não de imposição – um espaço onde cada voz importa e onde aprender significa construir sentidos juntos. Trabalhar a leitura verbal e visual do cinema, dessa forma, é também trabalhar a humanidade. É mostrar que todas as pessoas têm diversas histórias e memórias envolvidas em sua vida – elas têm narrativas, assim como as obras cinematográficas e literárias – e que aprender a ler o outro é, talvez, a aprendizagem mais urgente da escola.
O filme O dia de Jerusa é capaz de promover uma reflexão sobre como cada vida guarda um universo de memórias que merece ser contado e respeitado, e as atividades desta sequência promovem exatamente o aprofundamento dessa reflexão, de modo também a relacionar a obra e suas temáticas com a própria realidade.
III. CORTA! – VAMOS EXPLORAR MAIS SOBRE O CURTA?
Para explorar mais sobre o curta O dia de Jerusa e aprofundar as possibilidades de abordagem dessa obra em sala de aula, confira estas sugestões de material:
- Leia a entrevista com a cineasta Viviane Ferreira “Transitar e pertencer: uma conversa sobre Um dia com Jerusa”, publicada por Juliana Costa no portal Cine Festivais. Com a leitura, você poderá saber mais sobre a recepção do curta O dia de Jerusa e descobrir como, a partir do retorno do público, essa obra deu origem a um longa-metragem, chamado Um dia com Jerusa (2021). - Assista ao vídeo “LIVE – Empoderamento e cinema – O dia de Jerusa”, do canal Cinema Nosso, para acompanhar um bate-papo com a diretora do curta O dia de Jerusa, Viviane Ferreira, com mediação de Gabriela Gonçalves e participação de Evelyn Oliveira, ambas do projeto Cinema Nosso – instituição social voltada para a formação audiovisual de jovens e crianças. - Leia o livro Quarto de despejo, de Carolina Maria de Jesus. A obra pode dialogar com a vivência de mulheres negras na cidade de São Paulo e suas memórias. - Acesse e explore a plataformaAncestralidades, desenvolvida pela Fundação Tide Setubal em parceria com o Itaú Cultural (IC). Leia, em especial, a notícia “Joyce Prado Almeida: inspiração e referência para além do cinema e da vida”, de Amauri Eugênio Jr. O objetivo desse site é reunir e difundir conteúdos que evidenciam as criações diversas do Brasil baseadas em saberes, histórias e culturas da população negra. - Acesse e explore, no site do IC, a página da Ocupação Conceição Evaristo. - Assista ao filme Ela mora logo ali (2023), dirigido por Fabiano Barros e Rafael Rogante, presente na IC Play. - Assista ao filme, também disponível na IC Play, Café com canela (2017), com direção de Ary Rosa e Glenda Nicácio. - Para finalizar, indicamos tanto ao professor quanto aos estudantes o site da Escola Fundação Itaú, em especial o curso de fotografia Percurso nas Artes para Professores: a Fotografia na Sala de Aula.
IV. REFERÊNCIAS
BONDÍA, Jorge Larrosa. Notas sobre a experiência e o saber de experiência. Tradução de João Wanderley Geraldi. Revista Brasileira de Educação, n. 19, p. 20-28, jan.-abr. 2002. Disponível em: scielo.br/j/rbedu/a/Ycc5QDzZKcYVspCNspZVDxC/?format=pdf&lang=pt. Acesso em: 5 jan. 2026.
BRASIL. Estatuto da Pessoa Idosa. Lei Federal no 10.741, de 1o de outubro de 2003.
BRASIL. Ministério da Educação. Base Nacional Comum Curricular. Brasília, DF: Ministério da Educação, 2018. Disponível em: gov.br/mec/pt-br/escola-em-tempo-integral/BNCC_EI_EF_110518_versaofinal.pdf. Acesso em: 18 jan. 2026.
BRASIL. Ministério da Educação. Base Nacional Comum Curricular: Computação – complemento à BNCC. Brasília, DF: Ministério da Educação, 2022. Disponível em: portal.mec.gov.br/docman/fevereiro-2022-pdf/236791-anexo-ao-parecer-cneceb-n-2-2022-bncc-computacao/file. Acesso em: 18 jan. 2026.
BRASIL. Política Nacional do Idoso. Lei no 8.842/1994.
COSTA, Juliana. Transitar e pertencer: uma conversa sobre Um dia com Jerusa. Cine Festivais, 24 mar. 2020. Disponível em: cinefestivais.com.br/transitar-e-pertencer-uma-conversa-sobre-um-dia-com-jerusa/. Acesso em: 18 jan. 2026.
ELA mora logo ali. Direção: Fabiano Barros; Rafael Rogante. 2023. Disponível em: assista.itauculturalplay.com.br/ItemDetail/635a9a887b89290cbf402d4c/6737630f3a22b07e78820aee. Acesso em: 18 jan. 2026.
ESTÉTICAS do cinema negro. Ancestralidades. Direção e roteiro: Joyce Prado. Disponível em: assista.itauculturalplay.com.br/ItemDetail/653ab5697de73b2785d4f5db/6538162a331147c69fcf4de4 . Acesso em: 18 ago. 2025.
EUGÊNIO JR., Amauri. Joyce Prado Almeida: inspiração e referência para além do cinema e da vida. Ancestralidades, 12 dez. 2025. Disponível em: ancestralidades.org.br/noticias/Joyce-Prado-Almeida:-inspiracao-e-referencia-para-alem-do-cinema-e-da-vida. Acesso em: 18 jan. 2026.
JESUS, Carolina Maria de. Quarto de despejo: diário de uma favelada. 10. ed. São Paulo: Ática, 2020.
KOSSOY, Boris. Fotografia & história. 2. ed. São Paulo: Ateliê Editorial, 2001.
LIVE – Empoderamento e cinema – O dia de Jerusa. Publicado por: Cinema Nosso, 13 ago. 2020. Disponível em: youtu.be/3hkIfIQ4kZs. Acesso em: 18 jan. 2026.
MEDEIROS, Juliana Pádua; RIBEIRO, Joana Marques. Mediação de leitura: a literatura em jogo. Londrina: Madrepérola, 2024.
MOVENTES. Direção: Jefferson Cabral. Rio Grande do Norte: casaquatroseis, 2023.
NAPOLITANO, Marcos. Como usar o cinema na sala de aula. 5. ed. São Paulo: Contexto, 2015.
PERCURSO nas artes para professores: a fotografia na sala de aula. Escola Fundação Itaú. [Curso]. Disponível em: fundacaoitau.org.br/escola/autoformativos/percurso-nas-artes-para-professores-fotografia-na-sala-de-aula. Acesso em: 18 jan. 2026.
Minibiografia do elaboradora
Iza Reis Gomes é professora do Instituto Federal de Rondônia (IFRO) e atua como docente nos programas de pós-graduação Mestrado Profissional em Educação Profissional em Rede Nacional (ProfEPT) e Mestrado Profissional em Letras (ProfLETRAS), formando novos olhares para a educação, a literatura e a pesquisa com foco na produção amazônica e indígena. Atua na educação básica há 28 anos. É professora formadora na Universidade Aberta do Brasil (UAB), do IFRO, dedicando-se às temáticas de letramento étnico-racial, Base Nacional Comum Curricular (BNCC), livro didático e literatura na educação básica. É pós-doutora em letras pela Universidade Federal do Acre (Ufac) e doutora em sociedade e cultura na Amazônia pela Universidade Federal do Amazonas (Ufam). Orienta trabalhos acadêmicos que valorizam a memória, a diversidade e os letramentos literários. Coordena o Projeto Ajuri – um encontro com as narrativas indígenas – e é líder do grupo de pesquisa Criamazônia [IFRO/Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico (CNPq)].
Expediente desta sequência didática Conselho editorial Heloísa Iaconis e Tatiane Ivo Autoria Iza Reis Gomes (selecionado via edital) Edição Thayslane Ferreira (terceirizada) Revisão Rachel Reis (terceirizada)