por Um Por Todos - Kiko Dinucci

Não é por isso que vão parar de trabalhar, né? O trabalho dignifica o homem. Carregar tijolos pra não sei onde, martelar paredes inúteis e inacabadas, se sujar com o pó das pedras. Os chefes sumiram ou se suicidaram. Os trabalhadores labutam e morrem aos poucos no período da lida, perto da hora do almoço, com um resto de orgulho nos olhos.

Destruir e reconstruir. Não mais. Esgotou-se a possibilidade de renascimento. Parece que agora a cidade se findou de vez. Não sei em que momento isso aconteceu. Depois de sucessivas derrubadas de edifícios para a construção de novos prédios, os projetos foram se mostrando desorientados, sem rumo. A cidade não sabe mais aonde quer chegar, como um velho que perde a memória e não consegue mais voltar pra casa.

Os que desistiram de trabalhar tentam fugir, sem sucesso. O máximo que conseguem é se esconder em algum escombro. Não sabem mais se movimentar com a espinha ereta. Tudo começou quando se acostumaram a olhar para o chão. A cabeça pesada caindo diante do próprio corpo fez com que a coluna se curvasse e as mãos encontrassem o solo. Também tiveram que se adaptar para encaixar em pequenos buracos escuros. Passaram a caminhar com passos rasteiros, raspando peitos e barrigas no solo, como calangos ou crocodilos.

Buracos, escombros e o barulho das obras eternamente inacabadas. Não sabem mais distinguir a diferença entre estômago e sexo, a fome se sacia deprimente em meio ao lixo, a foda é casual e o gozo se iguala a um expurgo. Depois defecam pastas ácidas pelo chão, formando pequenos buracos esfumaçados.

Há quem ainda tenha esperanças de melhora, são os que sonham em voltar a frequentar o supermercado e encher o carrinho com nuggets de frango ou poder trocar compulsivamente os canais da TV, são os que moram em pequenos escombros e apedrejam qualquer ser que se aproxime.

A poeira marmorizada e a fuligem que pairam no ar cobrem as peles. A sujeira petrificada e incrustada nos corpos forma uma espécie de escama protetora. O horizonte, agora, sim, pode ser visto, depois de todos os edifícios abaixo. Trata-se de um horizonte coberto de cinza. Vivíamos melhor enquanto as enormes paredes tapavam essa vista horrorosa e esfumaçada de morte.

Os urubus também se afastaram depois que viraram presas em potencial. No começo se atraíam pelo cheiro podre dos cadáveres e caíam em armadilhas humanas mortais. Enquanto se debatiam, eram espancados a pauladas. Seus bicos viraram amuletos de poder. Logo, os urubus sumiram, uns fugiram, muitos foram devorados. Os peixes, de um dia pro outro, amanheceram mortos, boiando, mas os humanos tiveram medo de comê-los suspeitando que a causa fosse alguma doença, o que cooperou para o ar ficar ainda mais fétido.

Como aconteceu com as capivaras do Rio Tietê, as pessoas passaram a viver menos. Os ricos, no começo, tiveram grande vantagem sobre os demais por terem capangas, antibióticos e reserva de água, mas isso não durou muito. A água estragou, os antibióticos venceram e os capangas se revoltaram com requintes de vingança. Os destroços dessa civilização geraram uma espécie de igualdade, todos na lama. 

Bem de longe se ouve o choro de um bebê, sua mãe deve de ter morrido. Todos temem se aproximar. O choro sentido corta e não quer saber dos contextos atuais. Não se pode evitar esse choro. Com o tapar dos ouvidos, vira berro e grunhido. Não adianta fugir ou ignorar, o pranto da criança se impõe violento. Em meio a sobreviventes medíocres, o grito soa no ar como um insulto e parece repetir insistentemente: uma vida é muita coisa.

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