por Duanne Ribeiro

Onde o centro, onde a periferia? Escuto as falas do gestor cultural Alemberg Quindins e da empreendedora social Monique Evelle no Brechas Urbanas de outubro e descubro o quanto essas palavras são instáveis. Quem o central, quem o periférico? Essa geografia se move – no território, nos indivíduos e nos relacionamentos entre nós. Delimitar onde estamos pode implicar implodir mapas e prerrogativas comuns.

Quindins, criador da Fundação Casa Grande – espaço cultural de Nova Olinda, na região do Cariri, no Ceará –, falando sobre trabalhar ou não em uma região periférica do país, afirmou: “O centro do universo é onde estamos”. Quanta mudança de perspectiva essa frase não traz? O mundo ressignificado pelo mover-se e pelo estar de cada um; não por classificações fechadas, mas pelo que a passagem e a presença mobilizam dos locais pelos quais cada um passa e nos quais cada um fica.

Outro comentário de Quindins é tão heurístico quanto: ele cita os fósseis de planta que foram descobertos na Chapada do Araripe, no Cariri, datados de 120 milhões de anos. Parafraseio o convidado: pode uma região que guarda algo tão ancestral, indicativo da história do planeta, ser periférica? O que se altera, neste exemplo e no anterior, são os critérios do conceito de centro, e essa modificação abre perspectivas. Antes, a pessoa centralizada; agora, diante das definições político-econômicas, a memória do mundo.

De que outras formas podemos desestabilizar os modos de ver os territórios? Ainda outra ideia surgiu nesse diálogo. Quindins comentou como “cada bioma é uma aula”; há todo um livro em cada forma de lidar com as condições naturais e ser marcado por elas. Com esse aprendizado, a mediadora Natália Garcia sugeriu: não deveríamos abandonar as divisões por cidades, estados e países, e assumir as linhas desenhadas pelas condições ecológicas? Porque o meio ambiente determina formas de comunidade.

Quem é central agora?

Monique, nascida em Amaralina, bairro – como se diz – periférico de Salvador, é criadora da plataforma Desabafo Social. Periferia, para ela, é uma “questão de identidade”: quem circula pela cidade, quem morre e quem vive. A ênfase aqui está nas estruturas sociais que estipulam a vivência “da ponte pra cá”. Nessa definição, sobressai a importância da luta dos “grupos minorizados”. O “quem circula, quem morre e quem vive” é determinado pelo machismo, pelo racismo, pela homofobia, pelas demais opressões.

O que me impacta mais no depoimento de Monique é a demanda ética que ela nos traz no que se refere a combater essa problemática. Penso que o que ela diz pode ser pensado também – mas agora de forma metafórica – com os termos centro e periferia. Porque a empreendedora social nos leva a ver que existe uma posição relativa que assumimos quanto a cada situação de exclusão. A mulher é o centro na discussão sobre o racismo. Negros e negras são o centro no confronto com o racismo; e assim por diante.

O conceito de lugar de fala, com frequência mal compreendido, indica esta constatação simples: por nossa condição e nossa trajetória, não só compreendemos e valorizamos a realidade social de maneira diferente, como também somos atingidos por ela diversamente. Qual é o seu lugar de fala? O que deixa ver, o que bloqueia?

E “há não só um lugar de fala, como um lugar de escuta”, afirma Monique. O protagonismo deve ser de quem percebe na própria pele os processos de discriminação. Não se trata de proibir opiniões – é que pertence a essas pessoas um ponto de vista irredutível sobre essas circunstâncias. Paralelamente, cabe a nós aprender a ouvir. Quais são os seus lugares de escuta? Quantas vezes você se recusou a permanecer nele?

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Mais: em 2016, o Brechas Urbanas apresentou a mesa O Sentido de se Deslocar, em que tratou do tema dos movimentos urbanos. Nos depoimentos dos convidados, cidades variadas transpareciam na mesma cidade. Assista aqui.

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