por Amanda Rigamonti

José Abelardo Barbosa de Medeiros, o Chacrinha, nascia há 100 anos em Surubim (PE). O papa da comunicação, como foi chamado pelo filósofo francês Edgar Morin, faleceu há 29 anos, no dia 30 de junho de 1988, no Rio de Janeiro, mas continua sendo lembrado pela sua grande contribuição para a cultura e a televisão brasileiras.

“Quem não se comunica se trumbica!”

Para Denilson Monteiro, autor de Chacrinha – a Biografia, obra lançada em 2014, “ele foi pioneiro em uma série de coisas... As assistentes de palco se tornaram obrigatórias – se não tivesse, não era um programa completo –, assim como a distribuição de brindes e as atrações musicais. E ao show de calouros, que era uma tradição já existente, ele deu seu toque pessoal. Passou a valorizar além de quem realmente tinha talento, dando atenção a quem era muito ruim, porque ele percebeu que isso também era um atração”.

Sua carreira na comunicação teve início em 1943, com o programa Rei Momo na Chacrinha, na Rádio Fluminense – e seguiu trabalhando em diferentes emissoras de rádio com o Cassino do Chacrinha. Monteiro conta que, apesar de o artista ter sido rejeitado de início, a inovação em seu trabalho sempre foi sua principal aliada. “O sucesso dele se deve ao fato de ser inovador, porque ele chegou num momento em que havia formalidade e rompeu com isso. Então na rádio ele começou a fazer aqueles efeitos de sonoplastia e a falar coisas engraçadas, além de ter um programa no horário das 23 horas, e se tornou novidade e todo mundo queria conhecê-lo.”

Chacrinha foi então convidado para migrar para a televisão em 1956, pela TV Tupi, onde teve os programas Festa no Arraial, Musical Selo de Ouro, Sucessos Mocambo e Clube da Camaradagem. Ainda apresentou na emissora o infantil Rancho Alegre, paródia dos filmes de faroeste, e Discoteca do Chacrinha.

“Eu vim para confundir, não para explicar.”

Em 1967 foi contratado pela Globo, onde passou a apresentar Discoteca do Chacrinha, voltado especialmente para apresentações musicais e alguns concursos, e Buzina do Chacrinha, programa de calouros em que havia também as chacretes. Segundo seu biógrafo, o que o diferenciava dos outros apresentadores da época, além do formato dos programas – feitos com muita informalidade, fantasias e sem roteiro –, era o fato de ele saber falar a linguagem do povo.

Ainda assim, Chacrinha demorou para ser aceito pela elite brasileira. “A canção do [Gilberto] Gil ‘Aquele Abraço’ foi muito importante para acabar com o preconceito com o Chacrinha – que existia por ele ser visto como uma coisa brega, de mau gosto”, explica Monteiro. “Nossa elite só foi aceitá-lo quando Edgar Morin veio para o Brasil e disse que ele era o papa da comunicação brasileira; ali ele ganhou esse status, e também porque o tropicalismo veio e o tornou seu patrono.”

Alô, alô, seu Chacrinha
Velho guerreiro
Alô, alô, Terezinha
Rio de Janeiro
Alô, alô, seu Chacrinha
Velho palhaço
Alô, alô, Terezinha
Aquele abraço!

["Aquele Abraço" (1969), de Gilberto Gil – foi a partir dessa música que Chacrinha ganhou o apelido de Velho Guerreiro, que pegou e é usado até hoje para se referir a ele]

O apresentador rompeu com a Globo em 1972, por ser “indomável”, e para lá retornou em 1982, já mais “domesticado”, segundo Monteiro, sem jogar bacalhau ou sacos de farinha furados na plateia, com o Cassino do Chacrinha – uma mistura das duas atrações que comandava antes. Leleco Barbosa, filho do artista e também produtor e diretor de seus programas, conta que a direção que fazia era só dos programas, porque Chacrinha ninguém conseguia dirigir. “Ele era totalmente indirigível, tudo dele era de improviso, do que vinha na cabeça dele e que ele gostaria de falar. Então a atuação ficava por conta dele; ninguém conseguiu dirigir o Chacrinha nesses anos todos, tinha que deixá-lo bem solto e livre”, lembra.

Leleco diz ainda que, para a surpresa de qualquer pessoa que assistia aos programas de Chacrinha, seu pai era uma pessoa muito tímida. “O Abelardo Chacrinha era uma pessoa na televisão, e o José Abelardo Barbosa era outra pessoa totalmente diferente: tímido, tímido, tímido!”, diz. “Com aquelas loucuras que fazia no programa, aquela irreverência toda, a alegria que transmitia para o povo brasileiro, você nunca imagina que o Chacrinha era uma pessoa totalmente tímida. Quando entrava naquele palco ele se transformava de uma forma inacreditável.”

Outro fato pouco conhecido sobre o artista surpreendeu também Monteiro durante a pesquisa feita para seu livro: o nervosismo de Chacrinha. Ele vivia em constante tensão e se dedicava 24 horas por dia ao trabalho, porque temia muito o fracasso.

“Na televisão nada se cria, tudo se copia!”

O Cassino do Chacrinha ficou no ar até a morte do Velho Guerreiro, em 1988. Nos últimos programas, já doente, ele dividia a apresentação com João Kléber. O programa final foi gravado em 19 de junho, 11 dias antes da morte do artista, e exibido em 2 de julho, com uma homenagem feita na introdução pelo então apresentador parceiro.

Sobre como acredita que estaria o Cassino do Chacrinha hoje, com os atuais debates relacionados a minorias e preconceitos, Monteiro diz: “Adaptar para os tempos atuais é sempre necessário, e ele era um sujeito que estava sempre correndo atrás de alguma coisa nova para o programa dele. Chacrinha queria saber o que era tendência, dar o que o povo gostava, o que o povo queria, então ele obviamente prestaria atenção nisso nos tempos atuais. Acredito que ele se adaptaria e não iria perder a graça – iria saber fazer humor sem precisar ‘pegar na dor do outro’”.

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