Por Marcella Affonso

Seguindo com o projeto Arte Urbana, que desde 2017 traz artistas para dar cara nova à fachada do Itaú Cultural, no início do mês de abril o banco externo do instituto voltou a ser mural para mais uma intervenção artística. Desta vez, o espaço – que já foi tela para os kene dos Huni Kuĩ e para o trabalho de Erica Mizutani – foi preenchido pelo artista plástico paulistano Guilherme Kramer.

Conhecido por seu fascínio pelas multidões e por sua obsessão em preencher os mais diversos suportes com aquilo que observa delas, Guilherme trouxe ao Itaú Cultural os traços que marcam sua obra: do trabalho realizado com tinta spray ao longo de cinco dias, entre 2 e 6 de abril, emergiu uma massa de rostos expressivos em texturas diversas. Intitulada Territórios Mentais, a intervenção poderá ser vista – e usada, vale lembrar – até setembro deste ano.

Primeiros traços a colorir a fachada do Itaú Cultural - foto: André Seiti / Itaú CulturalProcesso de pintura do banco - foto: André Seiti / Itaú CulturalProcesso de pintura do banco - foto: André Seiti / Itaú CulturalDetalhes da obra - foto: André Seiti / Itaú CulturalO início da pintura do banco externo - foto: André Seiti / Itaú CulturalProcesso de pintura do banco - foto: André Seiti / Itaú CulturalProcesso de pintura do banco - foto: André Seiti / Itaú CulturalProcesso de pintura do banco - foto: André Seiti / Itaú CulturalGuilherme junto à sua obra, finalizada após cinco dias de trabalho - foto: André Seiti / Itaú CulturalA obra finalizada - foto: André Seiti / Itaú Cultural

Em entrevista, Guilherme comenta o início de sua inclinação para riscar os lugares à sua volta, suas referências, inspirações e como foi o processo de pensar a obra.

Como começou sua relação com as artes plásticas?
Eu rabisco compulsivamente desde pequeno. Minhas lembranças são de 5 anos de idade. Eu me lembro que na garagem de casa tinha um chão escuro e eu rabiscava tudo com giz, depois apagava e preenchia de novo. Eu sempre tive essa vontade de riscar os espaços.

A expressividade das pessoas que você desenha é muito marcante no seu trabalho. Quais são suas referências e inspirações?
São várias. Minha mãe teve um brechó durante muito tempo na década de 1990. Ela gostava muito das composições, fazia as vitrines, e aquelas roupas antigas, aqueles chapéus, aquela coisa dos adornos sempre ficaram na minha cabeça. Já as referências artísticas vão desde os desenhos em preto e branco do [Vincent] van Gogh, aquela intensidade do traço dele, até a expressividade dos rostos do [Edvard] Munch. Também há brasileiros, o Aldemir Martins, o Fernando Henrique Amaral. Tem várias pessoas que vão sendo inseridas no nosso repertório. As pessoas da rua também. A expressividade do brasileiro é minha maior fonte de inspiração, como se expressa, os mercados informais, existe muita energia neste país. E eu falo que nenhum homem é uma ilha! Aqui em São Paulo você está andando, para porque vai amarrar os tênis, e já vem alguém e começa a conversar com você. Então a gente está sempre sendo atacado por olhares, por conversas, por ideias. São Paulo é uma cidade extremamente expressiva, e isso é a minha principal fonte de inspiração.

Li que, ao mesmo tempo que passa pelos lugares pensando em transformá-los, você se permite influenciar por eles. Este espaço o influenciou de alguma forma? Como foi?
Muito. Eu já venho com essa minha série, que são as multidões. Então, estando na Paulista, que é uma via com um fluxo interminável de pessoas, pensei diretamente em fazer as memórias coletivas, trazer esses rostos e colocá-los aqui na fachada. Considerando que o Itaú Cultural está nessa avenida, a ideia de fazer esses rostos, essa multidão, essa falta de espaço, esse caos, essa troca cultural estava bem resolvida na minha cabeça. O mundo está aqui. Em um pequeno espaço você vê pessoas do mundo inteiro. Acho que tem tudo a ver colocar essa multidão aqui no instituto. Só que eu gosto de pintar por memória. Não gosto de pegar a pessoa e pintar exatamente igual. Acho que a memória borra a realidade, e você transforma essa realidade na sua. Isso que é o bonito do trabalho artístico. As pessoas estão aqui, eu estou recebendo essas pessoas, estou recebendo esses olhares, e vou colocando-os direta e indiretamente, misturados com expressões, com sentimentos. Misturo isso com as pessoas reais e vira uma coisa nova.

Você havia estado aqui antes para realizar esse trabalho de observação ou foi algo que deixou para fazer na hora?
Eu gosto de ir ao local e deixar que ele me traga as coisas. Acho que começar a pintura aqui, na intuição, faz com que ela fique mais fresca, mais viva, mais vívida. O meu processo de trabalho tem muito dessa espontaneidade. Isso me emociona mais.

O que você pretende provocar nas pessoas que passam aqui?
Primeiro, tem a questão do coletivo. Queria que as pessoas percebessem que é possível viver em uma coletividade mesmo que sejamos diferentes. Depois, acho que a intervenção é um pedido de “mais humano e menos máquina”. São Paulo é tão agressiva! Acho que trazer para este espaço rostos e pessoas provoca, de certa forma, um lado mais humano, espiritual, ancestral. Também gostaria de provocar memórias. Todo mundo tem as suas. As pessoas passam e falam: "Esse lembrou meu pai, esse outro lembrou meu primo ou alguém com quem trabalhei". Gostaria também de provocar um estranhamento. É por isso que as cores são primárias e fortes. Os rostos são bem expressivos e eu intensifico essa expressividade justamente para que tenham um impacto, porque acho que a arte de rua precisa disso. A comunicação tem que ser rápida. Essa rapidez de transferência de mensagem é importante. Você pode parar e ter várias reflexões, mas acho que o impacto inicial é muito importante. Que a pessoa pare, olhe e fale: "Caramba, eu vivo nisso". As pessoas às vezes falam: "É, mas o ser humano não sabe viver em coletivo". Gostaria que elas parassem para pensar que, de repente, a gente consegue.

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