As estratégias de formação de público da Bienal de Artes de São Paulo

A Bienal de Artes de São Paulo e suas itinerâncias alcançam até 1 milhão de pessoas. Com uma série de ações antes, durante e depois da exposição, Daniela Azevedo*, coordenadora-geral do Educativo Bienal, fala sobre as estratégias de formação e mediação de um público tão amplo por meio de diferentes eixos de atuação que se esforçam para se adaptar às necessidades dos participantes.

Ela aborda o diálogo da área com o Arquivo Bienal e a interação com os curadores e os artistas da 31ª bienal, que proporcionou encontros de investigação, escuta e de possibilidades de avaliação do próprio processo curatorial.

Na entrevista, Daniela Azevedo apresenta ainda o questionamento da área: “Em que medida as ferramentas do Educativo Bienal consideram e representam a missão da Fundação da Bienal de São Paulo, a proposta curatorial da 31ª bienal ou as necessidades de nossos interlocutores?”.

Observatório: A Bienal de Artes de São Paulo é um evento que atrai mais de 500 mil pessoas. O Educativo desenvolve um trabalho de formação de professores e de ativação de novos públicos com envolvimento de comunidades e instituições parceiras em todo o Brasil. Ao mesmo tempo, um programa de itinerância da bienal por diferentes cidades brasileiras tem levado as últimas edições da mostra a um público cada vez mais amplo e, neste ano, tem o potencial de dobrar o número de espectadores, fazendo com que a 31ª alcance 1 milhão de pessoas. Como estão estruturados o planejamento e a atuação do Educativo Bienal para dar conta da formação e da mediação cultural de um público tão amplo?

A cada mostra, novos projetos, conceitos e métodos são propostos pelos diferentes atores de uma bienal. Curadores, artistas, educadores, públicos e equipes internas dialogam para a proposição de estratégias de fruição das obras e dos projetos. As ações e as parcerias propostas pelo Educativo Bienal são avaliadas e analisadas de diferentes maneiras, gerando parâmetros qualitativos, fundamentais para o aprimoramento de propostas, mostras itinerantes e próximas edições.

A curadoria educacional de Stela Barbieri, que se tornou permanente em 2011, foi estruturada pelos eixos conceituais “encontro”, “diálogo” e “experiência”. As propostas se organizam em diferentes eixos de atuação, voltados para qualquer pessoa com interesse em conversar sobre arte. Nesse contexto, cursos, conversas, visitas e ações de ateliês são adaptados às necessidades dos participantes e outros florescem da convivência com o público. Desde então, um grande número de pessoas tem participado de encontros, que aconteceram antes, durante e depois das mostras, dentro e fora da bienal. O Educativo já realizou encontros em escolas, universidades, ONGs, comunidades, instituições culturais, igrejas, quadras poliesportivas e até tendas de circo.

Essa curadoria-ateliê, propositiva e colaborativa, considera o ativo contato com a arte, as obras e as pessoas, respeitando a criação e a experimentação, em propostas concebidas, coletivamente, em cada projeto. Entre as ações programadas podemos destacar: os cursos de formação para educadores; a oferta de material educativo às escolas visitantes da mostra e a professores, educadores e estudantes que participam dos laboratórios; os Encontros de Formação, que são conversas sobre contemporaneidade; as visitas orientadas; ações poéticas; e ateliês.

Observatório: Além da esfera de formação, a bienal se propõe a atuar na esfera da pesquisa, com o Arquivo Bienal, que pretende ser um centro de referência e memória em arte moderna e contemporânea. Como está estruturado esse arquivo e como o Educativo dialoga com a área de pesquisa?

O Arquivo Bienal é o espaço que preserva e mantém viva a história das bienais. Composto de documentos reunidos durante a organização e a produção das mostras ou enviados por participantes de diversos países ao fim de cada evento, é constituído por catálogos de arte, livros, revistas, dossiês de artistas, vídeos e fotografias, material de referência sobre a arte nacional e internacional, cartazes e clippings, de 1948 aos dias atuais.

Esse acervo de valor inestimável alimenta as pesquisas de nossas equipes e subsidia a atuação do Educativo, principalmente no eixo “pesquisa e conteúdo”, sendo um veículo aglutinador e fundamental para os demais eixos de atuação educativa.

Um bom exemplo desse diálogo entre o Educativo e o arquivo está na realização do Seminário Arte em Tempo, viabilizado em parceria com o Sesc/SP, que apresentou o levantamento acerca de todas as ações educacionais realizadas em bienais e culminou na exposição Arte em Tempo, realizada na bienal em paralelo à mostra 30x Bienal – Transformações na Arte Brasileira da 1ª à 30ª edição. Essa exposição, recentemente remontada na Universidade Mackenzie, exibiu informações e documentos históricos e educativos do Arquivo Bienal. O seminário e a exposição foram realizados pelo Educativo com a colaboração de um grande grupo de ex-educadores das bienais. Pesquisadores deram continuidade ao levantamento iniciado em 2010, pelo grupo da professora doutora Maria Christina Rizzi, de resgate à memória desses educativos, finalizando com a consultoria do pesquisador José Minerini Neto. Nesse processo, foram coletados depoimentos e gravadas mais de 70 entrevistas, que hoje integram o acervo do Arquivo Bienal. Parte dessa pesquisa pode ser conferida no material educativo da mostra 30x Bienal ou consultada no próprio acervo mediante agendamento prévio.

Outra ação realizada recentemente em parceria com a equipe do arquivo foi a ativação da obra O que Caminha ao Lado, do artista mexicano Erick Beltrán para a 31a Bienal de São Paulo. A obra intervém em uma biblioteca disponível ao público, formada por publicações duplicadas do acervo do arquivo. Elas receberam a intervenção do artista e de pessoas da comunidade do Campo Limpo, por meio de folhas soltas inseridas nos livros, organizadas sugerindo formas não habituais de leitura. Durante a mostra, o Educativo realizará ateliês para ativação da obra, criando novas intervenções e pequenas publicações que se somarão renovando esse acervo.

Essas ações dialogam com a documentação patrimonial que reúne a história da instituição e sua relação com o desenvolvimento da arte moderna e contemporânea.

Observatório: Como apresentado pelos curadores, “o título da 31ª Bienal de São Paulo – Como falar coisas que não existem – é uma invocação poética do potencial da arte e de sua capacidade de agir e intervir em locais e comunidades onde ela se manifesta”. Nessa edição da bienal, a educação começou no início do processo, com a equipe do Educativo envolvendo-se nas fases de pesquisa dos projetos dos artistas e criando uma relação que continua na preparação para a exposição. Foram realizados Encontros Abertos em Belém, Belo Horizonte, Fortaleza, Bogotá, Lima, Porto Alegre, Recife, Salvador, Santiago, São Carlos, São Paulo e Sorocaba para discutir urgências e perspectivas locais. Qual o balanço que você faz dessa jornada do Educativo? Pode-se detectar algum efeito transformador, que era desejado que ocorresse com o público que entrou em contato com esse processo?

Nessa bienal, o Educativo colaborou com a investigação de vários artistas, sugerindo caminhos de pesquisa, acompanhando as visitas e as residências, apresentando alguns pontos da cidade e facilitando o contato com possíveis parceiros. Esse convívio com os participantes propiciou a imersão de nossa equipe nos processos de construção dos projetos e das diferentes jornadas de seus idealizadores, impactando diretamente na diversidade de temas e abordagens dos Encontros de Formação propostos ao longo deste ano.

A série de Encontros Abertos promovidos pelo Educativo foi proposta pela equipe de curadores da mostra. O objetivo é que eles funcionem simultaneamente, como ferramenta de pesquisa e como forma de avaliação crítica do processo curatorial. Realizados em parceria com instituições desses diferentes locais, os encontros contam com a escuta alternada dos curadores Charles Esche, Galit Eilat, Nuria Enguita Mayo, Pablo Lafuente e Oren Sagiv e dos curadores associados Benjamin Seroussi e Luiza Proença, referente às falas de artistas, críticos, curadores, estudantes e demais interessados na organização da exposição.

Nos primeiros encontros, iniciados em outubro de 2013, os curadores tinham mais interesse em ouvir do que em falar. Ficava visível a vontade, desses olhares estrangeiros, de conhecer e dialogar com o contexto de nosso país e, com base neste, construir o projeto curatorial. A realização desses encontros em várias cidades possibilitou a descoberta e a leitura da produção cultural, de sistemas e necessidades próprios do Brasil e das leituras que se tem das bienais de São Paulo, para então conceberem e estruturarem a exposição dentro do pavilhão. Nesses encontros, os curadores também puderam ter contato com a produção de alguns artistas e coletivos que hoje integram a mostra.

Para o Educativo, esses encontros funcionaram como canais para intensificar os debates que já promovíamos com os estudantes, os professores e os educadores sociais, ampliando o espaço de fala para antigos parceiros e o contato com diferentes profissionais da cultura, por meio de concepções que em sua maioria ecoam nas nossas. O Educativo não acompanhou presencialmente as discussões internacionais, mas, como todos os encontros são documentados e relatados por críticos independentes, foi possível acessar as discussões. No blog da bienal [http://www.bienal.org.br/blog.php], estão disponíveis esses relatos e a agenda dos próximos encontros.

Os encontros continuam acontecendo durante a exibição da mostra, fortalecendo-se como espaços de articulação e teste das direções tomadas pela curadoria.

Seria precipitado gerar um balanço geral dessa jornada acompanhada pelo Educativo. Ainda estamos digerindo esses encontros. O fato de serem ações pontuais, pautadas predominantemente na escuta, gerou retornos múltiplos e fragmentados, demandando uma antropofagia mais cuidadosa. Esses retornos apresentam necessidades coletivas, nem sempre em sinergia com a missão da Fundação Bienal, e aprovam e/ou questionam o que é feito por meio de valores distintos. O Programa no Tempo apresenta diferentes ações do Educativo e da curadoria em diálogo com a exposição e pretende continuar com essa escuta, garantindo, de certa forma, espaço para essas diferentes manifestações.

Observatório: Um dos temas dos Encontros Abertos realizados pelo Educativo na 31ª bienal foi “A bienal me representa?”, discutindo qual é ou qual poderia ser o papel da bienal em tempos de crescente falta de confiança das pessoas nas autoridades representativas e legitimadoras. Qual foi o retorno dos participantes em relação a essa provocação? Por favor, dê também sua opinião, como artista e educadora.

Um dos principais eixos de atuação do Educativo Bienal é a formação de professores e educadores sociais. A possibilidade de construção de significados coletivos com esses profissionais multiplicadores acontece em diferentes formatos. São encontros sobre arte contemporânea, nos quais buscamos distintas aproximações com a arte. Como mencionei, os encontros são geralmente modulares, podendo ser acompanhados isoladamente ou em sequência, de acordo com os interesses de seus participantes, subsidiando o aprofundamento em conceitos já abordados anteriormente ou a ampliação por meio do contato com novas temáticas, artistas e práticas.

Em que medida as ferramentas do Educativo Bienal consideram e representam a missão da Fundação da Bienal de São Paulo, a proposta curatorial da 31ª bienal ou as necessidades de nossos interlocutores? Essa foi uma das perguntas que nos fizemos para a construção da estrutura de algumas de nossas ações. Parte dessa resposta culminou na ação “A Bienal me representa?”, que integrou uma série de Encontros de Formação em Arte Contemporânea, concebidos para a parceria com o Centro Cultural São Paulo [CCSP].

Essa ação, proposta por Leonardo Matsuhei, em agosto de 2014, apresentou historicamente as principais bienais de arte, seus desdobramentos políticos e culturais, promovendo conversas sobre a prática horizontal, apresentando um recorte histórico da arte e traçando paralelos entre as manifestações de julho e o impacto da representação política nos meios de comunicação considerando a apropriação de slogans de luta e resistência: “Agora somos todos Claudia/Amarildo/guaranis kaiowás”; e a consequente perversão dessas formas para interesses midiáticos e comerciais: “Agora somos todos macacos”; com os projetos de artistas da 31ª bienal que propõem maneiras alternativas de pensar a democracia e a representação, como Dan Perjovschi, Juan Carlos Romero, Ana Lira e Eder Oliveira.

A ação poética propunha aos professores a reorganização das questões debatidas a fim de construir um discurso próprio sobre o tema “representação política”, bem recorrente nos Encontros Abertos realizados juntamente com a curadoria.

O poder de escuta e reflexão das ações educativas nos permite caminhar juntos, quando se trata de dar visibilidade e encontrar as urgências que nos movem no contexto atual. Para a garantia de encontros desse tipo, precisamos reinventar nossas estratégias a fim de alcançar as distintas especificidades presentes nesses debates e assegurar espaços para que os envolvidos nos digam por qual caminho querem seguir, e não o contrário.

Não são poucas as provocações e os desafios gerados para o Educativo Bienal. Quando olhamos para os nossos públicos e seus números agigantados, não podemos deixar de perceber que estamos olhando para pessoas, indivíduos com histórias de vida e necessidades diferentes. Essa consciência precisa ser constante, para acompanhar seu tempo e a diversidade de seus atores, sejam eles internos, externos, de dentro ou fora do Brasil. Um trabalho de formiguinha, que se faz junto com cada formiga do formigueiro...

* Daniela Azevedo é bacharel em artes visuais e especialista em educação e linguagens da arte, professora do curso de graduação em artes visuais do Centro Universitário Belas Artes de São Paulo e sócia do estúdio de criação láDaMata. Coordenou o Programa de Atendimento Educativo do instituto Itaú Cultural de 2005 a 2012; o educativo da exposição Senna Experience, do Instituto Ayrton Senna, em 2005; e o educativo da mostra itinerante Brasil Século XIX: Imagens da Cultura – Exposição Digital do IBBNET, em 2002. Desde 1998, atua em educativos de diversas instituições culturais de São Paulo. Como artista visual, expôs em Guarulhos, São Paulo, Belo Horizonte, Itália e Inglaterra.