por Milena Buarque

Onze mil quilômetros em uma boleia de caminhão dão conta de segredar uma das verdades de quem tem a estrada como morada: muitas vezes, mais importante que a chegada é o caminho. É o que mostra o documentário Fabiana, de Brunna Laboissière, vencedor na categoria Prêmio do Público do Olhar de Cinema – Festival Internacional de Curitiba, no início de junho. Primeiro longa da diretora, o projeto foi um dos selecionados pelo programa Rumos Itaú Cultural 2015-2016. A última viagem da caminhoneira Fabiana, mulher transgênero e lésbica, é contada por Brunna, que assume o papel de caroneira.

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“A partir de meus 18 anos, comecei a viajar muito de carona. Cada carro ou caminhão que para e dá uma carona é um universo de histórias pessoais que se somam às paisagens que vemos pela janela. Muitos dos que paravam eram caminhoneiros, todos homens. Em geral, dão carona para conversar, afastar a solidão e sentir o tempo passar mais rápido. Porém, em uma das vezes em que pedi carona, em 2012, uma mulher dirigindo uma grande carreta parou: era ela, a Fabiana”, conta a diretora, que viu na caminhoneira uma personagem pronta para um documentário.

Ainda que o caráter de observação da vida cigana de Fabiana permeie a narrativa, seu carisma e sua vontade de contar histórias, de ter voz, encontram em Brunna a interlocutora ideal. “Como já nos conhecíamos, existia uma cumplicidade entre nós. Algo que me marcou é que, logo depois dos primeiros quilômetros percorridos, a Fabiana começou a indicar o que ela achava interessante que fosse filmado, tomando frente também do que poderia ser representado em seu próprio filme. Isso, somado à espontaneidade com que ela nos conta suas histórias, foi um caminho para respeitar a forma como ela gostaria de ser representada”, diz.

Documentário Fabiana conta a história da última viagem da caminhoneira | foto: Brunna Laboissière
Documentário Fabiana conta a história da última viagem da caminhoneira | foto: Brunna Laboissière

Foram 31 dias com Fabiana: 28 para o filme, 1 – em 2015 – para a realização do teaser, que levou à inscrição no edital, e outros 2 em que se conheceram. Durante os primeiros 18 dias de estrada, protagonista e diretora viajaram sozinhas. Saíram de Goiânia, foram para Fortaleza, passaram por Mossoró (RN), desceram para o Rio de Janeiro, chegaram a São Paulo e voltaram para Goiânia. Lá, Priscila, companheira de Fabiana, se somou às duas para mais dez dias de boleia.

A diretora conduz o espectador pelo mundo peculiar da caminhoneira, em que sua potência se reafirma na resistência a um mundo majoritariamente masculino e binário. “Infelizmente, não encontramos nenhuma outra caminhoneira no trajeto. Mas a Fabiana sempre mencionou ter algumas amigas caminhoneiras, porém não muitas”, conta Brunna.

São 30 anos tendo o caminhão como casa e a estrada como local de partida e ponto de chegada. O documentário registra sua última andança antes da aposentadoria. A liberdade e a autonomia da protagonista são, segundo a diretora, o que de melhor há em Fabiana. “Acredito que o principal impacto é a inspiração que ela passa em relação a viver do jeito que se quer, sem se importar com o que os outros dizem. Ser você mesma e se respeitar antes de mais nada”, conclui.

Saiba mais sobre Fabiana: site | facebook.

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