Criada em 2003, a Companhia do Miolo propõe uma reflexão acerca da relação do teatro com a cidade, associando seus espetáculos ao cotidiano de diferentes regiões da cidade, sempre com o objetivo de trazer questionamentos ao público encontrado em cada espaço ocupado artisticamente.

Em entrevista ao Observatório, o grupo falou sobre como busca o financiamento de suas apresentações; a sua compreensão do espaço público quanto às possibilidades de encontro, tanto esteticamente quanto politicamente; como explora seu espaço próprio, localizado na Penha, e qual a relação proposta com os moradores do entorno.

Como o grupo se formou? Quais foram as motivações?

A Cia. do Miolo existe desde 2003 e nasceu de um grupo de estudantes que estavam se formando pela Universidade São Judas Tadeu. A atriz e pesquisadora Renata Lemes é uma das fundadoras, junto com outros integrantes que já não estão mais conosco. Ainda na universidade, já havia o interesse em pesquisar teatro de rua. O grupo participava de um programa de formação de públicos dentro da universidade, que consistia em levar espetáculos teatrais às escolas, e essas andanças suscitaram a vontade de encontrar esse público em outros contextos, de encontrá-lo na rua.

Para a cia., o teatro carece de intervir no espaço da vida real, afetando e deixando-se afetar pelos espaços coletivos da cidade. O primeiro espetáculo com esse núcleo foi O Burguês Fidalgo, de Molière, que usava uma Kombi como palco, ou seja, ainda trazia resquícios dessa experiência de estar em um espaço fechado, em um palco suspenso, porque a rua é sempre uma grande novidade.

Esse período também foi muito importante porque foi quando o grupo despertou para as especificidades da rua. A partir daí, entendemos a necessidade de pesquisar que tipo de treinamento – de poética e de dramaturgia – era necessário para fazer um teatro na rua, com a rua e seus passantes. Dessa forma, passamos a compreender a rua como o espaço público fértil e propício para o encontro, tanto estética quanto politicamente.

Quais são os principais meios de financiamento dos quais o grupo se vale? Já receberam editais de alguma natureza? De modo geral, como vocês avaliam os editais e seus processos de seleção?

O grupo nem sempre teve financiamentos, em muitos momentos produzimos com a cara e a coragem mesmo. Nunca deixamos de desenvolver nossos trabalhos por falta de verba, vamos criando espaços, reinventando nossas formas de (re)existir diante das dificuldades que se apresentam.

Nesses 12 anos de existência fomos contemplados algumas vezes com editais municipais e estaduais. Inclusive, recentemente recebemos a excelente notícia de que nosso projeto foi contemplado pela 27ª edição do Fomento ao Teatro para a Cidade de São Paulo – lei muito importante, criada com muita luta por artistas –, o que nos permitirá desenvolver uma pesquisa continuada, ampliar nossos horizontes estéticos e pensar as políticas culturais e o teatro que estamos fazendo.

Considerando o grande número de artistas e grupos desenvolvendo seus trabalhos em São Paulo, a verba disponibilizada nesses editais é insuficiente para abarcar toda a demanda. Sendo assim, a luta junto ao poder público para a ampliação de verba e por leis que garantam estrutura e acesso à cultura é grande e árdua.

A cia. apresenta a grande maioria de suas obras no espaço urbano. O que os levou a fazer da rua o palco de seus espetáculos? Para vocês, qual o significado dessa apropriação da rua? Quais são os principais desafios ao compor e produzir trabalhos destinados a esse tipo de espaço?

O desejo de provocar o encontro. Entendemos que o teatro pode criar fissuras nessas ruas “de passagem”, gerar ações de resistência que restabeleçam seu sentido de encontro, reflexão, sensibilização, troca e expressão.

Quando falamos de rua, não falamos apenas de acesso. É claro que também levamos isso em consideração, pois ainda hoje muitas das pessoas que encontramos em nossa circulação nos relatam que aquela foi sua primeira experiência com um espetáculo teatral, e que nunca foram “ao teatro”. Para nós da Cia. do Miolo, a rua é um espaço que instiga dramatúrgica e poeticamente, é o nosso espaço de convivência, onde disputamos nosso lugar de estar e viver na cidade, a possibilidade de estimular outros modos de existir e construir outros imaginários.

Há algum tempo vocês realizam o espetáculo Relampião, que trata da mitológica figura de Lampião e, ao mesmo tempo, busca discutir a condição do imigrante nordestino. Poderiam nos contar um pouco sobre como foi o processo desse trabalho? Que cuidado é necessário ter ao representar um outro marcado por movimentos de des- e reterritorialização, recuperando mitos e fragilidade?

O desejo de desenvolver esse espetáculo surgiu enquanto ainda estávamos fazendo uma residência artística na Ladeira da Memória, durante a criação do espetáculo Amores no Meio-Fio. Era um período muito difícil, porque havia muitos meninos em condição de rua, cheirando cola, um cenário triste. Ao mesmo tempo, a nossa permanência lá criou uma aproximação e um interesse desses meninos pelo nosso fazer; eles acompanharam todo o processo de feitura da peça que acontecia ali, às vistas deles.

Um dos meninos chamava muito a nossa atenção. Ele era bem pequeno, tinha uma perna amputada, andava com uma muleta superpequena, era caolho e bem marrento. Os outros meninos estavam sempre à sua volta, ele era bem articulado. Uma figura forte e muito expressiva que se destacava dos demais. No meio daquela “caatinga de concreto”, eles pareciam um míni Lampião e seu bando.

A Renata queria já há algum tempo pesquisar a figura do Lampião, esse mito tão controverso, e trouxe a proposta para o grupo. Desenvolvemos as primeiras ideias e, em seguida, convidamos a Cia. Pauliceia para juntos darmos corpo à pesquisa. Desse encontro surgiu o espetáculo Relampião.

Não buscamos retratar o imigrante nordestino, falamos dessas pessoas que estão aqui, e que se deparam com todas essas dificuldades com as quais o imigrante se depara ao chegar a um outro lugar. Falamos de nós – desterritorializados dentro do nosso próprio território –, de uma mulher que não tem teto, de outra que perdeu o filho assassinado, de um peixeiro filho de nordestinos e herdeiro da tradição da pescaria. Enfim, em posse dessas metáforas, buscamos dar voz às falas de muitos Lampiões e Marias Bonitas que vivem na cidade de São Paulo. Falamos do outro porque falamos de nós. A pesquisa é uma intersecção do mito e do imigrante que trabalha e atua na rua desta grande cidade.

Sabemos que vocês estão trabalhando em uma obra – que a princípio não é pensada para ser um espetáculo de rua – e têm como ponto de partida a memória da casa que hoje é sede do grupo e no passado foi um prostíbulo doméstico. Qual o significado desse resgate? Como uma sede, tópico que tem a ver com gestão e questões cotidianas, transformou-se em material artístico? Como foi o processo de descoberta desse lugar e qual tipo de tratamento vocês pensam para a memória do espaço e das pessoas que passaram por ele?

Casa de Tolerância é o primeiro espetáculo que vamos fazer em um espaço fechado. A pesquisa se deu inteiramente dentro da nossa sede/casa, essa testemunha viva no bairro da Penha, memorial de tantas vozes silenciadas nesta condição do feminino, temática que abordamos no trabalho. O projeto nasceu do desejo de pesquisar a história da casa, nossa sede desde agosto de 2011.

Descobrimos aos poucos que, antes de o grupo ocupá-lo, nesse sobrado discreto funcionava um prostíbulo doméstico, em um local predominantemente residencial. Era, assim, um espaço de “exceção”, cujas histórias e memórias estão intrinsecamente ligadas às experiências do bairro, seja revelando seus paradoxos, seja afirmando a existência de um mundo particular sob os olhares curiosos de uma vizinhança pouco afeita àquelas personagens.

A história da casa, relativa à prostituição, é completamente velada, assunto no qual ninguém quer tocar. Neste espetáculo feito só por mulheres, investimos em uma narrativa que traz à tona a questão da condição feminina na contemporaneidade. Com o pretexto de convidar as pessoas para um almoço/mutirão de reforma da sede, as três atrizes da companhia recebem o público ao som de Lindomar Castilho, em meio a tijolos, picaretas, comida e bebida. Porém, aos poucos, os acontecimentos da casa vão revelando o real intuito do convite. As narrativas sobre as memórias da casa se misturam às memórias do grupo. Aos olhos do espectador, a casa é aos poucos revelada e seu intrigante mistério é compartilhado: pode haver ali uma mulher emparedada, um corpo ocultado.

Abrir as portas da nossa casa para um encontro com o público e a vizinhança é a possibilidade de aprofundar nossas ações e nossos vínculos no entorno da sede, abrir um espaço de discussão e um imaginário a respeito desse lugar.

O grupo tem um papel importante na formação de públicos. Como vocês operam nesse sentido e qual a importância e os desafios desse processo de formação?

Trabalhamos com formação de público de diversas maneiras, como apresentação de espetáculos com conversas ao final, oficinas de iniciação teatral e compartilhamento de pesquisa. Nos cinco primeiros anos de nossa trajetória, trabalhamos com a circulação dos espetáculos nos diversos espaços da cidade, investindo na relação cena/espectador, e só depois disso tendo uma pesquisa de linguagem consolidada. Começamos a pensar em termos de pedagogia teatral, em como ampliar a formação para além da cena e a partir daí trabalhar com oficinas de iniciação em escolas – para alunos e também para professores de artes da rede pública.

Mais recentemente, estamos investindo em encontros mais voltados à experiência que estamos vivendo no projeto do Casa de Tolerância, que consiste em realizar vivências corporais – workshops com base na educação somática (G.D.S. e eutonia) – abertas ao público com o tema do feminino no corpo.

Esses espaços de troca são muito importantes para nós, porque favorecem o diálogo com um público bastante diverso, permitindo uma aproximação ao acontecimento teatral, à linguagem, nos colocando em um constante e profundo processo de investigação e reflexão a respeito do nosso fazer artístico.

Como vocês foram parar em uma sede na Penha?

As ruas do centro da cidade sempre foram os nossos locais de atuação e permanência e, durante muito tempo, fizemos nossos treinamentos espetáculos nessa região. Mas o centro é um lugar muito fugidio, não conseguimos estabelecer um vínculo, porque ele é muito móvel, as pessoas mudam, o lugar muda. Acabamos estabelecendo vínculos bastante temporários, efêmeros, e estávamos sentindo a necessidade de estabelecer um vínculo um pouco mais duradouro. Então começamos a desejar uma sede fora do centro da cidade – embora esse espaço nunca tenha deixado de ser um disparador de poéticas, dramaturgias, questões e ações.

Nesse período nos lançamos em uma pesquisa cujo trajeto se dava através da linha vermelha do metrô (Barra Funda/Corinthians-Itaquera) e suas extensões. A escolha do bairro da Penha tem a ver com esse projeto, no qual um dos procedimentos de pesquisa era a realização de derivas, andanças pelos bairros dadas ao acaso. Ter encontrado essa casa foi fruto desse acaso.

Dessas idas e vindas pela linha vermelha do metrô (que também dá nome ao projeto contemplado na 18ª edição do Fomento ao Teatro para a Cidade de São Paulo) nasceu o espetáculo Taiô, expressão ouvida nos bairros longínquos. A dramaturgia foi feita nos bancos dos trens, nas derivas às cidades-dormitórios e no convívio com a história de um povo que reivindica para si, além do sono no transporte, uma outra possibilidade de vida. Usamos a metáfora do olhar de homens e mulheres de asas “taiadas”, esgotados e resistentes, a irem e virem pela linha vermelha, espremidos, em desacordo com as pipas que voam pelo céu. O espetáculo convoca a uma reinvenção de asas, um voo sobre os trens e para além da luta pela sobrevivência.

Realizamos temporadas desse espetáculo em várias regiões da cidade, voltamos ao centro e também fizemos aqui no bairro da Penha, pois muito da pesquisa nasceu aqui no Largo do Rosário dos Homens Pretos. Pensando as relações de aproximação e vínculo, apresentamos a peça aqui na rua da sede para os nossos vizinhos; foi uma experiência muito especial.

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