Professor da Universidade Federal do Rio Grande do Norte (UFRN), o historiador Durval Muniz de Albuquerque Júnior dedica-se à pesquisa sobre as relações entre a narrativa da história e a produção de subjetividades. Autor do livro A Invenção do Nordeste e Outras Artes (São Paulo, Cortez, 2011) e assessor em história do Obscuro Fichário dos Artistas Mundanos, ele contextualiza o momento político de produção das fichas da Deops/PE que originam o projeto, assim como a importância desse acervo para a compreensão de uma cena artística existente no Recife entre as décadas de 1930 e 1950.

Qual o contexto histórico do arquivo que dá origem ao Obscuro Fichário dos Artistas Mundanos? Qual a importância dele?
As ações dos Departamentos de Ordem Política e Social foram intensificadas após um momento de muita tensão, por medo da ameaça comunista, da subversão comunista, sobretudo após 1935. A Delegacia de Ordem Política e Social (Dops), ao ser criada na década de 1930, herdou ou vinculou-se a um setor que já regulava e censurava as apresentações artísticas públicas e a atuação de artistas. O que chama atenção é que a Dops no Recife e a Delegacia de Vigilância e Costumes do Rio de Janeiro tiveram modos semelhantes de fichar os estrangeiros e artistas.

No Brasil, nesse período, brasileiros e, especialmente, estrangeiros em trânsito pelo país tinham de se apresentar a cada parada e pedir uma espécie de autorização de permanência, salvo-conduto. Alguns eram considerados suspeitos. Para esses eram então abertos prontuários. Os prontuários, por sua vez, continham relatos de campanas, recortes de jornais, correspondências, interrogatórios – caso houvesse. Muitos artistas estrangeiros eram suspeitos de ser espiões, ou comunistas, agitadores. Alguns foram acusados de extorquir dinheiro. Atrizes, dançarinas ficavam muito próximas dos oficiais americanos. Muitas delas eram descendentes de alemães. São pessoas que estavam em alguma medida, no dia a dia, por dentro do cotidiano do oficialato do Recife ou daqueles que chegavam ao Recife. E claro que isso despertava suspeitas. No Recife, uma atriz, por exemplo, foi fichada por estar rindo alto na mesa de um restaurante; um ajudante lhe pediu que parasse porque no mesmo ambiente estava o interventor Agamenon Magalhães. Ela não parou, obviamente. No outro dia foi chamada à delegacia por desrespeito às autoridades.

Havia ainda no Brasil um grupo fugido na Rússia na década de 1930, os Cossacos de Kuban. Antibolcheviques, lutavam na reação à criação da União Soviética. Eles circulavam, usavam cavalos, apresentavam-se em vários locais. Depois, em algum momento, um integrante do grupo, Timóteo, foi trabalhar em um restaurante chamado Tabu e esse lugar foi vigiado até 1966. Ou seja, Timóteo foi vigiado por mais de 30 anos. E no prontuário você vai encontrar uma narrativa constituída por faturas, cardápios, porque os caras da Dops suspeitavam até do nome de um prato, que poderia ser, na visão deles, um código.


Como se dava essa vigília?
A Dops indicava os investigadores, que atuavam disfarçados, à paisana. Cada casa de show, pensão, hotel tinha o seu investigador e pagava por ele. Uma correspondência da Rádio Clube indica isso. E os investigadores, por sua vez, se envolviam com os suspeitos. A documentação sugere que eles bebiam e talvez se divertiam em serviço. Em 1944 a Dopes criou uma espécie de corregedoria [a Delegacia Auxiliar] para investigar esses agentes, o que sugere que eles estavam fora do controle.

Havia ainda o próprio arquivista do Dops/PE, um ex-marceneiro contratado em 1934. Ele criou todo o sistema de fichamento, incluindo o desses artistas que passaram pelo Recife. Em algum momento, ele mesmo se fichou, talvez querendo pertencer àquele grupo, se fazer existente ali. Aposentou-se em 1968 e foi condecorado em 1971; recebeu uma medalha na ocasião da abertura do escritório do SNI [Serviço Nacional de Informação] no Recife.

O que mais podemos perceber sobre a sociedade a partir da simples observação atenta às informações do arquivo?
Olhando as fichas, percebemos que há um medo generalizado do corpo diferente. Estamos na era Vargas, quando surgem teorias raciais, movimentos baseados nas teses eugenistas, um período de nazifascismo. Nessa época, o Estado Novo deixou transparecer um ideal de corpo. Foi quando surgiu a educação física nas escolas, o incentivo ao escotismo, por exemplo. Estimou-se a construção de um corpo ordenado. E suspeitou-se do corpo fora da ordem. Ou mesmo dos corpos que atuavam fora de um papel preestabelecido pela sociedade. Por exemplo, suspeitavam-se das mulheres que não eram esposas nem mães de família. Suspeitavam-se dos anões, das contorcionistas, da mulher que trabalhava com uma cobra no pescoço. E esses corpos eram boêmios, da noite, dos prazeres, e estavam, portanto, em desacordo.

Por isso mesmo foram fichados, vigiados, postos em certa ordem, ainda que a ordem seja um arquivo.
Isso. Eles eram corpos nômades, atravessavam fronteiras e falavam línguas distintas, podendo levar e trazer notícias. Havia o medo do corpo estrangeiro, das outras etnias, o preconceito com judeus, ciganos, cartomantes, os do candomblé. Eles foram colocados no campo da desordem, dos que não tinham identidade fixa; usavam pseudônimos, estratégias que os ajudavam a não circular nos códigos de identificação. Ou seja, os corpos tinham estratégias para fugir do controle.

No Recife, até os prédios eram fichados. Todos os edifícios na frente do Porto do Recife, por exemplo, por razões óbvias, eram fichados. A Dops sabia quem morava em cada andar e em cada apartamento. Muitos desses moradores eram prostitutas, dançarinas. E alguns lugares funcionavam como casas de jogos, cassinos.

Podemos sugerir então uma cena, uma cartografia da diversão para o Recife a partir do fichário?
Sim. Podemos pensar em uma cidade da boemia, uma cidade do perigo, uma cidade do prazer em diferentes percursos, em diferentes geografias.

O Recife então não se coloca como uma cidade nordestina, no sentido de regional. Ela é cosmopolita, mundana?
Sim. A gente sai da elaboração do Nordeste que é uma elaboração política, artística, uma imagem homogeneizada a partir de um discurso regionalista que também foi uma contribuição de nossa intelectualidade. O Recife foi o centro desse regionalismo e, no entanto, não fazia parte desse Nordeste narrado. Se você considerar o Guia Prático, Histórico e Sentimental da Cidade do Recife, escrito por Gilberto Freyre [e publicado pela primeira vez em 1934], pensará que nesse período só existiam igrejas e casas coloniais na cidade. O Obscuro Fichário dos Artistas Mundanos mostra o que Gilberto Freyre esconde. De fato Gilberto Freyre inicia o seu guia pelo porto do Recife, mas ele segue pelas igrejas, pelos casarios, enquanto esse outro roteiro sugere hotéis, cassinos, pensões, casas de jogos. Trata-se de um arquivo com a potência de mostrar outras cartografias da cidade, outras temporalidades e espacialidades que conviviam concomitantemente, coletivamente – apesar de perseguidas e mesmo hoje ignoradas.