Por Cassiano Viana

Não faz muito tempo, o mineiro Eustáquio Neves – considerado um dos grandes nomes da fotografia brasileira atual – afirmou que sua obra é sempre muito autobiográfica. "Estou, de certa forma, sempre falando de mim mesmo, do que acontece à minha volta e da herança que me acompanha", comentou em uma entrevista, acrescentando que a fotografia foi o lugar mais confortável que encontrou para expressar o que queria dizer às pessoas.

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"Estou sempre com um projeto novo na cabeça. O que está em processo no momento é um fotolivro sobre mim mesmo, baseado nos arquivos e na informação oral vinda da minha família e de pessoas próximas", reforça. "Algo sobre o tempo e como eu lido com ele", explica, lembrando que o tempo é uma questão inerente à fotografia, e não só do ponto de vista técnico.

Esse traço autobiográfico está presente em A Boa Aparência, obra que faz parte da exposição Arquivo Ex Machina – Identidade e Conflito na América Latina, que acontece no Itaú Cultural de 16 de junho a 7 de agosto. Com entrada gratuita, o evento integra o IV Fórum Latino-Americano de Fotografia de São Paulo (a ser realizado de 16 a 19 de junho).

Em A Boa Aparência, o mineiro confronta textos do período colonial com classificados com ofertas de emprego dos dias de hoje. A ideia para a obra surgiu quando Eustáquio pesquisava textos e anúncios em periódicos antigos que denunciavam a fuga de escravos, informando as suas características e marcando a boa aparência como um diferencial – o qual, inclusive, aumentava o valor de mercado desses escravos.

"Mais tarde, tive a ideia de confrontar esse tipo de informação com as ofertas de emprego dos classificados dos jornais atuais que pediam, como requisito para a vaga, a mesma boa aparência", explica Eustáquio, que ministrou, na última edição do fórum, em 2013, o workshop Processos para Desenvolvimento de uma Ideia.

Eustáquio Neves (Foto: Valéria Felix)
Eustáquio Neves (Foto: Valéria Felix)

Para o mineiro, a fotografia continua tendo um papel importante na sociedade. "Mais ainda aliada às novas tecnologias. Distribuir imagens hoje é muito mais fácil e rápido. O acesso à informação é muito maior", lembra.

Sobre o tema do evento neste ano – A Fotografia como Pensamento, com uma reflexão sobre o conceito de arquivo –, Eustáquio lembra que o acesso aos arquivos públicos sempre foi tratado de forma restrita para a população. "Isso vem mudando gradativamente, na medida em que as pessoas, principalmente os artistas, vêm se apoderando dessas informações, que têm se tornado públicas de fato", explica.

"Antes, acessar certos arquivos era coisa muito burocrática, em alguns casos até impossível. O que não quer dizer que antes não se trabalhava com arquivo; muito pelo contrário, ele sempre foi fonte de inspiração e matéria de trabalho de muitos artistas, como os arquivos de família", pondera.

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