Maria José Torres é ex-aluna do Curso de Especialização em Gestão e Políticas Culturais, realizado pelo Itaú Cultural em parceria com a Cátedra Unesco de Políticas Culturais e Cooperação, da Universidade de Girona, na Espanha. Com mais de 30 anos de experiência no setor cultural, ela comenta as habilidades e competências que enxerga como necessárias para o êxito na atuação de gestores e produtores culturais.

Maria José Moreira de Oliveira Torres é graduada em letras (português/francês) e em história pela Universidade Federal de Uberlândia, com especialização em literatura brasileira contemporânea e em gestão cultural pelo Instituto Itaú Cultural e Universidade de Girona. No início da carreira foi professora/alfabetizadora de português do ensino fundamental II e do médio. Em 1984, foi convidada a trabalhar com a primeira Secretária de Cultura. Nos anos de 1990, efetivou-se em cargo de nível superior por meio de concurso público. Somou 32 anos dedicados à Secretaria de Cultura, com experiência na implantação de equipamentos culturais, serviços e coordenação de setores e projetos. Nesse período, aperfeiçoou o conhecimento nas áreas de arquivologia, literatura e gestão cultural, participando de palestras e cursos. Seu último cargo foi de assessora cultural, aposentando-se na carreira como analista em serviço público/gestor cultural em outubro de 2016. Nas horas vagas, incursiona na escrita poética, com interesse e paixão por poemas e contos.

Maria José Torres (Foto: Divulgação)

Qual a importância de compartilhar com outros gestores as suas experiências na área da cultura? Como você vê essa troca?

A troca de ideias e experiências no campo das artes e da cultura tem importância por uma razão, a meu ver, muito simples e óbvia: como não há uma agenda comum nas turmas das artes e da cultura (e ainda bem que não há), acaba existindo uma “necessidade” de conhecer outras referências e padrões de ações programáticas, quer sejam empreendidas pelo poder público, quer pela iniciativa privada.

Qualquer debate menos corporativo, mais institucional e mais conceitual enriquece o pensamento e, por consequência, a prática, apesar de essa associação não ser necessariamente isenta de conflitos, diferenças, divergências e dessemelhanças. Penso que é sempre salutar romper com certos pragmatismos que dominam o fazer cultural nas instituições, quase sempre carregados de boas intenções, mas que não alcançam muitas vezes o desejável: estimular o universo das expressões e fazer da cultura um objeto de estudo, reflexão e debate, sempre.

É muito difícil promover momentos de troca entre regiões e instituições com estruturas diferentes em razão da dificuldade geográfica dos encontros, mas plataformas virtuais podem ser uma boa maneira de congregar os diferentes para a discussão de problemas e soluções que afetam a cultura e as artes.

Quais os desafios que um gestor/produtor cultural enfrenta hoje no Brasil?

Falando especificamente da minha experiência na Secretaria de Cultura de Uberlândia, acredito que um dos desafios mais desestimulantes para o gestor público é lidar com o baixo orçamento e seu permanente contingenciamento, cuja origem e natureza estão no poder discricionário das prioridades eleitas por instâncias superiores, inviabilizando investimentos.

Outros desafios que também prejudicam o trabalho são:

• a falta de planejamento e de uma agenda cultural de médio e longo prazos. A sazonalidade de ações por períodos de mandato de agentes públicos quebra o ritmo das mudanças e das prioridades;

• a máquina pública não está preparada para lidar com as questões contemporâneas da arte e da cultura, seja pelo regramento legal excessivo com seus preciosismos jurídicos, seja pela pauta mais tradicional das coisas públicas – cultura não cabe nesse universo. A política cultural levada a cabo pelos órgãos públicos constrói uma realidade que, por mais democrática que seja, contribui para um ambiente menos dinâmico pela dificuldade funcional e legal de acelerar mudanças na mesma proporção e rapidez com que as práticas culturais acontecem. No entorno desse espaço instituído, viceja a força propulsora de transformações sociais, cada vez mais complexas, dinâmicas, intensas e densas;

• renovar plateias e públicos. A falta de comunicação adequada e de publicidade com os destinatários da cultura e com a sociedade prejudica a ampliação de oportunidades e interesses;

• o corpo técnico e administrativo dos órgãos públicos não está imbuído, com raras e honrosas exceções, de seu papel fundamental de mediar as questões prementes da vida institucional para os ativos culturais. Há necessidade de qualificação e aperfeiçoamento sistemáticos dos servidores públicos e também de fazê-los entender que sem mudança de mentalidades não se conquistam mudanças no interior das instituições para atender ao conjunto das demandas culturais.

Hoje, pensando melhor, imagino que um pacto federativo para cultura (Sistema Nacional de Cultura, Plano Nacional de Cultura e seus desdobramentos estaduais e municipais) não trará resultados significativos para as culturas locais se não houver a destinação de orçamentos específicos para os municípios e a efetiva participação do público na tomada de decisões e na cobrança de resultados.

Em que consiste o trabalho do gestor/produtor cultural? Quais as habilidades e competências necessárias para que tenha êxito em sua atuação?

Acredito que um bom gestor/produtor cultural não precisa ler todos os jornais e livros, assistir a todos os espetáculos e ouvir todas as músicas, mas tem de se mostrar atento e sensível à realidade do seu município, de outras cidades, do mundo. Permitir e aceitar novas formas contemporâneas de conhecimento, expressão e interpretação dessa realidade, respeitando e valorizando a experimentação e a tradição. Manter-se atualizado sobre as questões conceituais da arte e da cultura, mas não as esvaziar de concretude nem do conjunto da cidadania. Ser o interlocutor com capacidade de sensibilizar instâncias superiores para a inovação, a criação e a difusão da cultura, numa compreensão da importância do caráter simbólico da cultura para as pessoas. Saber traduzir demandas em oportunidades públicas.

Penso também que, para ter êxito, um bom gestor/produtor deve levar em consideração algumas variáveis do ponto de vista externo, que incluem envolver o corpo técnico e administrativo da instituição no planejamento das ações, na formulação de metas e na realização das tarefas, desde as mais simples às mais complexas; promover a participação dos ativos e agentes culturais em instâncias de interlocução sistemática; implantar um sistema de comunicação eficiente e garantir transparência e publicidade dos atos; ser capaz de transversalizar assuntos e interesses; liderar com equilíbrio; ser ético; saber ouvir, dialogar, respeitar. Política pública para a cultura interessa aos seus sujeitos e aos seus destinatários, e não às instituições. Trabalhar com cultura não é uma postura ideológica, é uma longa conversa – como diz Teixeira Coelho – para contextualizar as necessidades e demandas.

Realizar a gestão cultural requer um trabalho paciente de interação, partilha, apropriação, cooperação, disciplina e criação de espaços de conexão e troca. O equilíbrio dinâmico dos sistemas está na valorização da diversidade cultural, e o papel do gestor cultural é ser mediador e ter capacidade de distinguir as diferentes dimensões que se interagem.

Como você avalia as políticas culturais praticadas na sua cidade, Uberlândia?

O município de Uberlândia tem o privilégio de ter um órgão exclusivo para tratar das questões das artes e da cultura. A Secretaria de Cultura foi criada, por lei, em 1983, e implantada em 1º de fevereiro de 1984. São mais de 32 anos de consolidação de frentes de trabalho importantíssimas para a cultura local. São destaques dessa vida longeva as seguintes instituições e seus serviços: Banda Municipal de Uberlândia, Arquivo Público, Biblioteca Pública, Museu Municipal, Espaço Cultural do Mercado, Casa da Cultura, Oficina Cultural, Teatro Rondon Pacheco, Teatro Municipal (com 740 lugares) e seis espaços para exposição (galerias e salas alternativas). Além desses equipamentos culturais, são também importantes o Programa Municipal de Incentivo à Cultura e alguns projetos na área de difusão cultural, incluindo o Cineclube Cultura, o Festival de Dança do Triângulo e o trabalho de preservação do patrimônio arquitetônico e das manifestações culturais. A Secretaria de Cultura trabalha sistematicamente com chamamento público para as ocupações dos espaços e a participação de projetos, tendo garantido a democratização das suas ações.

Sem desmerecer a trajetória do órgão e com respeito aos vários gestores, na minha opinião, no entanto, faltam investimentos substanciais para tornar os equipamentos culturais mais dinâmicos e atrativos, com a ampliação de serviços e a implantação de plataformas interativas, utilizando-se das novas tecnologias digitais.

Para citar um exemplo, a Biblioteca Pública, datada de 1940, recebe cerca de 900 usuários por dia. O acervo, que tem cerca de 43 mil livros, só foi automatizado no período de 2006 a 2012, e ainda não foi digitalizado. Funciona num prédio antigo, adaptado, mas inadequado para a modernização e ampliação de suas funções.

Com relação às instituições privadas, dois importantes institutos locais e mesmo algumas ONGs fazem um trabalho singular de promoção das atividades culturais e de sustentação de projetos importantes para as comunidades dos bairros.

Em síntese, Uberlândia tem se reinventado sempre, do ponto de vista artístico e cultural, muito mais do que do ponto de vista institucional. Ainda bem!