O grafite é uma realidade incontestável na maioria dos grandes centros urbanos. Por meio da escrita e dos desenhos em muros, pontes e prédios, os artistas ou interventores de rua expressam ideias, sentimentos e posicionamentos políticos – e, apesar da variedade de seus conteúdos e de suas formas, há algo em comum em todos os trabalhos que marcam as paredes da cidade: a necessidade de comunicar algo através da arte ou da transgressão.

Muito se discute sobre as diferenças entre grafite e pichação. Geralmente o segundo termo é associado a uma forma supostamente menor de expressão, ou até a uma forma de vandalismo, mas esse juízo de valor não vem ao caso neste texto. Aqui, grafite e pichação são entendidos como irmãos gêmeos – ainda que não idênticos. Ambos, afinal, compõem a memória das cidades e nos ajudam a compreender certas dinâmicas do espaço urbano.

Estudiosos apontam que o grafite é uma das mais antigas manifestações artísticas e culturais da humanidade, sendo possível encontrar vestígios dessa prática em murais preservados do Antigo Egito, nos relevos do Palácio de Assurbanipal – na Mesopotâmia – e nas ruínas de Pompeia, sem contar as inscrições rupestres pré-históricas.

Um dos precursores do grafite em São Paulo, atuante desde meados dos anos 1980, Binho Ribeiro vê as intervenções como espécies de “tatuagens na cidade”. “Elas vão se transformando, vão ocupando seus espaços”, diz ele.

“Da mesma maneira que, às vezes, agridem a sociedade e poluem visualmente uma área, elas também se encontram do lado da solução, do resgate, do restauro de lugares.”

Cidades sem habitantes

São Paulo é conhecida mundialmente por seus grafites, mas as relações entre grafiteiros e Estado sempre foram complexas, já que a ilegalidade está na gênese dessa manifestação – e segue, em muitos casos, caracterizando seu modus operandi. Nas últimas décadas, no entanto, a absorção do grafite por diferentes instituições aumentou o alcance dos trabalhos, fazendo-os chegar a museus e galerias, e ampliou sua potência educacional. Sobre as mudanças pelas quais esse cenário vem passando desde a década de 1980, Ribeiro destaca uma crescente maturidade dos artistas e sua boa relação com os outros cidadãos. “Isso fez com que o Poder Público também acompanhasse esse processo e nos olhasse de um jeito um pouco diferente”, conta. Mesmo assim, o apagamento de grafites continua entre os serviços de zeladoria das prefeituras.

Para a pesquisadora Gabriela Leal, a ambiguidade da atuação do Poder Público em relação ao grafite se dá pelo fato de o Estado ser “constituído por diferentes instâncias que nem sempre agem de maneira coordenada e coerente. Assim, por exemplo, em São Paulo, se de um lado existe um programa de combate às inscrições, em forma de lei, de outro lado existe uma série de fomentos e parcerias que de alguma forma contribuem para a preservação dessas práticas”.

Gabriela ressalta que algumas ações

“podem parecer integrar políticas de preservação desses trabalhos, mas servem a outros interesses e podem ter consequências negativas. Isso vem sendo muito discutido por pesquisadores em Lisboa, no contexto dos grandes murais financiados pela prefeitura, muitas vezes utilizados pela iniciativa pública ou privada como gatilhos de valorização imobiliária, contribuindo para um processo maior de turistificação e gentrificação, que tem efeitos perversos sobre as populações locais, como o aumento dos aluguéis e um consequente deslocamento forçado dentro da cidade”.

Os trabalhos muitas vezes são pintados e apagados em uma velocidade que impossibilita seu registro. Assim, Ribeiro entende que é necessário “um empenho mais acadêmico na documentação histórica, e isso é algo que tem que ser uma tendência mundial”. Além desse empenho, vale destacar a relevância de espaços como o Museu Aberto de Arte Urbana de São Paulo (MAAU/SP) – coordenado por Ribeiro, o projeto realiza e preserva grafites nas 33 colunas que, no canteiro central da Avenida Cruzeiro do Sul, na Zona Norte da capital paulista, sustentam um trecho elevado da linha azul do metrô.

“Apesar de a cidade, hoje, século XXI, comportar uma diversidade de maneiras de habitar, usar e conhecer os seus espaços, entre as quais se encontram as práticas de pintura na rua”, diz Gabriela, “as suas instituições não se reinventaram a ponto de conceber a existência e a coexistência dessa diversidade. As inscrições de grafite indicam um uso do espaço urbano, enquanto esses apagamentos parecem sempre querer instaurar a ideia de um não uso.” Nesse contexto, a pesquisadora vai além e evoca a imagem de uma cidade que, numa busca constante de aparentar ser nova, parece ter perdido sua razão de ser: “Como se não estivesse sendo habitada”, comenta ela.

Binho Ribeiro faz graffiti desde 1984, primórdios do movimento da arte de rua no Brasil. Hoje é um dos mais reconhecidos street artists no país não apenas pelo trabalho consistente que nunca parou de fazer nas ruas, mas também pelo apurado trabalho em telas e curadoria de grandes projetos envolvendo a street art, como o Museu Aberto de Arte Urbana (MAAU), o primeiro museu aberto de arte urbana do mundo, e a Bienal Internacional Graffiti Fine Art, hoje a mais completa bienal de arte urbana do mundo.

Gabriela Leal é antropóloga, mestre em Antropologia Social pela Universidade de São Paulo (PPGAS-USP), com dissertação intitulada “Cidade: modos de ler, usar e se apropriar – Uma etnografia das práticas de graffiti de São Paulo” (no prelo). É colaboradora do Grupo de Estudos de Antropologia da Cidade (GEAC-USP) e pesquisadora do Centro Brasileiro de Análise e Planejamento (CEBRAP). Possui bacharelado em Ciências Sociais (FFLCH-USP) e pós-graduação lato sensu em Teorias e Práticas da Comunicação (Fundação Cásper Líbero). Atualmente também desenvolve projetos relacionados às artes visuais, impressas e ativismos urbanos no coletivo APRAÇA e no Movimento Imargem.

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