Por Šárka Grauová

Fica difícil falar de Antonio Candido e da importância que ele teve para mim sem incorrer no pecado de tentar se engrandecer imiscuindo-se na coorte dos muitos alunos e colaboradores do mestre, grandes figuras da crítica literária brasileira.

Confesso, por isso, que vi Antonio Candido apenas uma vez na vida. Foi em 1991, quando eu, uma autodidata em termos de literatura brasileira, me aventurei no Brasil para verificar se os brasileiros realmente existiam – já que, na então Tchecoslováquia, os únicos que eu conhecia eram os parentes de uma funcionária de baixo escalão da embaixada do Brasil. Quem me levou foi Telê Ancona Lopez, que se tornou minha primeira professora de literatura brasileira – numa época em que, graças à generosidade de José Mindlin, pude passar três meses no Instituto de Estudos Brasileiros da Universidade de São Paulo (IEB/USP). Foi também ela que me disse: “Šárka, você precisa ler Antonio Candido”.

Voltando para Praga, trazia na mala os livros Na Sala de Aula, Vários Escritos – por causa do artigo “Digressão sentimental sobre Oswald de Andrade” – e Formação da Literatura Brasileira. Esse último foi a base do curso de história da literatura brasileira que comecei a lecionar naquele mesmo ano – durante um tempo, o trabalho foi uma tábua de salvação para quem não tinha acesso a muitas das obras que faziam parte do cânone brasileiro. Com alguma licença poética, poderia dizer que quem deu aulas de literatura brasileira em Praga até 1995 – quando abandonei a Faculdade de Letras, para voltar oito anos depois – foi Antonio Candido.

Quando tento descobrir por que não segui outros historiógrafos importantes da literatura, como Alfredo Bosi e Massaud Moisés, dou-me conta de que minha convergência espontânea com o ponto de vista de Antonio Candido provavelmente tem a ver – além de seu dom da explicação sucinta e clara – com o ambiente intelectual em que me formei. Na Faculdade de Letras da Universidade Carolina, em Praga, que cursei entre 1983 e 1988, a literatura era, em grande parte, ensinada por professores de caráter duvidoso, nomeados por razões políticas, em alguns casos até como colaboradores da Polícia Secreta. Estes submetiam a literatura ao balcão de estiramento do assim chamado marxismo-leninismo, uma ideologia destituída de qualquer potencial crítico ou analítico. Mas entre eles, ainda que com dificuldades, sobreviviam alguns – poucos - “dissidentes”: não dissidentes políticos, coisa impensável, mas dissidentes por assim dizer metodológicos, membros de uma geração de professores com os quais tive a sorte de estudar após a abertura política dos anos 1960, uma época antecedente e contemporânea à Primavera de Praga.

Suas aulas de literatura tcheca, inglesa ou hispano-americana – eu frequentava os seminários atraída pelos professores, e não pelos assuntos em si ‒ amiúde combinavam duas abordagens. A primeira era a do estruturalismo tcheco – chamado no Brasil de formalismo -, que teve origem no Círculo Linguístico de Praga e foi marxizado nos anos 1950, para ser de novo estruturalizado nos anos 1960. Além de Roman Jakobson, que deixara a Tchecoslováquia logo no início da ocupação do país pelos nazistas, eram especialmente Jan Mukařovský, no campo da teoria, e Felix Vodička que aplicavam a teoria da estrutura literária às metamorfoses históricas das letras. A segunda abordagem era a do marxismo reformador dos anos 1960, ligado ao “socialismo com rosto humano” e protagonizado por pensadores como Karel Kosík, autor de Dialética do Concreto, e Milan Machovec, de Jesus para os Marxistas.

Pouco a pouco comecei a perceber o quanto esses fatores condicionaram minha adesão às interpretações de Antonio Candido, cujo método consistia justamente em uma análise rigorosa do texto, sem descuidar dos contextos psicológico e sociocultural – ou seja, um método que atribuía à obra literária uma autonomia relativa[1].

Passados quase 30 anos, meu diálogo interior com a obra de Antonio Candido se traduz nas tentativas de repensar suas ideias à luz da evolução histórica posterior. Por exemplo, o célebre ensaio “O Direito à Literatura” foi publicado em 1988, ano da minha formatura. O ano seguinte, com a queda da Cortina de Ferro, por um lado deu liberdade àqueles que não a tinham e por outro trouxe o fim das utopias de várias ordens – das nossas e das alheias.

Não podemos mais dizer que a República Tcheca é um país onde uma tradução de um livro clássico, como Os Lusíadas, de Luís de Camões, é publicada numa edição de 9 mil exemplares; onde três edições subsequentes de Gabriela, Cravo e Canela, de Jorge Amado, somaram 251 mil exemplares; e onde a tradução de Grande Sertão: Veredas, de João Guimarães Rosa, saiu em 1971 numa tiragem de 5 mil exemplares – vendidos logo que foram postos no balcão.

Atualmente, não podemos mais compartilhar desse otimismo, afinal os sociólogos há algum tempo provaram o que já sabíamos por via empírica: as pessoas tornaram-se leitoras assíduas por falta de outras possibilidades de autorrealização.

Hoje em dia, a República Tcheca é um país onde os livros de autores portugueses e brasileiros, em relação ao número de habitantes, vendem em percentagens comparáveis às de outros países da União Europeia. Em 1988, Antonio Candido ainda pode pensar que “quando há um esforço real de igualitização há aumento sensível do hábito de leitura, e portanto difusão crescente das obras”[2]. Atualmente, não podemos mais compartilhar desse otimismo, afinal os sociólogos há algum tempo provaram o que já sabíamos por via empírica: as pessoas tornaram-se leitoras assíduas por falta de outras possibilidades de autorrealização.

Durante a década de 1990, foram à falência as editoras que seguiam o antigo padrão de qualidade – no que diz respeito à escolha das obras ou ao cuidado na preparação do texto: os leitores não queriam “perder tempo” com as considerações pós-modernas de William Styron, autor do romance A Escolha de Sofia, quando podiam encontrar cenas eróticas em outros livros sem passagens incompreensíveis. No antigo regime a que se referiria Antonio Candido se ampliasse seu comentário para além da Rússia, a leitura era o sucedâneo de viajar, de ter fantasias sexuais induzidas, de espreitar a vida dos cidadãos livres “behind the courtain”, de se divertir, de escapar da cinzenta realidade circundante – isso tudo num país onde os livros previamente anunciados chegavam às livrarias apenas às quintas-feiras e, nas semanas em que eram postas à venda as obras de maior qualidade ou com histórias policiais, as pessoas faziam filas junto às portas fechadas desde as 7 da manhã.

Do ponto de vista atual, aquele regime “em que o tempo parou” – para parafrasear o título de um livro de Bohumil Hrabal, um brilhante cronista daquele tempo – dava a seus súditos, além da educação, um único bem que favorecia os hábitos de leitura: o tempo livre, o ócio do qual precisamos para a contemplação da beleza. Para bem dizer: um ócio forçado. Como costuma dizer uma de minhas colegas, falar de leitura obrigatória é como falar de obrigatoriedade da felicidade. E o regime chamado “socialismo real” fazia exatamente isso.

(...) há dois séculos a fruição estética é um bem ao qual cabe um valor cada vez menor. A sociedade de desempenho (...) destituiu-nos daquele bem que possuíamos sem o valorizar: o ócio.

Não podendo nos ater à resposta utópica de Antonio Candido, ficamos, sim, com o seu diagnóstico aflitivo do estado do nosso mundo atual: “Chegamos a um máximo de racionalidade técnica”, sendo ao mesmo tempo máxima também a “irracionalidade do comportamento”. E ainda: “Os mesmos meios que permitem o progresso podem provocar a degradação da maioria”[3]. A pergunta que Antonio Candido colocou – o direito à literatura faz parte dos direitos humanos? – continua a inquietar, e isso por duas razões. Primeiro porque, após esses anos todos, ainda há muitas pessoas que continuam sem acesso à literatura – bem como às outras artes ditas belas. E segundo porque, inclusive no nosso mundo tcheco da escolaridade obrigatória, há dois séculos a fruição estética é um bem ao qual cabe um valor cada vez menor. A sociedade de desempenho, em que o ser humano virou o animal laborans que explora a si mesmo[4], destituiu-nos daquele bem que possuíamos sem o valorizar: o ócio. O homem pós-moderno virou um bem consumível, e há quem diga que os sentimentos de transitoriedade e de vulnerabilidade estão ligados à “desnarrativização geral do mundo”[5]. Chegamos a um momento em que o direito à literatura e à beleza começa a ser um problema universal.

A obra de arte, e especialmente a poesia, é – como diz Paulo Leminski num ensaio em que mostra como o que era moral na literatura russa do século XIX virou, depois da revolução, político - um “inestimável inutensílio”[6]. É justamente porque os regimes “socialistas” favoreciam a literatura proletária e pró-regime sem “eficácia estética”, como o próprio Antonio Candido não deixa de constatar[7], e viviam proibindo a literatura “inútil”, fosse ela representada pelo Ulisses de James Joyce, fosse por um romance policial de Rex Stout, que os russos – e, entre outros, os tchecos – recorriam a clássicos de autores como Camões e Shakespeare, que representavam a experiência humana em termos esteticamente válidos.

No momento em que estou elaborando esta intervenção, há dois moradores de rua que pediram à minha congregação em Praga a licença para tocar piano na sala das orações aos domingos à tarde. E também no Brasil, segundo me disseram, os estudantes das escolas dos assentamentos do Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra (MST), que têm contato com a literatura a partir das edições da Expressão Popular, não querem ler apenas Manuel Antônio de Almeida e Lima Barreto, mas também livros de leitura mais difícil, como Macunaíma, de Mário de Andrade. Ao mesmo tempo, os professores de letras europeus estão, com uma frequência crescente, intimados a provar sua utilidade e eficiência, seu desempenho e sua sempre tão suspeita qualificação: uma vez que somos todos alfabetizados, então as letras ‒ para quê? Não contribuem para a criação de renda, têm um poder subversivo, incitam uma relação crítica com o mundo globalizado. Ora, por um lado os desvalidos têm um desejo profundo de beleza; por outro, o estudo da literatura e das artes em geral passou a ser, ele próprio, desacreditado. Quando perguntamos ao mágico Google sobre a validade da beleza como redenção, a resposta que recebemos tem a ver com os institutos de beleza em Redenção, no Pará.

Não é a primeira vez que isso acontece na cultura ocidental. Friedrich Schiller escreve, na segunda das cartas reunidas em A Educação Estética do Homem, que “a utilidade é o grande ídolo do tempo; quer ser servida por todas as forças e cultuada por todos os talentos. Nesta balança grosseira, o mérito espiritual da arte nada pesa, e ela, roubada de todo estímulo, desaparece do ruidoso mercado do século”[8]. Acho que, num momento no qual o direito à beleza começa a ser um problema universal, faz todo sentido voltar ao filósofo alemão, que, apesar de pertencer aos clássicos de Weimar, foi o primeiro a criticar de modo sistemático a redução iluminista dos valores à sua utilidade. Seus opúsculos filosóficos se mostram de uma atualidade surpreendente – A Educação Estética do Homem foi amplamente comentada e interpretada por Jürgen Habermas como a primeira crítica estética da modernidade; no Brasil a obra foi cotraduzida por Roberto Schwarz em 1989, e em Praga o trabalho foi publicado em forma de samizdat, ou seja, clandestinamente. Posto que o tradutor era um homem aceito pelo regime, a explicação só pode residir no fato de que, na obra, Schiller chega a formular uma primeira teoria da abertura do homem ao mundo – a outros seres humanos e à natureza. Afinal, a educação do homem integral culmina na disposição estética mas não se limita a ela. “É pela beleza que se vai à liberdade”[9], resume ele.

Em suas considerações, Schiller formula uma hipótese interessante: a de que as artes florescem apenas nas épocas de crise – talvez, em termos individuais, a beleza nos faça maior falta em tempos difíceis. Quem precisa mesmo da beleza é o desvalido e o outsider, o frágil e o inadaptável, aquele que fracassou ou está inevitavelmente destinado ao fracasso. “Gosto e liberdade se evitam e [...] a beleza funda seu domínio somente no crepúsculo das virtudes heroicas”[10], escreve o autor em sua décima carta. Para o resto, o faz de conta serve perfeitamente. Como aponta Tomáš Halík, sociólogo e teólogo tcheco, nossa religio, ou religação, não é mais aquilo que nos une com Deus nem as malhas da cultura, que nos fornecem uma matriz comum. A nossa atual religio são as mídias – são elas que interligam os membros da sociedade contemporânea. Será que passamos a um tempo da educação midiática do homem? Não diria.

Pensando nessa correlação negativa, alguns aficionados da palavra, como George Steiner, chegaram à conclusão de que, nos regimes autoritários, a censura e a opressão têm um efeito benéfico sobre a literatura – porque dão urgência à mensagem do escritor e concedem à palavra um lugar incomparável àquele que ela tem nas sociedades com liberdade de expressão e direito garantido à literatura. A solução, então, seria elogiar os países com regimes ditatoriais e altos índices de pobreza? Decerto não.

A meu ver, os livros de Antonio Candido oferecem outro caminho: a radicação da escritura e da leitura na nossa experiência. O crítico e o professor não devem ser técnicos que instrumentalizam conceitos e métodos nem aqueles que dão um valor mais alto ao ranking da revista do que ao conteúdo daquilo que escrevem, virando pouco a pouco uma espécie de funcionários públicos. Candido deixa isso bem claro em vários textos – no prefácio à primeira edição de Formação da Literatura Brasileira, por exemplo, lê-se o que poderia ser considerado um credo de toda a sua vida: se a literatura brasileira “não for amada, não revelará sua mensagem, e se não a amarmos, ninguém o fará por nós”[11]. A leitura é uma experiência, assim como a fruição da beleza é uma experiência – tanto afetiva quanto cognitiva. Como escreveu Sophia de Mello Breyner Andresen, grande poetisa portuguesa, “dizer que a obra de arte faz parte da cultura é uma coisa um pouco escolar e artificial. A obra de arte faz parte do real e é destino, realização, salvação e vida”[12].

O crítico e o professor de letras são pessoas que, além do privilégio da educação, tiveram o privilégio de ser tocados pela beleza. E essa experiência não se privatiza.

Para Antonio Candido, no caminho apontado por Schiller, a leitura e a crítica são exercícios de amor que não se fecham sobre si mesmos porque, como a nobreza, beauté oblige. O crítico e o professor de letras são pessoas que, além do privilégio da educação, tiveram o privilégio de ser tocados pela beleza. E essa experiência não se privatiza, mas, como um princípio vitalizante, leva o leitor por profissão ao mundo e aos outros seres humanos – o aluno, o leitor comum, o concidadão, o próximo. Não se pode considerar completa a leitura de um poema ou de um romance sem esse gesto generoso, na ausência do qual corre-se um perigo: como aponta Steiner, um judeu sobrevivente do holocausto, se a beleza não nos leva à ética, pode-se chegar ao ponto em que “o grito no poema talvez venha a soar mais alto, mais premente, mais real do que grito na rua. A morte no romance talvez nos emocione com mais força do que a morte próxima de nós”[13].

A grande lição de Antonio Candido é, a meu ver, que a profunda experiência da beleza nos leva a uma existência empenhada[14]. Na feliz expressão de Steiner: é preciso “trazer de volta a literatura em contato com a trama obscurecida da nossa vida”[15].

Šárka Grauová é professora da Universidade Carolina, em Praga (República Tcheca), e tradutora de obras da literatura brasileira para o tcheco.

***

Este ensaio foi produzido para o Colóquio Internacional Antonio Candido, evento ligado à mostra que o programa Ocupação Itaú Cultural desenvolveu para homenagear o professor e crítico literário – que completaria 100 anos em 2018.

Clique aqui para ouvir um trecho da fala de Šárka Grauová.

Saiba mais sobre a Ocupação Antonio Candido.

 


[1] Termo de João Alexandre Barbosa citado por Ligia Chiappini em: Os equívocos da crítica à formação. In: D'INCAO, Maria Angela; SCARABÔTOLO, Eloísa Faria (Ed). Dentro do texto, dentro da vida. Ensaios sobre Antonio Candido. São Paulo: Companhia das Letras: Instituto Moreira Salles, 1992. p. 170.

[2] CANDIDO, Antonio. O direito à literatura. In: Vários escritos. São Paulo: Ouro sobre Azul, 2017. p. 187.

[3] CANDIDO, Antonio, op. cit., p. 169.

[4] HAN, Byung-Chul. Sociedade do cansaço. Tradução E. P. Giachini. Petrópolis: Vozes, 2015. p. 28.

[5] Ibid., p. 44.

[6] LEMINSKI, Paulo. Inutensílio. In: Ensaios e anseios crípticos. Campinas: Editora da Unicamp, 2011. p. 85-87.

[7] CANDIDO, Antonio, op. cit., p. 180-181.

[8] SCHILLER, Friedrich. A educação estética do homem. Tradução R. Schwarz e M. Suzuki. São Paulo: Iluminuras, 2002 (1989). p. 22.

[9] Idem, ibidem.

[10] SCHILLER, Friedrich, op. cit., p. 56.

[11] CANDIDO, Antonio. Prefácio à primeira edição. In: Formação da literatura brasileira. Belo Horizonte; Rio de Janeiro: Itatiaia, 2000. p. 10.

[12] ANDRESEN, Sophia de Mello Breyner. Arte poética III. In: Obra poética II. Lisboa: Caminho, 1991. p. 7.

[13] STEINER, George. Para civilizar os nossos cavalheiros. In: Linguagem e silêncio. Ensaios sobre a crise da palavra. Tradução G. Stuart e F. Rajabally. São Paulo: Companhia das Letras, 1988. p. 81.

[14] Cf. PEDROSA, Célia. Antonio Candido: a palavra empenhada. São Paulo: Edusp, 1994.

[15] STEINER, George. Devastação. In: Extraterritorial. A literatura e a revolução da linguagem. Tradução J. Castañon Guimarães. São Paulo: Companhia das Letras, 1990. p. 54.

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