por Mayra Fonseca

“As pessoas são visíveis. Não querer ver é não querer se envolver com a história do ser humano que sofre.”

(Maria Eulina Hilsenbeck, Clube das Mães do Brasil)

As simples e diretas palavras da maranhense reverberam em mim desde que ouvi a sua fala no Brechas Urbanas de agosto de 2017. Ela, que chegou a São Paulo há mais de 40 anos e viveu por quase dois em situação de rua, convive diariamente com catadores de lixo, ambulantes, ex-presidiários e crianças que fazem parte da quinta geração dos chamados filhos da rua na cidade.

Maria Eulina fundou em 1993 o Clube das Mães do Brasil, ONG voltada para o acolhimento e a capacitação profissional de pessoas socialmente vulneráveis. Todos os dias, ela pergunta a uma nova família que chega ao Castelinho da Rua Apa, sede da entidade, no centro de São Paulo: de onde vocês vieram? Assim, escuta histórias de vida nas quais se reconhece e reafirma seu propósito de colaborar com os que têm origens e caminhos próximos aos dela: são muitas mulheres, muitas pessoas de família negra, muitos nordestinos e nortistas. Questionando o uso da palavra invisibilidade para descrever pessoas marginalizadas no urbano, ela convida:

“Essas histórias precisam ser olhadas mais de perto”.

Intervenção urbana do artista paraense Éder Oliveira. Belém, 2015

Este dado da Prefeitura de São Paulo apresentado pelo advogado Dito Barbosa, do Centro Gaspar Garcia de Direitos Humanos, reforça a nossa hipócrita cegueira:

“40% da população da cidade não tem moradia ou vive em risco” (em cortiços, loteamentos clandestinos ou endividadas por um aluguel que – nas periferias – pode significar cerca de 70% da renda de uma família). “E sabemos que ter um teto é dos direitos mais fundamentais. É a porta de entrada para todos os outros”, ressalta.

Então, convenhamos:

O que escolhemos ignorar quando fingimos não perceber os mais de 4 milhões de pessoas que transitam extremamente vulneráveis pela maior cidade do país?

A especulação imobiliária. Os conflitos de terra. A herança da escravidão e do patriarcado. A desigualdade socioeconômica. A noção de bem-estar público. A empregabilidade. As mazelas do sistema penitenciário. Os dilemas da saúde pública. A violação ao direito de existir e de transitar nos territórios...

O debate na noite de quinta-feira 31 de agosto de 2017, em plena Avenida Paulista, trazia respostas cada vez que alguém se juntava à conversa. Bruno Torturra fez a costura das contribuições:

“É preciso rever as narrativas sobre as contradições contemporâneas no território das cidades”.

Daniel Mello, jornalista e membro do coletivo A Craco Resiste, também participou do debate e deu a sua definição sobre um espaço da capital paulista. “A Cracolândia não é sobre o crack; é uma comunidade de pessoas que estão lá porque não se enquadraram na sociedade por diversas razões: pessoas que saem do sistema penitenciário, pessoas que saem do convívio da família, pessoas que não possuem oportunidades. Somente 30% das pessoas são usuárias.”

Criar uma contranarrativa é justamente uma das demandas urgentes com relação à comunidade conhecida como Cracolândia: não é um endereço do crack no centro de São Paulo, é um grupo de pessoas que vivem na região central da cidade. Criado no final de 2016 para ajudar a comunidade a combater a crescente violência policial, o coletivo A Craco Resiste tem cerca de 30 voluntários que atuam em algumas frentes.

Por um lado, eles acreditam na importância de debates mais transparentes e racionais que compartilhem a realidade e ajudem a diminuir os estigmas implantados na sociedade. Por outro, relembram a importância do tempo e do afeto para uma aproximação humana a pessoas tão marginalizadas: cultivar um vínculo cuidadoso parece ser um pedido a quem pretende atuar na Cracolândia.

Ausência, obra do artista paraense Éder Oliveira

Os ecos do encontro me transportaram para Belém (PA): estive de novo diante do olhar dos retratados por Éder Oliveira. São olhares raros, já que ele amplifica a presença daqueles que, na capital paraense, não têm o poder de ver sua imagem cristalizada; pelo menos não em uma pauta da presença. Como Maria Eulina, Éder vê e revê histórias que poderiam ser a dele: o artista nasceu em um vilarejo muito pequeno e, em Belém, acompanhou vidas com a mesma origem se construírem às margens – não só geográficas – da cidade.

Diariamente, ele coleta retratos nas páginas policiais dos jornais de Belém do Pará: procura por pessoas anônimas, absolutamente comuns. Busca esses olhares específicos, aqueles que pedem pausa e tempo, que provocam algum tipo de vínculo: a vontade é de afetar, é de que não se passe imune. Ao se apropriar das fotografias, Éder se distancia dos conteúdos e nos convida a encarar imagens de pessoas que nos ensinaram a rejeitar. Seu trabalho em cores vibrantes e grandes formatos abre brechas para a ressignificação:

Quais novas histórias podemos imaginar para quem foi estampado como marginal?

Por telefone, conversamos sobre o tema “ausência”. Ele em Mato Grosso, eu em Minas Gerais. Enquanto ele me conta sua motivação para deixar aparecer, na obra, uma “grade que é mais do que física, é social”, penso que as escolhas de olhar são reflexões urgentes em muitos entroncamentos brasileiros.

Seguindo a conversa sobre suas inspirações, Éder sintetiza poeticamente a reflexão que, ao ser sobre identidade, talvez seja mais sobre mascaramento do que sobre invisibilidade:

“Eu gostaria de fazer com que as pessoas olhassem mais umas para as outras, essa é também uma forma de vermos as coisas invisíveis que são muito fortes e nos prendem distantes uns dos outros”.

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