por Heloísa Iaconis

O tênue fio da existência se desfaz – até que, nas memórias ainda acesas, a vida é recriada no instante do contar. Vive-se em companhia de ausências, faltas, sombras, saudades. Não há contradição alguma nisso: a carne é trançada de vazios e presenças, como mostra Catálogo de Perdas, obra de João Anzanello Carrascoza e Juliana Monteiro Carrascoza. Quarenta narrativas curtas acerca do desvanecer, projeto apoiado pelo Rumos Itaú Cultural e celebrado no prêmio da Fundação Nacional do Livro Infantil e Juvenil (FNLIJ).

Na edição 2018, o Catálogo conquistou as categorias Jovem e Melhor Projeto Editorial (assinado por Raquel Matsushita), reconhecendo a experiência estética da publicação de João, escritor que pesca a angústia latente nas entrelinhas da perda, e de Juliana, fotógrafa que joga aos olhos leitores a certeza maior: és finito.
 

Guardanapo, imagem do livro Catálogo de Perdas | foto: Juliana Monteiro Carrascoza

Os primeiros textos

Ainda no interior de São Paulo, em Cravinhos, Carrascoza, aluno do Ensino Médio, começou a escrever. Aos 17 anos, mudou-se para a capital paulista por causa do curso de publicidade e propaganda na Escola de Comunicações e Artes da Universidade de São Paulo (ECA/USP). “Nessa época, publiquei meus primeiros contos em revistas e suplementos literários”, recorda. A difusão de textos avulsos, esparsos, marca o momento inicial da trajetória de Carrascoza, cuja estreia em livro completo se deu na década de 1990: no campo infantojuvenil, com As Flores do Lado de Baixo (1991); e na esfera dos já crescidos, com Hotel Solidão (1994), volume de contos.

Relembrar o preâmbulo próprio é, ao mesmo tempo, terreno para a feitura de um alerta: “A minha obra destina-se a vários públicos. Na verdade, não penso muito em público ao escrever”, afirma o autor.

Os elos destroçados

Catálogo de Perdas é um trabalho inspirado no acervo do Museum of Broken Relationships, conjunto de exposições temporárias de causos e objetos enviados por gente do globo inteiro – símbolos catalisadores de elos destroçados. A partir do impacto, delicado e voraz, da visita ao museu, localizado em Zagreb, na Croácia, o escritor construiu narradores diversos (que se dão, com harmonia, à brevidade do conto), sujeitos de naturezas várias, todos assolados por um corte definitivo de alguém querido, próximo: o amigo de infância, Nando o apelido dele; a avó, mais devagar que a vagareza, a mãe comida por um mal súbito; a esposa que não mais afaga o marido com bilhetes em guardanapos; o tio Augusto repleto de vontade de matar; o pai odiado. “O livro é forte e traz, em depoimentos de pessoas que inventei, a grande e definitiva perda: a morte, razão de tantas dores”, diz Carrascoza.

Com base nos textos, Juliana elaborou a outra face textual. Recolheu fotografias familiares, captou representações do objeto-eixo de cada relato e, desse jeito, elaborou as imagens que não ilustram, subalternamente, a página escrita: os retratos são textos, unidades intensas, maneiras outras de narrar um sentimento. Em dias tão cheios de fotos na internet a correr soltas, a sensibilidade do leitor abre-se até mais para esse olhar e, de modo concomitante, surpreende-se.

Esta é a terceira vez que o autor ganha a premiação da FNLIJ (Aquela Água Toda, de 2012, e o romance Aos 7 e aos 40, de 2013, já haviam sido contemplados), e ele comemora: “Fico contente, pois é um júri de 30 votantes, mais difícil de vencer do que um resultado obtido por votos circunstanciais. Além disso, creio que a fundação pense como eu: que o livro serve para jovens e adultos”.

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