por Tiago Barbosa D'Ambrosio

e Marcel Fracassi

Dando continuidade à série de entrevistas sobre casas de show de São Paulo – que já passou pelo Jazz B, pela Casa de Francisca e pela Serralheria –, o Observatório conversou com Fernando Tubarão, gestor do Espaço Cultural Puxadinho da Praça – localizado na Vila Madalena e dedicado à música autoral –, que acabou de comemorar seu terceiro aniversário.

Contador de histórias nato, Tubarão já foi, entre outras coisas, montador de freezer, dono de mercearia, limpador de carpetes e de estádio de críquete, lavador de pratos, motoboy, fotógrafo e DJ. A seguir, ele fala sobre a sua carreira de produtor no exterior, comenta o domínio da TV e do rádio na divulgação da cultura brasileira, ressalta a necessidade de os grandes artistas apoiarem a cena independente e discute algumas das muitas dificuldades financeiras e de gestão para sustentar projetos autorais.

OBS: Como você começou a trabalhar como gestor de uma casa de show?

Tubarão: Nunca tinha sido empresário da noite, dono de casa noturna. Quando cheguei a São Paulo, não conhecia muito dessa cena da música independente, mas tinha certa experiência em administrar negócios próprios: em Londres, cheguei a tocar uma mercearia e uma empresa de limpar carpetes – eu mesmo andava com a máquina, punha um terno, ia ao cliente para vender o serviço, voltava, vestia meu macacão e ia limpar a casa. Tenho segundo grau incompleto. Londres é que me deu mais oportunidades para estudar – fiz curso de arts management, estudei fotografia... –, e isso me levou para a música.

Por que você decidiu ir para Londres? E o que fez por lá?

Quando completei 21 anos, meus pais se separaram, vim de Minas Gerais para São Paulo e trabalhei em uma linha de produção montando freezer. Um dia, vi que não era isso que eu queria, peguei meu acerto e fui para a Inglaterra. Não sabia falar inglês nem conhecia ninguém, só fui embora. Cheguei lá, lavei prato, limpei estádio de críquete, trabalhei como motoboy...

Em 2001, comecei a organizar eventos para a comunidade brasileira em Londres. Promovia rodas de samba e shows de forró e depois passei a fazer uma festa em Camden Town, no Dingwalls, em que, tendo o Brasil como anfitrião, recebíamos cultura de todo o mundo. Minha mãe – que eu havia levado para Londres – fazia coxinha e pastel brasileiros, minha namorada cozinhava e eu discotecava quando faltava DJ. Saiu uma matéria sobre esse meu trabalho na BBC, as festas começaram a bombar e eu entrei em contato com vários nomes da música, tanto de lá quanto do Brasil, como o Daniel Ganjaman. Foi quando conheci o Ady Harley, do selo Ether Records, que foi quem me colocou nesse universo. A partir de 2004, atuei como tour manager de músicos como Otto, Jairzinho, Patrícia Marx, Simoninha, Tom Zé, Ed Motta e Seu Jorge, com quem trabalhei durante anos. Organizei três festivais em Londres com parceria da Jungle Drums e levei muita gente para lá: Alcione, Djavan, Los Hermanos e Pato Fu, entre outros nomes.

Voltei para o Brasil em dezembro de 2008, quando eu ainda tinha uma produtora, a Tuba Productions, que já não estava dando muito certo. A ideia era ficar cinco meses e voltar para Londres. Mas eu estava sem dinheiro e fui ajudado pelo Robert Uranus, dono do selo Sterns Music e maior distribuidor de música africana na Europa. Eu tinha trabalhado com ele por um tempo em Londres e, quando vim para cá, ele me ofereceu estadia na casa da esposa, na Bela Vista, onde acabei ficando por mais de quatro anos. E o Simoninha, que também é um superamigo, junto com o Jairzinho e o Max de Castro, me adotou e me colocou para trabalhar na S de Samba, gerenciando o escritório de show deles. Aí montamos e produzimos o projeto do Baile do Simonal, que gerou um DVD e uma série de espetáculos no Brasil inteiro. Depois disso, fui fazer uma turnê com o Seu Jorge pelos Estados Unidos. Mas isso é só um resumo do que passei lá fora, tem muita história para contar.

E como começou a história do Puxadinho?

Voltei da turnê do Seu Jorge com essa ideia de criar uma linha de merchandising sustentável e montar uma lojinha nos shows. Porque, depois dessa quebra da indústria da música, o artista ficou muito dependente dos espetáculos, já que disco não vende mais. E o merchandising no Brasil ainda não é muito explorado – são poucas as bandas com produtos bacanas. Aluguei um espaço na Praça Benedito Calixto, mas deu tudo errado. Nessa época, fiz a programação musical de um evento de sustentabilidade e ganhei uma graninha. Aí passei nesta esquina aqui [Rua Belmiro Braga com Rua Inácio Pereira da Rocha] e vi esta casa para alugar. Eu não tinha fiador nem nada. Chamei o proprietário e ficamos conversando a tarde inteira. Ele gostou de mim, eu gostei dele e assim aluguei o espaço. Me juntei com a Hayge Mercúrio e montamos um brechó, o Loki Bicho, que existe até hoje. Fomos muito privilegiados, pois várias pessoas passaram por aqui e nos ajudaram bastante: parceiros, amigos, mutirões, doações de material, o ecoponto aqui do lado, músicos topando tocar por bilheteria em um espaço tão pequeno, enfim... O Puxadinho começou dessa forma, totalmente colaborativo. E segue assim até hoje.

Estar na Vila Madalena, região cheia de bares, casas de música e atrações noturnas, ajuda ou atrapalha?

A gente está na contramão do mercado, né? Se você tem uma casa que sempre toca samba, por exemplo, é muito mais fácil alguém passar, perguntar “O que é que toca aí?” e entrar. Geralmente não há uma preocupação tão grande em saber qual é a banda, desde que o pessoal confie minimamente na curadoria. No Puxadinho é diferente: numa noite você pode escutar Peri Pane, Alzira Espíndola, Rômulo Fróes; e no outro dia tem Delvindelux, Saulo Duarte, Rafael Castro, Daniel Groove... São perfis muito diferentes, então é difícil formar um público.

Mas, em geral, estar na Vila Madalena ajuda, sim. De sexta e sábado, por exemplo, tem uma movimentação grande na rua. Então, dependendo da atração, o público entra. Pensando na sustentabilidade financeira, abro sexta e sábado para festas, não necessariamente com bandas autorais. E isso ajuda a gente a bancar os custos das outras noites, porque o Puxadinho abre praticamente todos os dias. Na terça, é uma coisa mais conceitual; na quinta, fazemos as dobradinhas, com duas bandas tocando, até por formação de público: o público de uma banda conhece o da outra; e, no sábado à tarde, tem um formato que eu arranjei para continuar dando oportunidade a essas bandas novas, que é o Festival Autoral Puxadinho, sempre com quatro bandas e por um preço acessível.

E qual é o papel da comunicação para a formação de público da casa?

A gente é muito dependente da divulgação das próprias bandas, exatamente por essa dificuldade de formação de um público específico da casa. Não temos assessoria de imprensa por falta de recursos. A gente tem só uma página no Facebook, hoje com pouco mais de 18 mil curtidas, sem nunca ter investido dinheiro para promovê-la. O pessoal dos veículos de imprensa é que liga pedindo a programação.

Como você enxerga o papel das pequenas casas de show no desenvolvimento da cena independente?

A gente dá muita oportunidade a pessoas que estão começando, em várias áreas. Como não conseguimos pagar bem, é sempre uma troca. Por exemplo: o Caio, nosso técnico de som, se formou no Instituto de Áudio e Vídeo e não tinha experiência nenhuma com shows ao vivo. E aqui, em um ano, fez mais de 250 shows. Hoje é técnico de som do Rafael Castro e viaja com ele. Quando o Jonnata Doll, um artista incrível, chegou a São Paulo, ele não tinha trabalho e o chamamos para ser nosso host. Ao Eristal eu ensinei como mexer na mesa de som, e ele virou nosso técnico. Hoje é iluminador do Rafael Castro, que também está produzindo um disco dele. Então é um espaço em que as pessoas aprendem e, em seguida, continuam sua carreira em outro lugar, onde podem ganhar mais. Isso é muito legal, mas, por outro lado, estamos sempre reestruturando a equipe.

E isso obviamente acontece com artistas e festas também: o pessoal da ¡Venga-Venga! e da Free Beats, o grupo Grand Bazaar, que fazia a festa Barrados no Balkan com a gente... Começaram todos aqui. Aí chegou uma hora em que eles não cabiam mais no Puxadinho. Hoje eles enchem casas muito maiores. É incrível receber de volta artistas que estão em outro estágio e que tocam aqui para apoiar o movimento. Já fizemos show da Juçara Marçal, do Maurício Pereira, do Arrigo Barnabé e de vários outros nomes. Isso é apoiar a cena de onde você veio. Para o artista que está começando, é muito importante tocar em uma casa em que seu ídolo tocou. A cena alimenta a própria cena. Há bandas de fora que inclusive investem para vir para cá, porque acham importante tocar no circuito independente de São Paulo, que tem uma cena que está sendo vista pelo Brasil inteiro.

Apesar de, nos últimos anos, ter ocorrido uma descentralização do eixo Rio-São Paulo...

Sim, temos visto muita coisa surgindo em Goiás, no Ceará, em Pernambuco e outros estados. Ouço falar de várias casinhas independentes aparecendo. E, quanto mais espaços, mais música. Se não houver espaço, a galera jovem que quer montar banda acaba fazendo só cover. A música se molda aos espaços que ela tem para se apresentar.

Você tem ou pensa em criar um acervo com toda essa produção que passa pela casa?

Ainda não tenho como gravar todos os shows que acontecem aqui, armazenar os arquivos e editar o material. Seria maravilhoso ter esses registros, poder fazer uma edição e dar o produto final aos próprios artistas – ou, ainda, divulgá-lo na página do Puxadinho. Tem muita coisa sensacional que não foi registrada, é um material que se perdeu. Mas quanto custa toda essa estrutura, por menor que seja?

Como é a gestão financeira da casa? Você enfrenta dificuldades para sustentar o projeto?

Sim, passo por várias dificuldades. O Puxadinho já quebrou três vezes. Todo fim de ano, eu estou endividado. Já vendi terreno, já morei no camarim por não ter dinheiro para o aluguel. A gente faz todas as reformas por conta própria. Só para abrir a casa num dia, já há um custo fixo muito alto. Em muitas noites, eu pago para trabalhar.

A gente realizou, até onde eu contei, 715 shows em dois anos e nove meses. Só no ano passado, foram 340 shows autorais – e nessa conta nem entram os projetos de releitura, mesmo que feitos por bandas autorais – e 282 bandas diferentes. Só que isso não reflete financeiramente. Se eu abrisse espaço só para bandas que já têm público garantido, estaria deixando de fora toda essa produção criativa incrível que existe por aí. Por outro lado, é difícil fazer uma curadoria honesta só pelo som, porque algumas bandas não têm divulgação estruturada e, então, chegam aqui e reúnem cinco, dez pessoas. Isso não paga nem a porcentagem da banda nem o custo da casa, e eu acabo tendo de bancar do meu bolso para que a banda toque aqui. Por isso, hoje eu faço bilheteria escalonada: quanto mais gente há na casa, mais eu aumento a porcentagem do artista.

Nesse contexto, qual é a relação com a gestão pública? Vocês conseguem se beneficiar de editais, isenção de impostos etc.?

Não ajuda muito. A gente se inscreveu no Território das Artes [edital do Programa de Ação Cultural (ProAC)], mas, das casas de música que eu conheço daqui, nenhuma entrou.

Para piorar, no começo do ano ganhei uma multa enorme do Programa de Silêncio Urbano da Prefeitura de São Paulo [Psiu], que eu não tenho como pagar. O Puxadinho só não conta com isolamento acústico porque não tenho dinheiro para fazer a reforma. E barulho é um problema mesmo, eu sei. Mas por que o Estado primeiro não oferece um técnico para vir aqui, identificar o problema, ver onde está o vazamento de som e me ajudar a fazer isso, me dando pelo menos o projeto e um prazo para sanar o problema? A forma com que eles fazem isso é muito agressiva: a polícia chega, manda todo mundo embora da casa e aplica a multa direto.

E os impostos são pesados. A isenção do Imposto Predial Territorial Urbano [IPTU], por exemplo, não faz grande diferença para mim. A taxa do Escritório Central de Arrecadação e Distribuição [Ecad], eu também pago muito contrariado. Não que eu não ache importante pagar por direitos autorais, mas acho a política deles errada. Não acho que o dinheiro das bandas que tocam aqui deva ir só para as bandas que mais vendem.

Mas eu sempre tento encontrar pequenas soluções com vistas à rentabilidade. Recentemente, coloquei uma jukebox aqui no Puxadinho e vi que o sistema da máquina é simples. Então agora eu quero construir uma jukebox de música autoral independente e criar meu próprio sistema de pagamento de direito autoral aos artistas.

Você percebe se essa situação é comum a todo o mercado da música?

Os segmentos da música que estão bem são os que conseguem ampla divulgação por meio de jabá, de favorecimentos, da grande mídia e tal. O nosso não está. Tem coisa de muita qualidade – e que ninguém conhece – acontecendo na nossa cena. Se esse pessoal tivesse a oportunidade que poucos têm de cantar três músicas em um grande canal de TV, com certeza sairia dali com um nicho, podendo excursionar pelo Brasil com público garantido.

Sou de uma parte do país que era muito influenciada por rádio e TV – meios que até hoje não são muito democráticos. Sou filho de caminhoneiro, cresci em Uberlândia e acompanhava Só pra Contrariar, Leandro & Leonardo... Até certa fase da vida, eu achava que era só isso que existia. Tivemos um evento aqui no Puxadinho, Somos Rádio, contra o desmonte da rádio Cultura AM, que é um absurdo. As rádios hoje tocam 40 artistas por mês – quando deveriam tocar muito mais.

E como é a relação com as outras casas que atuam na mesma cena e estão na mesma condição?

Eu me identifico muito com esse pessoal, da Serralheria, da Casa do Mancha e de outros espaços. Há muita troca entre a gente – desde copiar o modelo que um usa para montar o rider técnico até emprestar equipamento quando dá algum problema ou avisar quando tem promoção de cerveja em algum lugar. A gente se ajuda bastante, é um clima de parceria, e não de competição.

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