por Alexandre Ribeiro e Nayra Lays

A complexidade de fotografar o agora intensifica o vestígio de algo que nos atravessa. E, na noite de quarta-feira 19 de julho, mais precisamente às 20h43, fui atravessado por palavras. Decidi partilhá-las.

Letícia Brito, poeta carioca, dividia uma roda de conversa com a jornalista Jessica Balbino e com a escritora Dona Jacira. Até que foi levantada a seguinte questão:

– Como é para você ser uma autora da literatura marginal?

E a resposta foi genial. É sobre isso que a gente vai falar.

Eban, símbolo de amor, confiança e segurança para a população Akan, do leste da África

Hoje eu vim vingar todos os poemas que a trepidação do ônibus me tirou. Não dá para fazer nada em um ônibus que treme. Duas horas dentro de um transporte público, ou de vários, para chegar ao trabalho. Até o show, sepá. Até o museu, se a escola levar de excursão. E ter as quatro horas de ida e volta como os poucos momentos em que se pode pensar sobre a vida.

Eu demorei a entender que tudo isso era e é uma violência. E, como toda violência, viola a saúde física, sim, mas especialmente a emocional de qualquer pessoa.

Para mim parecia luxo cogitar uma lógica em que violências assim não fossem mais naturais. Aliás, qualquer coisa que ultrapasse a necessidade de sobreviver, para muitos como eu, parece luxo. Foi por ter a oportunidade de trilhar outros caminhos e de conversar com muitas pessoas que entendi que ter direito ao bem-estar é exatamente o que o nome já diz: um direito.

Esse pensamento veio ao encontro de algo que a gente sempre sentiu, mas não conseguiu explicar. A resposta da Letícia, resumidamente, levantou a questão: tudo que produzimos nas nossas quebradas não deve ser visto como o centro, um que representa mais a realidade que vivemos?

As quebradas são centros de formação humana. A gente tem calor, a gente tem cultura, a gente tem propriedade intelectual. Só nos falta a oportunidade de algo que, no mínimo, faça a gente olhar para o lado e ver ambientes próximos da gente com o mesmo brilho nos olhos com que olhamos para o que está distante.

Na quebrada deveria ter o cinema mais foda. Na quebrada a gente poderia ter economia criativa. Na quebrada a gente deveria se expressar e ser ouvido por isso.

A quebrada não só deveria. Hoje a quebrada paga conta, e coloca alimento em muitas casas. Quer conhecer o cinema mais foda? Tem o Cinema na Laje da Cooperifa. Quer conhecer feira de economia criativa? Tem a Nóis por Nóis, no Grajaú. Um espaço pra aprender que sua cidade tem uma juventude foda? Cola na Batalha da Central de Diadema. E outras mil possibilidades.

A leveza do que emanamos por aprender hoje nos dá uma orgulhosa certeza: em qualquer lugar nós somos o centro.

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