Por André Bernardo

Santiago de Iguape, no município de Cachoeira, na Bahia, é uma das 2.890 comunidades quilombolas existentes no Brasil, segundo dados da Fundação Cultural Palmares (FCP), órgão vinculado ao Ministério da Cultura (MinC). Nessa pacata vila de pescadores e agricultores, fundada em 1561, funciona há três anos a sede da Escola Livre de Cinema Quilombola Zumbi dos Palmares. Desde sua criação, em 2014, a instituição já investiu na formação audiovisual de jovens quilombolas, produziu filmes e documentários de temática negra e cuidou da programação do Cineclube Zumbi dos Palmares.

Moradores da vila de Santiago de Iguape, na Bahia, durante aula da Escola Livre de Cinema Quilombola Zumbi dos Palmares
Moradores da vila de Santiago de Iguape, na Bahia, durante aula da Escola Livre de Cinema Quilombola Zumbi dos Palmares

 

“A ideia que deu origem ao projeto surgiu por considerarmos que os remanescentes das comunidades quilombolas possuem trajetória própria, peculiaridades territoriais e carga ancestral cultural muito forte”, afirma a cineasta e produtora Elen Linth, que coordena a Rede Eparrêi, ONG voltada para o desenvolvimento de comunidades quilombolas. “Dessa maneira, o cinema pode se transformar em instrumento que tanto contribui para a preservação da cultura quilombola quanto ajuda a desconstruir preconceitos e estereótipos.”

Com o apoio do programa Rumos Itaú Cultural, a Rede Eparrêi pretende ampliar a Escola Livre de Cinema Quilombola Zumbi dos Palmares. A proposta é expandir sua atuação para outros segmentos, realizar novas produções e viabilizar os projetos já iniciados em seus três primeiros anos de existência. Para isso, a organização planeja desenvolver cursos de linguagem cinematográfica voltados para adolescentes, criar oficinas de cinema para professores de escolas públicas e líderes comunitários e convidar jovens atores para trabalhar no Coletivo de Cinema Quilombola.

foto: Elen Linth
foto: Elen Linth

 

“O objetivo é introduzir o audiovisual no ensino médio e capacitar os educadores para trabalhar temas transversais a partir de filmes que valorizem a cultura negra”, explica Elen. “A parte mais difícil é encontrar produções que sirvam de referência, tragam a temática negra ou tenham sido realizadas por negros. Apesar de termos tido um crescimento, a representatividade ainda é pouca se comparada às produções predominantes”, lamenta a cineasta, que planeja criar, ainda, uma campanha contra o racismo na infância e promover o I Festival de Cinema Quilombola.

Projeto deve ficar pronto em dezembro de 2017

No momento, a Rede Eparrêi se dedica a selecionar os orientadores da escola de cinema. “A escolha deve partir do princípio de identificação com a causa”, avisa Elen. Além disso, a ONG monta um organograma de aulas e módulos, bem como escolhe as escolas que receberão as oficinas. “Estamos criando a identidade visual para a campanha de enfrentamento ao racismo e para o Festival de Cinema Quilombola. Já realizamos oficinas e reuniões com crianças e adolescentes da região para conhecer melhor nosso público-alvo e colocar em prática nosso plano pedagógico”, acrescenta a cineasta.

O próximo passo é divulgar o projeto nas 11 comunidades quilombolas que existem no município de Cachoeira e despertar o interesse de crianças e adolescentes para que se matriculem na escola de cinema. Quanto ao I Festival de Cinema Quilombola, Elen pretende divulgar, em breve, o endereço do site no qual os interessados em integrar as oficinas e as mesas-redondas poderão se inscrever. “A previsão é que as atividades da escola sejam concluídas em dezembro de 2017 e que o festival seja realizado em janeiro de 2018”, adianta.

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