Por Patrícia Colombo

No documentário Quarto Camarim, realizado com o apoio do programa Rumos Itaú Cultural, a cineasta baiana Camele Queiroz aborda a história de um tio seu que, nascido Roniel e há décadas afastado dos parentes, hoje se identifica como Luma Kalil.

Luma se mudou da Bahia para São Paulo quando Camele tinha apenas 6 anos de idade. E as duas não se viram nem se falaram por 27 anos. “Comecei a pensar de que maneira eu poderia me reaproximar dela”, conta a diretora. “Enxerguei, num possível reencontro, toda uma potência capaz de compor um filme.”

A cabeleireira e performer Luma Kalil | foto: divulgação
A cabeleireira e performer Luma Kalil | foto: divulgação

 

Camele sabia pouco sobre a tia. Quando perguntava algo sobre ela ao pai ou a outros parentes próximos, recebia o que caracteriza como “histórias vagas ou refratárias”. No entanto, tinha consciência de que o fato de Luma ser travesti havia motivado de alguma forma a separação. Após um primeiro contato, realizado e registrado pelo telefone, a cineasta viajou para São Paulo, onde Luma trabalha como cabeleireira e performer. Bastante receptiva, a tia dividiu seus dias com a sobrinha e contou sua história para ela.

“Luma demonstra um forte senso de família, embora viva afastada de todos os parentes”, comenta Camele. “Especialmente em relação à sua mãe, minha avó Aurora, que ela não vê há vários anos mas situa como uma das pessoas mais importantes da sua vida. Percebi que as relações familiares dela, talvez por causa da sua condição e da sua história de vida, se dão em níveis afetivos muito diferentes, com noções muito próprias de ausência e presença, memória e história.”

Rumos_still do filme Quarto Camarim_projeto Luma_01

Camele e Luma conversam em cenas do documentário | fotos: divulgação
Camele e Luma conversam em cenas do documentário | fotos: divulgação

 

 

Inicialmente, o pai de Camele resistiu a ver as imagens feitas pela filha durante a viagem, mas, como ele também faz parte do material, acabou assistindo ao primeiro corte do filme. “Ele saiu da sessão visivelmente emocionado”, diz ela. “Demonstrou estar feliz por eu estar fazendo aquilo.”

“É um filme que mostra um reencontro entre duas sensibilidades, de diferentes gerações e com diferentes histórias de vida”, resume Camele – que divide a direção da obra com Fabricio Ramos. “O fato de Luma ser travesti traz à tona dimensões sociais e políticas complexas nos campos das questões de gênero e sexualidade, das diferenças de classe, dos afetos familiares e do preconceito violento. Temos consciência de que a força dramática do filme reside no fato de Luma ser travesti e ser minha tia, mas essa força vem também da expressão pessoal de minhas inquietações e das escolhas formais às quais recorro para expressá-las, nublando as fronteiras entre a vida e a arte, entre o documentário e a ficção, entre o fato e a memória.”

Camele e Fabricio finalizaram Quarto Camarim em maio de 2017. Saiba mais no site oficial do filme.

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