Fundada durante o Estado Novo, por Getúlio Vargas, a Companhia Hidrelétrica do São Francisco (Chesf) construiu ao longo dos anos mais de dez usinas para o fornecimento de energia elétrica ao Nordeste do país. Desde então, diversos centros urbanos, rurais e indígenas foram inundados pelo represamento das águas do Rio São Francisco.

Exemplo disso é a região afetada pela Usina Hidrelétrica Luiz Gonzaga: também conhecida como Lago de Itaparica, a área inundada se estende por 150 quilômetros e cobre uma superfície de 83.400 hectares dos estados da Bahia e de Pernambuco, causando impacto em cerca de 11 mil famílias, realocadas em novas cidades – que herdaram os mesmos nomes das antigas: Petrolândia e Itacuruba, em Pernambuco; Rodelas, Barra do Tarrachil e Glória Velha, na Bahia. Sem informações nem políticas públicas que dessem conta de preservar o patrimônio contido no fundo das águas do São Francisco, a história desses locais submergiu com o Lago de Itaparica.

Projeto pretende preservar o patrimônio contido no fundo das águas do São Francisco - foto: Chico RastaEm uma viagem a trabalho, Luiz Netto conheceu a história das cidades submersas - foto: Luiz NettoÁrea inundada se estende por 150 quilômetros - foto: Chico RastaLuiz Netto fez para mapear tudo o que encontrava - foto: Luiz NettoForam encontrados muitos alicerces de residências - foto: Luiz Netto

Em 2012, Luiz Netto, engenheiro, ativista e fotógrafo do Recife, viajou para Petrolândia para trabalhar e entrou em contato pela primeira vez com a situação. “Conheci o pessoal local, que me contou da Igreja do Sagrado Coração de Jesus. Ela fica parcialmente submersa e é um ponto turístico da cidade. Comecei a fazer mergulhos ao redor da igreja e vi que tinha muita coisa e que não havia nenhuma política de preservação daquilo – que já estava em processo de deterioração”, lembra Netto. “Então surgiu a ideia de fazer um levantamento para saber onde tinha ruínas em bom estado e qual a situação de cada uma. Passamos a visitar várias cidades e a fazer mergulhos para mapear o que encontrávamos lá embaixo.”

Como havia sido permitido aos moradores levar telhas e tijolos de suas casas, foi comum encontrar debaixo d’água apenas alicerces de residências. Entretanto, o fotógrafo constatou que o patrimônio ia muito além da igreja nos mais de dez centros urbanos deslocados no Lago de Itaparica. Em suas incursões por Petrolândia, Glória Velha e Terra Indígena Truká, entre outros povoados menores, tudo o que encontrou foi marcado no GPS, além de as coordenadas geográficas terem sido passadas para o Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (Iphan), para universidades e prefeituras.

“Em Petrolândia já vimos um grande retorno no processo, porque esse mapeamento ajudou muito algumas pessoas que estão vivendo do turismo na cidade, ao expandir o leque de opções delas com novos pontos de mergulho”, conta Netto, que acredita que mapear as antigas cidades pode ser uma saída para a economia dos novos locais, em sua maioria muito precária.

O projeto

Contemplada pelo Rumos 2015-2016, a segunda etapa do projeto São Francisco Submerso consistiu em explorar e mapear as ruínas das cidades de Rodelas, na Bahia, e Itacuruba, em Pernambuco – trabalho realizado no segundo semestre de 2016. “Encontramos 140 ruínas em Rodelas, entre elas um cemitério com as tumbas bem conservadas”, celebra Netto. A equipe de trabalho consiste normalmente em cinco pessoas: o fotógrafo, um assistente de fotografia, um mergulhador de apoio, um residente local como guia e um barqueiro, sendo Chico Rasta o parceiro de sondagem inicial e Vinícius França o mergulhador de apoio.

Segundo o fotógrafo, o processo de exploração das ruínas começou com depoimentos de moradores sobre a antiga cidade quando não havia construções que dessem indícios visuais da localidade, como a Igreja do Sagrado Coração, em Petrolândia. “Em Itacuruba, pegamos dois ou três depoimentos mais consistentes de moradores para ter ideia de localização, mas a gente demorou quatro dias até encontrar o núcleo da cidade. Nos arredores, vamos achando elementos rurais, cercas, postes isolados, currais de gado. Havíamos previsto um processo de sete dias para mapear e fotografar Itacuruba”, explica.

Com a segunda fase do projeto concluída, agora Netto avalia qual rumo irá tomar entre três opções possíveis: continuar nas áreas inexploradas do Lago de Itaparica, seguir para explorar as ruínas do Xingó ou mapear as construções de Sobradinho, que hoje conta com apenas 9% de volume de água, tendo a maioria das ruínas à vista.

“O grande objetivo do trabalho é chamar a atenção para esse patrimônio que está lá embaixo. As cidades passaram um trator em cima de tudo; é um acumulado de entulho, mas, se estivesse inteiro, poderia ser um ponto de mergulho internacional”, diz Netto. “Mesmo com poucas casas inteiras, já é um local extremamente interessante. Eu vivo recebendo e-mail de gente interessada em informações sobre estrutura pra visitar e mergulhar. Por exemplo, Itacuruba, que é uma cidade muito pequena, poderia ter essa saída de incremento do turismo. Bato muito nessa tecla, há pouca iniciativa pública, e nesse aspecto o apoio do Itaú Cultural é fundamental.”

O projeto conta ainda com uma exposição itinerante de fotografias do São Francisco Submerso, já exibida na sede do Iphan, em Recife, no Centro Cultural Belas Artes, em São Paulo, e no Centro Cultural dos Correios em Salvador, entre outras instituições. Venceu o Prêmio Arte e Patrimônio do Iphan em 2013 e conquistou, em 2014, o segundo lugar na categoria Patrimônio Material do Prêmio Brasil Criativo, do Ministério da Cultura. Um documentário e uma publicação também estão nos planos do projeto.

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