Por Julia Alves

Construir uma imprensa que chegasse no chão da fábrica. Esse era o objetivo da editora Oboré, que, entre 1970 e 1980, reuniu um time – hoje considerado de peso, mas, na época, jovens em jornada dupla trabalhando voluntariamente – de ilustradores para colaborar com as publicações dos principais sindicatos do país. Formado por nomes como Laerte, Glauco, Henfil, Chico Caruso, Fortuna, Jaime Leão e Jaime Prades, esse grupo de artistas acabou assinando cerca de 4.500 charges, tirinhas, caricaturas e vinhetas de divulgação de eventos e movimentos – trabalhos que estarão disponíveis para consulta pública graças ao projeto Traços da Resistência, que conta com o apoio do programa Rumos Itaú Cultural.

Depois de passar por processos de categorização, higienização e digitalização comandados pelo Centro de Documentação e Memória (Cedem) da Universidade Estadual Paulista "Júlio de Mesquita Filho" (Unesp) – responsável pelo acervo da editora desde a década de 2000 –, esse vasto material iconográfico poderá ser acessado em um site, que deve ser lançado em janeiro de 2018.

Trata-se do registro de um momento fundamental em que a classe trabalhadora, em meio à ditadura civil-militar brasileira, reivindicava uma realidade política, econômica e social mais justa.

Todo o esforço da editora era voltado para a construção de uma imprensa sindical alternativa, forte, atuante e democrática, que escutasse e falasse com a classe operária. Daí a importância da ilustração como ferramenta de comunicação: “Era uma maneira nova de dizer para o operário que ele era oprimido”, destaca Solange de Souza, historiadora do Cedem.

É da cartunista Laerte, por exemplo, a vinheta de divulgação da Noite do Barulhaço, data histórica para o movimento das Diretas Já, em abril de 1984. A mobilização visava pressionar a aprovação da Emenda Dante de Oliveira, que pedia o restabelecimento de eleições diretas para presidente da República. Apesar da derrota no Congresso Nacional, a emenda teve grande apoio popular e foi essencial para unir diferentes vozes na luta pela volta da democracia no país.

Ilustração de 1984, assinada pela cartunista Laerte | imagem: Fundo Oboré Editora/CEDEM
Ilustração de 1984, assinada pela cartunista Laerte | imagem: Fundo Oboré Editora/CEDEM

Nessa época, Laerte dividia seu tempo entre o trabalho fixo na Gazeta Mercantil e as ilustrações que assinava para periódicos publicados pela Oboré, ligados a importantes sindicatos brasileiros, como o dos metalúrgicos do ABC.

“A discussão sobre preservação de memória é mais do que incipiente no nosso país, ela é indigente”, afirma Solange. “E a preservação da memória é uma política pública que não só o Estado, mas também a sociedade civil, tem de construir.”

Relembrar, afinal, também é resistir.