por Heloísa Iaconis

Não é que o Cariri tenha um só coração: repleto de cultura, esse pedaço do Ceará carrega, em sua essência, um tanto de gente e de histórias. Um sem-número de corações, portanto. Há uma classe, contudo, que assume o cerne da região: os mestres, aqueles que fundem memória e espírito. E são justamente eles, artífices das tradições do povo, que formam a matéria de Poeira, peça do Grupo Ninho de Teatro.

A iniciativa comemora os dez anos do conjunto – e, além da apresentação, engloba duas frentes do projeto: a Troca de Saberes (encontros dos bambas cearenses com figuras experientes de demais estados) e a Troca de Ideias (conversas entre o elenco e o público). Esse tripé se arma com o auxílio do Rumos Itaú Cultural, programa que dá amparo para que a trupe aporte em Brasília, Belém, Porto Alegre e Campinas. Em São Paulo, aliás, as apresentações ocorrem nos dias 13 e 14 de dezembro, às 20h, no próprio instituto. Para saber mais sobre as sessões, clique aqui.

O abrigo no conhecimento
 

Simplicidade aliada a uma feição humilde e generosa compõe a base de Poeira, montagem que reproduz características de sábios como Dona Maria do Horto, Zulene Galdino, Raimundo Aniceto, João Aves de Jesus, Dona Edite, Naninha, Soledade, Alzira e Izabel. “A presença desses mestres é muito amorosa: todos foram acolhedores e nos receberam em seus terrenos, em sua vida”, conta Edceu Barboza, um dos fundadores do Ninho. “Passamos a conviver com eles em suas casas, recolhemos material cênico (pérolas, chamamos de pérolas), construímos a representação a partir de suas falas. No espetáculo, procuramos poetizar essa grandiosidade.”

A incursão em vivências ancestrais teve início em 2012, quando a equipe notou que era preciso se aprofundar nesse tema para banir o risco de clichês e caricaturas que, de algum modo, arrefecem a potência do universo popular. Em 2014, desenvolveu-se uma pesquisa acerca dos guardadores do passado, durante cinco meses, no Porto Iracema das Artes – Escola de Formação e Criação do Ceará. A turma recebeu orientação do Lume Teatro [ligado à Universidade Estadual de Campinas (Unicamp)], por meio de Jesser de Souza e Carlos Simioni, da oficina de dramaturgia de cena, com o diretor peruano Miguel Rubio Zapata, fora a preparação de voz oferecida por Ernani Maletta.

Tamanho arcabouço teórico, simultâneo ao contato afetuoso com os personagens, possibilitou que, em julho de 2016, a peça estreasse enfim. Uma travessia por entre elementos fundantes da herança cultural nordestina, brasileira. “Abordamos o lugar do fazer e do saber que os idosos possuem, o espaço do silêncio que, hoje, não conseguimos mais penetrar devido a tanta informação”, explica Edceu. Quem veio antes do antes, bem antes do tempo tecnológico de agora, convida os mais novos a mergulhar em um tempo suspendido, em um exercício de reconhecimento da sociedade canarinha, construída por gerações várias.

Antes mesmo da primeira plateia, há dois anos, porém, o grupo já vislumbrava o edital Rumos: na edição 2015-2016, o conjunto fez sua inscrição – todavia, não obtive êxito na convocatória. Mas a resposta negativa não acarretou desmotivação: a obra ergueu-se, ganhou corpo e aplausos. Até que, na edição 2017-2018 do programa de fomento, os artistas decidiram tentar novamente. E eis que a aprovação chegou para selar o aniversário de uma década do coletivo, marca que incitou o desejo de levar a encenação para outros locais. “Ficamos felizes por ter sido selecionados em uma peneira tão criteriosa. Conseguimos uma oportunidade de relevar, para o Brasil, a riqueza do Cariri”, diz Edceu.

“Esse percurso, aliás, de cidade em cidade, será registrado em um minidocumentário, uma espécie de salvaguarda desses encontros em Brasília, Belém, Porto Alegre, Campinas e São Paulo”, comenta o fundador do Ninho. O ator que faz questão de frisar o seu entusiasmo de alcançar a chancela de um decênio: “Sem romantismo, costumo dizer que fazer teatro de grupo, neste país, é uma forma de resistência, na contramão de uma ordem geral alinhada ao mercado. No nosso caso, estamos no interior do Nordeste, onde as políticas culturais são ainda mais fragilizadas”, afirma. Por esses motivos, o momento se abre como uma esperança – uma esperança de continuar a construção de uma morada sensível, comum, fincada nas raízes que tanto conhecem e ensinam. Os mestres.

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