por Natália Garcia

Os fones estão fixos no ouvido. O volume, alto. O passo vai ficando menos apressado à medida que o caminho se desvia de uma grande avenida para adentrar no miolo de um bairro. Árvores enormes, que estão vivas desde muito antes de eu existir, amenizam o clima quente. Uma brisa gela minhas bochechas.

A rua é de paralelepípedos e vejo muita água passando por cima deles, beirando a calçada, em caudaloso fluxo. Noto que a água está sendo bombeada do fundo da terra por um cano. Gosto de lembrar que aquilo é um rio. Começo a refletir sobre a lógica da urbanização no Brasil. Seguem-se instantes em que me ausento de onde estou e me transporto para a planície ilusória dos pensamentos.

Até que o vejo, quando já está bem próximo de mim. Ele salta em círculos em torno do mesmo eixo, deslocando-se lentamente para a frente, na minha direção, a cada pulo. Impressionante a coordenação motora que possibilita a precisão desses movimentos. Percebo que ele está cantando e tiro os fones do ouvido para poder escutar. Sua presença me toca dos pés à cabeça. Um grupo de umas oito crianças segue aquele garoto impregnado de uma alegria improibível. Batem palmas e cantam uma versão de "Parabéns a Você" que troca os versos "muitas felicidades / muitos anos de vida" por "o presente que é bom / esqueci de trazer".

Eu estava caminhando rumo ao mercado para fazer compras, mas esse encontro atravessa as minhas intenções. Aquieta meus devaneios mentais sobre planejamento urbano. Silencia qualquer certeza que eu possa ter sobre a vida nesta noite de sábado.

Assisto àquela procissão de crianças cantando passar ao meu lado, e uma das garotas se comove com a minha comoção. Elas passam por mim deixando um rastro de gargalhada. Volto a seguir o curso d'água que corre sobre os paralelepípedos, apenas contemplando-o, sem mais nenhum julgamento. Passo por um café charmoso numa esquina. Um lugar que sempre me atraiu, mas no qual sempre estive apressada demais para parar.

Entro e escolho uma mesa perto do palco, onde os músicos afinam violão e voz. Peço uma sopa de abóbora com gengibre. E, enquanto aguardo meu prato de comida, começo a batucar este texto que ainda não sei aonde me levará, preocupando-me apenas com o ritmo desta historiografia efêmera da realidade.

O som começa. Eles são bons. Um caminhão de lixo encobre quase completamente o concerto durante alguns instantes. Vejo-o por cima do muro. Posso ler "Cidade linda" em sua lateral, ao lado de um coração vermelho. Todos sentimos alívio nos ouvidos e nos narizes quando o caminhão se afasta.

A sopa chega, faço um minuto de silêncio antes de saboreá-la. A dona do café vem até mim e se oferece para acender a vela da minha mesa.

E então resolvo me render e simplesmente agradecer à realidade como ela é. Com suas imperfeições e suas imprevisibilidades incontroláveis. Agradeço pelos ruídos que interrompem a harmonia da música, pelas surpresas que nos desarmam, por ter podido, nesta noite, presenciar a mágica que faz a vida acontecer dentro e fora de mim.

Esse exercício de sustentar o corpo presente no concreto da rua foi o tema da nossa conversa do último Brechas Urbanas, no Itaú Cultural. E posso sentir como ter participado daquela conversa me faz estar mais viva nesta noite, enquanto ouço esta música numa mesa iluminada pelo amarelo tremulante de uma vela.

Vou agora aproveitar que os músicos fizeram uma pausa, pagar a conta e seguir para o mercado, que ainda deve estar aberto. Fecharei este computador, me levantarei e sairei caminhando, consciente de que, a qualquer momento, qualquer coisa pode atravessar novamente as minhas intenções. E eu espero conseguir sustentar a presença para poder notar essas pequenas brechas urbanas do meu programado cotidiano.  

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