Classificação indicativa: 12 anos

De 7 de outubro a 2 de novembro, o Festival Arte como Respiro apresenta sua terceira edição, composta por artistas selecionados pelos editais de emergência de música, artes cênicas, literatura, poesia surda e, claro, artes visuais. O evento segue sendo totalmente on-line aqui no site do Itaú Cultural (IC).

Com o tema Videoarte e Experimentação, esta quarta e última mostra de vídeos e performances exibe trabalhos que buscam, em diferentes mídias e linguagens, abrir novos campos de percepção em tempos de reclusão. Como apreender ou dar sentido a esse novo tempo que, subitamente, nos foi imposto? Do que é composto este espaço/tempo alargado e nostálgico? Campo de experimentação e ressignificações, mas não só. Tempo também de ócio, exercício de paciência, reflexão e criação.

As obras ficam disponíveis aqui no site do Itaú Cultural de 7 de outubro (a partir das 18h) a 7 de novembro. Confira abaixo a programação – cada vídeo tem link próprio.

O irreverente Goma, de Marina Lima e Viniele Lopes, brinca com cores e sabores para revelar todas as subjetividades de uma atividade corriqueira.*

Goma
(Marina Lima e Viniele Lopes, 2020, 1 minuto)

Goma é um short film sobre a relação entre ações habituais e formas de lidar com a vida. Esse tipo de ressignificação é fruto do ócio, que nos permite repensar as coisas de outras maneiras, mostrando que ficar em casa não tem de ser necessariamente ruim se você conseguir usar esse tempo para uma autorreflexão.

Marina Lima é brasiliense, mas atualmente reside no Rio de Janeiro. Produtora audiovisual se aventurando nas áreas de direção e direção de fotografia. Tem o intuito de sempre produzir uma autorreflexão em seus trabalhos, sejam eles comerciais ou autorais. Viniele Lopes, de 21 anos, é atriz e estudante.

[livre para todos os públicos]

Veja aqui.

No âmbito das experimentações sensoriais, o vídeo Toque, de Pedro Muniz, apresenta uma dança do intangível carregada de emoções em tempos de isolamento social.*

Toque
(Pedro Muniz, 2020, 3 minutos)

Toque é um clipe experimental feito em dois dias, com a colaboração de amigos músicos e artistas. É impossível traduzir em palavras a ausência do tangível neste cenário em que estamos vivendo. O projeto transpõe o sentimento de angústia da falta. Esse desejo pode ser visto na composição da música e no transpasse das mãos durante o vídeo. Elas se tocam e se comunicam, mas existe uma “transparência”, uma “sobreposição”, que faz alusão ao desejo de algo que não pode ser concretizado em valorização da saúde coletiva.

Pedro Muniz tem 28 anos, mora em Recife (PE) e atua como designer gráfico e artista visual freelance. Também compõe e produz música por paixão, tentando, sempre que possível, incorporar suas produções ao seu trabalho como artista visual.

[livre para todos os públicos]

Veja aqui.

Falando sobre o que é volátil, mas que está ao alcance dos olhos, Tomás Vega traz em seu Suspensão um olhar sensível para captar frestas de luz e sombra em um fluxo infinito.*

Suspensão
(Tomás Vega, 2020, 2 minutos)

A janela do nosso quarto dava para oeste. Meus irmãos dormiam em cima, num beliche de alvenaria, e eu embaixo.  De manhã, quando não tinha  escola, era lindo demais de ver os raios de sol entrando em direção a minha cama. Eles se recortavam por uma mexeriqueira que vivia doente e pela nossa janela com grade. Eram um ou dois raios que permitiam ver a poeira em suspensão. Eu levantava e ficava brincando com aquelas misteriosas partículas que só se viam quando atravessam o raio. Assoprava, agitava as partículas. Colocava a mão, passava rápido, interrompia a projeção. O inédito céu de São Paulo destes dias diminui a minha saudade do céu de Campinas. Agora, no meu ateliê, brinquei de novo com os raios. Resgatei a lembrança de casa. Uma de minhas primeiras experiências estéticas.

Tomás Vega atua como artista e professor nas interseções entre arte, design, filosofia e poesia. Doutor em educação, ele promove uma proposta de pedagogia da invenção. Como artista, explora a perspectiva poética para os mesmos temas utilizando técnicas diversas, da fotografia a esculturas cinéticas.

[livre para todos os públicos]

Veja aqui.

A reinvenção do cotidiano e do fazer artístico também circunda a temática dos vídeos, como demonstra Ilana Paterman em Olhe-se, híbrido de pintura em aquarela e animação em stop motion.*

Olhe-se
(Ilana Paterman Brasil, 2020, 1 minuto)

Animação de passos femininos do funk carioca. A artista entrou em contato com o universo de tutoriais caseiros no YouTube que ensinam variações do quadradinho, pela busca de novas expressões e habilidades corporais. Em tempos de isolamento, trabalhar pela internet tornou-se uma adaptação do processo de Ilana, que até então criava animações a partir de filmagens próprias. Ao olhar para si, a mulher pode sentir sua potência na arte, na dança e na pintura, e compartilhar o que sabe com outras mulheres, conectadas entre si pelo tambor ancestral do funk.

Ilana Paterman Brasil é artista formada pela Kunsthochschule für Medien (KHM Köln), na Alemanha, e designer pela Escola Superior de Desenho Industrial da Universidade Estadual do Rio de Janeiro (Esdi/Uerj). Seus trabalhos recentes estão focados em corpo, movimento e ritmo. Realiza um doutorado na Esdi sobre o tema.

[livre para todos os públicos]

Veja aqui.

Esta experimentação técnica também faz parte do trabalho Banho, de Marianne Donner, todo desenvolvido através de um software mais antigo chamado Flipnote. A artista recria um universo lúdico e nostálgico para refletir a introspecção do momento atual.*

Banho
(Marianne Donner, 2020, 2 minutos)

A obra foi realizada através de uma animação 2D pixelada feita no programa Flipnote, do Nintendo DS, durante o período de isolamento social. A temática do curta se desenvolve a partir de um processo de autopercepção da autora, que passa a pensar e a conviver mais consigo mesma. Nesse processo, sentimentos como a nostalgia surgem (o que levou à escolha da técnica usada, o Flipnote, que é um programa mais antigo e simples de animação). Tudo vem à tona em várias frases e memórias confusas, todas passadas no intervalo de um banho.

Marianne Donner é artista visual e audiovisual. Começou sua carreira recentemente de forma independente. Hoje, trabalha no Rio de Janeiro, principalmente com desenho, pintura e animação bidimensional.

[livre para todos os públicos]

Veja aqui.

Em A Fabriqueta, Diego de Los Campos, apresenta seu projeto “Desenhos a um Real” que, desde 2006, consiste em fazer desenhos em menos de 3 minutos para serem vendidos por um real.*

A Fabriqueta
(Diego de Los Campos, 2020, 3 minutos)

O trabalho se insere no projeto Desenhos de Um Real, que, desde 2006, consiste em fazer desenhos em menos de três minutos para ser vendidos por 1 real. Nesta série, que está completando mais de 21 mil produções, o valor da obra foi calculado por hora de trabalho, tendo como base o valor da mão de obra de um operário industrial. Com A Fabriqueta, uma linha de produção com diferentes máquinas foi montada para ter maior fluxo de oferta de desenhos. Esta produção se soma à feitura manual e, em conjuntos de 5 a 50 desenhos, misturando técnicas e anos, é oferecida nas mídias sociais e enviada pelo correio. Dessa forma, o contato direto com a obra, que antes se dava nas férias, em exposições e no ateliê, tenta se adaptar aos novos tempos de distanciamento físico.

Diego de Los Campos é formado pela Facultad de Bellas Artes, no Uruguai. Desde 1999, no Brasil, participa de exposições com trabalhos em vídeo, animação, desenho e arte sonora.

[livre para todos os públicos]

Veja aqui.

Em um outro tom, mais documental, a vídeo-performance CRU reproduz a batida entre dois carros dirigidos pela artista Paula Garcia e por uma dublê profissional.*

CRU
(Paula Garcia, Tandera Filmes e Trem Chic, 2020, 17 minutos)

A performance CRU/RAW consistiu na construção de uma batida frontal de dois carros dirigidos pela artista Paula Garcia, e uma dublê profissional, realizada no dia 17 de março de 2020 em um galpão em São Paulo (SP). Os 250 convidados foram avisados que não poderiam mais comparecer para assistir à performance no local, pois a Prefeitura de São Paulo, por meio do Decreto no 59.283, havia declarado situação de emergência no município, em razão da pandemia causada pela covid-19. Assim, a equipe técnica se preparou para uma transmissão ao vivo que pudesse ser vista pelo público de suas casas.

Paula Garcia é mestre em artes visuais pela Faculdade Santa Marcelina. Suas pesquisas e experiências artísticas enfocam performance e curadoria em performance.

[classificação indicativa: 12 anos]

Veja aqui.

Rotundo, obra-instalação de Felipe Lion Salles Souto, inova ao recriar de forma poética o voo de um pássaro usando imagem impressa, maquinário e filme em stop motion.*

Rotundo
(Felipe Lion, 2020, 2 minutos)

Em uma instalação, o artista imprimiu e recortou frames do voo de uma ave filmado pela janela de sua casa. Colocados em sequência em cima de uma superfície que gira em um disco, temos uma animação em stop motion, reproduzida pelo movimento da vitrola e dos frames do pássaro em sequência.

Felipe Lion é diretor de fotografia e, ocasionalmente, diretor de cena. Procura ir sempre ao encontro de um realismo natural enquanto destaca a beleza de seus assuntos. Sua intensidade criativa permitiu-lhe solidificar um lugar para si em uma indústria em constante evolução.

[livre para todos os públicos]

Veja aqui.

Tomando a liberdade do tempo para sentir, escutar e refletir, os vídeos Te Deixo (Valentino Cabanillas), Frente & Verso (Maria Christina), Imersos (Girlan Souza Tavares) e A Morte da Imagem (Raissa Dourado) trazem universos monocromáticos e atemporais.*

Te Deixo
(Valentino Cabanillas, 2020, 7 minutos)

Te Deixo é um trabalho em vídeo que nasce do esgotamento de estar confinado. O vídeo intenta retratar, a partir do ato de “ir embora”, a imagem que se encontra ao decidir deixar de lado o medo, e como esse processo requer uma força interna e consciente que pode, por um momento, distorcer a realidade. Os sons são recurso para interpretar os elementos que sempre tentam nos puxar de volta, as razões para não ir, as pressões para ficar.

Valentino Kmentt é artista visual, videomaker, fotógrafo, diretor e curador do Abstrata – Festival Internacional de Videomapping, em Fortaleza. Desenvolve videoarte, performance audiovisual ao vivo e instalações interativas com música eletrônica experimental. Criador do selo visual Misteria Mapping.

[livre para todos os públicos]

Veja aqui.

Frente & Verso
(Maria Christina, 2020, 5 minutos)

Frente & Verso é uma experiência sensorial nascida em noite escura de chuva. Sem perspectiva de fim de ciclo da pandemia, e no isolamento, a casa, o jardim, o quintal, as plantas e as paredes passam a ser cenário e inspiração. E, se a arte é um lugar de sociabilidade, como diz Nicolas Bourriaud, o processo criativo se instala no território do exílio e rompe os muros para chegar a destinatários sedentos de comunicação e troca.

Maria Christina é fotógrafa e artista visual. Começou a desenvolver trabalho autoral após fazer parte de uma oficina com Miguel Chikaoka. Desde então participa de exposições e eventos que têm a imagem como base de reflexão sobre o mundo e o entorno. Foi gerente-geral de artes visuais no extinto Instituto de Artes do Pará.

[livre para todos os públicos]

Veja aqui.

A Morte da Imagem
(Raissa Dourado, 2020, 10 minutos)

“Tenho pensado em como uma fotógrafa e realizadora audiovisual pode construir algo em torno da imagem sem ser repetitiva. Ressoar verdadeiramente, sem modos de fazer copiados. Falo de filtro numa visão ampla: voz off, som ofegante e imagens repetitivas do subir e descer de escadas sem mostrar o rosto, porque não importa. Esse ar sensorial do desconforto também de uma imagem lavada. Quero abrir aqui portas para pensar o absurdo.”

Raissa Dourado é fotógrafa e realizadora audiovisual. Desenvolve trabalhos com comunidades indígenas e ribeirinhas. Ganhou o Prêmio Lídio Sohn de Audiovisual (Governo do Estado de Rondônia) para a produção do documentário: Vozes da Memória (2019).

[livre para todos os públicos]

Veja aqui.

Imersos
(Girlan Souza Tavares, 2020, 2 minutos)

Imersos em um universo monocromático, em branco e preto, cujas imagens vão se fechando em sombras. O olhar que serve de câmera busca registrar o que fica na passagem do tempo e termina com uma estranha sirene que se amplia e ecoa ao descer as escadas não se sabe para onde. É a metáfora do medo e da incerteza, sob os efeitos de uma pandemia que se descortina no presente, alterando o cotidiano e descompassando a vida.

Girlan Souza Tavares é graduado em cinema e audiovisual. Participou do curso de preparação de atores para Cinema do Palco à Tela em 2018. É membro do Sonatoório – Laboratório de Pesquisa Prática e Experimentação Sonora.

[livre para todos os públicos]

Veja aqui.

Em Para que Eu Seja Utopia, Júlia de Oliveira, Virna Bemvenuto e Erick Borring refletem sobre o corpo e o lugar da utopia como espaço de reinvenção.*

Para que Eu Seja Utopia
(Júlia de Oliveira, Virna Bemvenuto e Erick Borring, 2020, 3 minutos)

Diante da ruína de um sistema insustentável e de tempos de recolhimento e isolamento social, nos confrontamos com a inquietação e o enrijecimento de nossos corpos. Anos de sedimentação de cóleras passadas e preocupações futuras vêm à tona em forma de sensações, produzindo em nós um mal-estar existencial sintomático da repressão das nossas corporeidades. Percebe-se, portanto, a necessidade de uma prática de presença no corpo para sentir e dissolver os atritos que nos impedem de estar aqui e agora. Desse modo, o presente trabalho opera no cruzamento entre performance, som, imagem e palavra, numa articulação com o texto O Corpo Utópico, de Michel Foucault (1966), e enuncia a criação de utopias a partir do corpo como possibilidade de reinvenção da vida em um momento durante e pós-pandemia.

Júlia de Oliveira, Virna Bemvenuto e Erick Borring são artistas-pesquisadores e arte-educadores que atuam no campo das linguagens visuais – performance, fotografia, vídeo e arte sonora –, investigando questões acerca do corpo e suas relações, no que tange ao meio ambiente e à experiência sonora.

[livre para todos os públicos]

Veja aqui.

Em O Interior de Todas as Coisas é Infinito, de Lucas Lopes, um chamado para a interiorização e a lembrança de um futuro que nos acena.*

O Interior de Todas as Coisas É Infinito
(Lucas Lopez, 2020, 3 minutos)

“O interior de todas as coisas é infinito: de todas as casas, de todas as pessoas, de todos os riscos e de todas as pessoas e seus riscos. Dentro da fragilidade desses dias tenho visto o futuro, esse lugar onde (talvez) nossa velhice mora, nos acenando, ainda não sei se como quem aguarda ou como quem se despede. Mas a vontade é esta: conseguir olhar para dentro das pessoas e das coisas, como tenho olhado para dentro da casa. Perceber os tesouros, infinitos, dentro de tudo e dentro de cada um.”

Lucas Lopes é formado em artes visuais pela Universidade Federal de Uberlândia. Atualmente, vive e trabalha em São Paulo. Além de sua produção autoral com experimentações em pintura e pequenas esculturas, é professor-artista na Escola Municipal de Iniciação Artística (Emia).

[livre para todos os públicos]

Veja aqui.

Acesse a programação completa do Festival Arte como Respiro.

*Comentários feitos pela equipe curatorial de artes visuais do Itaú Cultural.

Veja também