por Amanda Rigamonti

"Eu não peço licença pra chegar
Eu não sou obrigada
Sou filha de Oxum com Yemanjá
Alfange, espelho, espada

Sou raiva e calma ao mesmo tempo
E raiva eu sinto mais
Por tudo que me aconteceu
E o que aconteceu aos meus ancestrais

Não abaixo a cabeça pra nada
Não bato os meus pés no tapete
Insisto não sou obrigada
Eu como com a mão o meu próprio banquete"

Assim Flaira Ferro inicia seu Virada na Jiraya, álbum lançado em 2019 e que seria apresentado no Itaú Cultural (IC) em abril.

O segundo disco da artista recifense, lançado quatro anos após seu álbum de estreia, Cordões Umbilicais (2015), é, de acordo com a própria cantora e compositora, um disco político. Suas composições demarcam um espaço de manifestação no aspecto da igualdade de gênero, do respeito e da liberdade sexual da mulher. “O meu primeiro disco era muito mais existencialista, mais voltado para as minhas questões internas, e o Virada na Jiraya nasceu mais voltado para as questões externas, as causas em que eu acredito, essa dimensão social também da política interferindo na vida de cada um de nós”, comenta.

O próprio título do álbum dá ao espectador o tom do que ele vai escutar. Flaira explica que “queria muito trazer o humor e a denúncia juntos, então o título é um termo usado de forma coloquial pelas pessoas e que remete a esse estado de agitação, fúria, e ao mesmo tempo é bem-humorado – dizer que uma pessoa está 'virada no Jiraya' é dizer que está acelerada, com algum impulso de transformação, então esse disco nasceu mesmo desse desejo de transformação”.

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Com a suspensão da apresentação e o fechamento temporário do Itaú Cultural por causa da pandemia da covid-19, a artista conversou com o IC sobre sua história com a dança – nascida no período carnavalesco, ela iniciou seu contato com a música pelo frevo –, a passagem pelo Instituto Brincante, em São Paulo, e o início da carreira como cantora e compositora. Por fim, Flaira compartilhou algumas indicações culturais do que tem lido, visto e ouvido durante o isolamento social.

Este texto integra uma série de conversas com artistas que se apresentariam no IC nas próximas semanas, e inclui CeumarOzorio TrioTerra CeltaRafa Castro, Teago Oliveira, Dingo Bells e Luiza Brina. São conteúdos pensados para ser desfrutados de longe, em casa.

Vi que você ingressou na dança aos 6 anos. Como foi esse início e, depois, essa trajetória com a dança?

Eu comecei a minha relação com a arte através da dança, estimulada pelos meus pais, porque eles gostavam muito de Carnaval, e eu nasci no período carnavalesco, no dia 20 de fevereiro. Então, quando completei 6 anos, pedi de aniversário a eles para conhecer o maior bloco de rua do mundo, que era o Galo da Madrugada.

Eles me levaram para esse bloco, e foi no meio da rua, brincando, como foliã, como passista, imitando as pessoas dançando, que eles perceberam que eu tinha coordenação motora, habilidade, e estimularam isso. Naquele mesmo ano eu entrei na escola municipal de frevo para aprender a dançar frevo com o mestre Nascimento do Passo, que foi o fundador dessa escola e o primeiro a criar um método de ensino de frevo no mundo, e lá fiquei por mais de oito anos estudando, me aperfeiçoando, comecei a participar de alguns concursos de dança na cidade, e aí fui ganhando concursos e visibilidade, comecei a participar de festivais, ganhei bolsa de estudos para balé clássico da companhia de dança de Fátima Freitas, e então foi se abrindo um leque de possibilidades de me aprimorar e profissionalizar com a dança.

Até que eu fui percebendo que esse poderia ser, sim, meu caminho de vida profissional, porque o que começou como hobby, que era só uma diversão mesmo de uma criança, foi virando uma oportunidade de me profissionalizar, de trabalhar, de viver, de ganhar a vida com isso. E aí viajei o mundo através da dança, representando Pernambuco nas feiras de turismo internacionais, e fui circulando, fui para mais de dez países no exterior, sempre através da dança, principalmente do frevo.

Em 2012, fui morar em São Paulo para trabalhar com o Antonio Nóbrega no Instituto Brincante e lá, na criação dos espetáculos de Nóbrega, tive a oportunidade de misturar outras linguagens com a dança. Fiz aulas de canto, percussão, circo, teatro, e essa junção de linguagens foi o início para eu ter o desejo de trabalhar com música.

Como foi esse processo de ingresso na música, como cantora e compositora?

A minha inserção na música se deu através dos espetáculos de dança e música do Instituto Brincante, em São Paulo, no qual trabalhei durante cinco anos – de 2012 a 2017. O Brincante é uma escola-teatro que cria espetáculos baseada na cultura popular brasileira, então eu conheci grandes músicos e artistas, entre eles Leonardo Gorosito e Alencar Martins, que são dois músicos compositores que trabalhavam lá, e eles foram meus parceiros e produtores na criação do meu primeiro disco, Cordões Umbilicais, lançado em 2015.

Esse desejo de trabalhar com a música nasceu para mim exatamente dessa experiência de trabalho com os espetáculos de Nóbrega e de Rosane Almeida, a companheira dele, que é dramaturga e artista, e eles foram grandes estímulos, porque eu sentia muita atração mesmo pela palavra, pela necessidade de me comunicar e expressar através de letras, propor uma ideia, uma mensagem para o mundo, através de textos e melodias. Foi ali que foi nascendo de forma mais organizada a minha relação com a música como compositora, mas a verdade é que desde criança eu sempre gostei muito de poesia, por influência de meus pais, principalmente meu pai, que sempre gostou de cordel, de textos, de poesia, sempre escutava muita música, então já era algo que fazia parte do meu universo.

Você apresentaria na Sala Itaú Cultural seu trabalho mais recente, Virada na Jiraya. Pode compartilhar um pouco do processo de construção do disco e falar sobre a escolha do título?

Virada na Jiraya é meu segundo disco de música autoral. Ele foi, como o primeiro, feito de forma completamente independente. Esse disco é um compilado de composições que eu vinha fazendo nos últimos dois anos e é muito contaminado pelo momento político que estamos atravessando nos últimos anos, de muita transformação, de mudanças de gestão, então eu sentia que esse trabalho vinha regado do desejo de questionar, provocar, trazer um pouco a energia do elemento fogo como uma força, uma mola propulsora de desejo de mudança.

E tudo isso coincidiu também com os meus movimentos internos, meus processos íntimos de reflexão existencial, filosófica, sobre o meu lugar no mundo, e eu queria muito trazer o humor e a denúncia juntos, então o título é um termo usado de forma coloquial pelas pessoas e que remete a esse estado de agitação, fúria, e ao mesmo tempo é bem-humorado – dizer que uma pessoa está virada no Jiraya é dizer que está acelerada, com algum impulso de transformação, então esse disco nasceu mesmo desse desejo de transformação.

É um disco político, que se posiciona nesse aspecto dos direitos de igualdade de gênero, do respeito e da liberdade sexual da mulher, então foi mais ou menos por aí. Esse compilado de dois anos de Brasil. O meu primeiro disco, Cordões Umbilicais, era muito mais existencialista, mais voltado para as minhas questões internas, e o Virada na Jiraya nasceu mais voltado para as questões externas, as causas em que eu acredito, essa dimensão social também da política interferindo na vida de cada um de nós.

 

Confira a seguir as indicações culturais de Flaira Ferro:

[MÚSICA] Orquestra Mundana Refugi
Eu tenho escutado muito esse disco, tem me ajudado a dançar e a mergulhar em outras experiências sinestésicas. Essa orquestra é composta de músicos refugiados, pessoas de todos os cantos do mundo, de brasileiros a afegãos, indianos. É uma sonoridade muito interessante que esse disco tem. Eu ouço pelo Spotify com o nome Orquestra Mundana Refugi – Sesc Consolação, acho que foi uma gravação ao vivo de uma apresentação dessa orquestra. Tem várias paisagens sonoras, eu indico muito, especialmente para quem gosta de música instrumental se deleitar nesta quarentena.

[SÉRIE] Guerras do Brasil, de Luiz Bolognesi
Detalha um pouco como o Brasil foi formado por séculos de conflito armado, e isso faz entender nosso processo de formação e como a gente funciona, como nossos pensamentos foram construídos a partir dessas guerras, o que foi legitimado como verdade, o que ficou como mentira.

[LIVROS] O Oráculo da Noite, de Sidarta Ribeiro, e O Torcicologologista, Excelência, de Gonçalo M. Tavares
O primeiro eu estou lendo neste momento e indico para todo mundo porque está sendo maravilhoso. Sidarta Ribeiro é um neurocientista bem renomado e fala no livro sobre os significados e a história dos sonhos, as narrativas históricas e literárias do sonho na humanidade. Ele faz um apanhado que vai desde as civilizações antigas, no Egito, na Grécia, até a relação do sonho hoje em dia, e como isso afeta a nossa compreensão, as nossas escolhas.

O segundo também estou lendo e gostando muito. Esse livro é bem lúdico. São diálogos filosóficos que acontecem, mas que trazem pensamentos que não são nem um pouco convencionais como narrativa. Então, são diálogos que falam de absurdos, mas com um humor muito legal, é muito legal de ler e acompanhar. Fala das fugas dos padrões de um jeito lúdico e científico.

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