[Este texto integra uma série de relatos produzidos pela equipe de atendimento educativo do Itaú Cultural (IC). Nesses relatos, cada educador comenta sua experiência relacionada a uma exposição apresentada no IC, destacando três das obras presentes na mostra.]

por Edson Bismark

Cícero Alves dos Santos, popularmente conhecido como Véio, é um homem simples nascido em uma pequena cidade do interior de Sergipe chamada Nossa Senhora da Glória. Ele nos emociona não somente pelas obras que suas mãos são capazes de fazer, mas também pelo modo como as faz, totalmente ligado a seu lugar, sua terra e seus costumes.

Em cada traço de suas esculturas, Véio nos mostra seu respeito e sensibilidade por toda a cultura que o rodeia. Um artista com características ímpares, que dificilmente conseguiremos demonstrar em totalidade nas três obras escolhidas para esta série, em razão da magnitude de seu trabalho. Mas as peças escolhidas conseguem nos dar a dimensão do grande artista e ser humano que é o senhor Cícero.

Leia abaixo a publicação feita para a exposição Véio – a Imaginação da Madeira [https://www.itaucultural.org.br/veio-a-imaginacao-da-madeira], realizada pelo Itaú Cultural, em 2018.

<p><iframe frameborder="0" src="//e.issuu.com/embed.html#1414382/59385964" style="width:100%; height:300px;"></iframe></p>

Os Penitentes

Série Os Penitentes, do artista Véio (imagem: André Seiti)

Podemos nos perguntar sempre por que é tão fácil nos sentirmos próximos a Véio e a suas obras. A resposta é quase instantânea: a simplicidade dele causa identificação em muita gente. Nessa primeira coleção, chamada Os Penitentes, percebemos o apego que ele tem por suas lembranças e, junto disso, os questionamentos comuns que ele traz a partir delas.

Os penitentes em si são pessoas que no interior do Norte e Nordeste do Brasil saem uma vez por ano agradecendo pela graça alcançada. Mas aqui vou me aprofundar no sentimento que essa obra desperta, que é o de nos lembrar de coisas que pensávamos estar esquecidas. Uma das peças no centro da imagem, um pouco mais à direita da foto, mostra um imenso coração que não cabe no peito, mas que, por si só, não basta se as mãos continuarem fechadas.

De modo afetuoso, Véio nos faz lembrar como deveríamos ser e agir todos os dias, como indivíduos e como sociedade.

Os Cão do Meu Inferno

Obras da série Os Cão do Meu Inferno expostas em 2018 no Itaú Cultural (imagem: André Seiti)

Com o aspecto pessoal já bem evidente no título, a série mostra sentimentos muito comuns materializados.

Todos temos “demônios” que nos rodeiam e que muitas vezes são o fundo de nossos pensamentos. Véio consegue direcioná-los para fora, para a madeira que já se apresenta como algum desses demônios. Vale lembrar que para o artista as esculturas não nascem do zero, cada nova vida já estava presente naquela madeira: são os “cão”, sabiamente colocados de pé, nascidos, podendo ser assim encarados como um processo de autoconhecimento.

Ao nos depararmos com essas esculturas, o que vemos são “os cão” de Véio, mas muitas vezes reconhecemos também nossos próprios medos e demônios interiores. E, assim como o artista, neste exercício podemos perceber o real tamanho daquilo que nos cerca de maneira sincera, o que faz com que aquilo que nos paralisava deixe de ser tão apavorante.

Miniobras

12 obras minúsculas de Véio, feitas em palitos de fósforos (imagem: André Seiti)

Na última obra vemos características que impressionam e sensibilizam. Essa peça exige de quem a observa o mesmo carinho, paciência e atenção que foram necessários para sua criação. 

Toda a sensibilidade e simplicidade, tão marcantes na personalidade do artista, se personificam em pequenas delicadezas, que de tão únicas exigem que as ferramentas para a criação também sejam previamente criadas por ele. Ou seja, é um processo artístico que começa antes do próprio entalhe na madeira, e de uma madeira que, à primeira vista, não nos dá a dimensão de seus tamanhos mínimos de palitos de fósforos. 

Nessas breves percepções podemos estabelecer pilares marcantes do processo artístico de Véio, que são carinho, respeito e necessidade de dar forma a uma vida que ele acredita já estar naquela madeira, mas que sem suas mãos continuariam ocultas. Essas características o tornam um artista único, e poder presenciar seus sentimentos e sua imaginação refletidos em suas obras é um privilégio.

Sobre mim

Meu nome é Edson Bismark, tenho 29 anos e sou historiador. Trabalho com educação há sete anos, três deles dedicados à sala de aula. Estou no Itaú Cultural há quatro anos atuando como educador e produtor. Gosto de escrever, ler e de estar sempre atualizado sobre toda e qualquer novidade. 

Veja também