Artistas Mulheres Contemporâneas no Acervo destaca produções de criadoras presentes na coleção de obras de arte do Itaú Cultural. A cada edição da série, uma conversa sobre trabalhos com temáticas e estilos variados para ampliar horizontes. Siga aqui pelo site ou no nosso perfil no Instagram.

Jac Leirner
Blue Phase (Defacements),1992
papel-moeda e entretela
97,6 x 98,6 x 5,5 cm
Acervo Banco Itaú
Imagem: Sergio Guerini/Itaú Cultural

por Duanne Ribeiro

Não conhecemos alguns objetos e signos bem demais a tal ponto que, mesmo se feitos por nós, parecem naturais, partes das coisas como são? Talvez um caso desses seja o dinheiro: qualquer que seja a sua encarnação – moeda, cédula, crédito –, os seus fluxos, as suas paradas soam inscritos na realidade. O que se passa, então, quando retiramos esses itens do seu lugar?

Blue Phase (Defacements), da artista multimídia Jac Leirner, executa um procedimento assim. A obra é composta de notas costuradas, parcialmente sobrepostas, nas quais a figura de Juscelino Kubitschek (1902-1976), presidente do Brasil entre 1956 e 1961, ganha intervenções gráficas: a antes imponente efígie histórica recebe chifrinhos, barba pontuda, moicano, língua de fora. Vista de longe, Blue Phase oferece uma massa de formas e tons azuis e amarelos.

O dinheiro, nessa e em outras obras de Jac (como Os Cem, Os Cem (Roda) e Fora dos Cem), não atua mais na manutenção da economia; percorre agora outro circuito de signos e objetos, o das obras de arte. Destacadas da maneira como podem se impor à vida cotidiana, essas cédulas se reduzem a formas visuais, suportes simples. Para onde foi o valor?

Podemos pensar essa pergunta de várias maneiras. Uma delas é a história da moeda usada pela artista. Há, implícitos em Blue Phase, ciclos de valorização e desvalorização: a nota de 100 mil cruzeiros, lançada em 1985, era então de maior denominação e reparava em algum nível os problemas da inflação, que tornava necessário o uso de grande volume de notas de menor cifra. O cruzeiro, criado em 1970, foi substituído em 1986 pelo cruzado. Com três zeros a menos que o seu antecessor (daí as cédulas de 100 na obra de Jac), ele duraria até 1989, tendo precisado de muitas outras cédulas de maior grandeza. Juscelino acabou valendo nada.

Em 1992, quando surge Blue Phase, já havia morrido o cruzado novo (1989-1990) e era vigente um outro cruzeiro (que seguiria até 1993). O valor, sabemos, não estava nos papéis, é produzido nos movimentos da sociedade. De certa forma, então, Jac dá outra dignidade ao antigo dinheiro: faz com que ele seja “fossilizado”, na expressão usada pelo catálogo da exposição Jac Leirner: Funciones de uma Variable. Esse recurso marca a sua produção, avalia Tadeu Chiarelli:

O que move inicialmente o trabalho da artista parece ser a necessidade de aprisionar objetos, retirando-os do fluxo do consumo, da vida. Leirner age como uma colecionadora, ou melhor, como uma arqueóloga especial, preocupada com as tipologias de alguns objetos que a interessam pelo que eles possuem de comum entre si e pelas relações – afetivas ou não – que a artista mantém com os mesmos. Maços de cigarros, cédulas de dinheiro, frases, sacolas de plástico etc.

Esses cruzeiros e cruzados lembram como é instável a posição de meios de pagamento como o nosso real e estão eles próprios reservados em relação a esse jogo. Contudo – e aqui há outra forma de ver a questão do paradeiro do valor –, por tal ato Jac recoloca esses objetos no lugar onde os havia tirado. Como Chiarelli percebe, após “matá-los” em uma primeira fase, deixa que acumulem (o acúmulo é uma das suas principais ferramentas) e aí, narra o curador, passa a remodelá-los em

uma etapa que a própria artista denomina como sendo de “engendramento”, ou seja, gestação. Uma etapa demorada, meticulosa, em que a artista, unindo as carcaças de um mesmo tipo de objeto, vai obsessivamente chegando ao resultado final dessa etapa: um novo objeto, uma nova forma, constituída de vários, inúmeros exemplares de um ex-objeto. [...] terminada essa etapa, o que faz? Lança de novo aqueles vários objetos – agora unidos numa mesma forma – ao fluxo da vida, do consumo, expondo-os no circuito convencional da arte convencional.

Como afirmou a artista em entrevista à Folha, “o mercado absorve tudo, seja uma nuvem, uma ideia, uma lágrima ou um som”. A arte é suscetível às mesmas sortes e azares que a moeda?

Jac Leirner é formada em artes plásticas pela Fundação Armando Alvares Penteado (Faap), da qual foi professora entre 1987 e 1989. Em 1991, tornou-se artista residente do Walker Art Center, de Minneapolis, nos Estados Unidos. Ainda nesse ano, foi professora convidada da Universidade de Oxford, na Inglaterra, e artista residente do Museu de Arte Moderna dessa cidade. Participou, em 2017, da exposição Modos de Ver o Brasil: Itaú Cultural 30 Anos, realizada na Oca, no Parque Ibirapuera. Saiba mais na Enciclopédia Itaú Cultural de Arte e Cultura Brasileiras.

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