Cidades destaca produções de artistas presentes na coleção de obras de arte do Itaú Cultural. A cada edição da série, uma conversa sobre trabalhos com temáticas e estilos variados, buscando ampliar horizontes. Siga aqui pelo site ou no nosso perfil no Instagram.

Cristiano Mascaro
Avenida São João 02, 2003
impressão com pigmentos pretos de carbono em papel 100% algodão a partir de digitalização de negativo
115,5 x 125,7 cm
Acervo Banco Itaú

Por Duanne Ribeiro

Você já pode ter passado por algo assim: ao andar pela cidade, deparar-se com uma cena, uma pessoa, algum acontecimento que pede para ser fotografado. Esse é um sentimento que também guia Cristiano Mascaro. Falando, por exemplo, de uma fotografia de escadas rolantes (item 10 desta galeria), ele explica que não imaginava registrá-las: “Isso só aconteceu porque eu subi por elas – estavam todas quebradas –, cheguei lá em cima, cansado, fui olhar para baixo e dei com aquilo. Boa parte das minhas fotos são feitas dessa maneira”.

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Cristiano – que atuou como repórter fotográfico para Veja por alguns anos na década de 1960 e cita essa experiência como fundamental na sua carreira – parece se alinhar à filosofia de um dos mais relevantes profissionais da história do jornalismo, Gay Talese, que professa “a arte de sair por aí”, que fala de “cultivar uma relação com a rua”. Caminhar é para o fotógrafo mais que um método, “é uma coisa que me alimenta. É caminhando que as coisas vão acontecendo”.

Sendo assim, a cidade, claro, é um elemento decisivo nessa equação. É ela esse algo a desvelar, espaço com personagens, imaginário, formas, memória. Em Avenida São João 02, trabalho que destacamos aqui, nós vemos tudo isso em interação: entre curvas do jardim e diagonais cortando os percursos, passa a vida urbana, com seus habitantes de sombras longas.

Essa não foi a única vez que Cristiano tropeçou em uma oportunidade de foto ao percorrer a São João; fez, dá para adivinhar, Avenida São João 01, em que a pista aparece extensíssima, como sem fim, cheia de reflexos, mas estreitada pelos prédios na penumbra. A nº 2 é de 2003; esta, de 1986 – época em que, lembra o artista, já “caminhava muito” pela via, desde quando “São Paulo ainda tinha garoa”. Ele tinha cultivado a proximidade, digamos – e isso vale para a capital paulista como um todo, que marca fortemente o artista, como nota a crítica de fotografia Stefania Bril:

Mascaro tem com São Paulo uma relação quase de submissão: ele se deixa penetrar pela massa de concreto, pelas faixas de cimento, pelas fatias de céu.

[...] São Paulo de Cristiano não é metrópole de multidões nem de ritmo desenfreado. Ela se deixa impregnar pelas ‘pegadas’ do mundo apressado e o fotógrafo as capta, rastros borrados que atravessam a imagem e tentam arrastar o habitante para dentro da vida palpitante, urbana.

Desde o início da carreira, a terra (que não é mais) da garoa está presente na obra de Cristiano: seu primeiro trabalho de “documentação urbana” foi no bairro do Brás. Aprendeu a caminhar pela rua e passou a desenvolver dois interesses – a “arquitetura como cenário” e a figura humana, na medida em que “a cidade é feita das pessoas que a habitam”. A decisão por esses objetos dá o tom do modo de operar de Cristiano, “predisposto ao imprevisto”, local de um jogo difícil:

[Na fotografia] você tem um campo preenchido por coisas [sobre as quais] você não tem controle. São as pessoas que caminham; o sol, que faz o seu percurso; as nuvens, que se movimentam; um ônibus que passa. Então, você tem de, numa fração de segundo, captar algo que seja luminoso ou comovente – mais do que a realidade, que é a baça, embaçada.

Não só a capital, mas o estado de São Paulo deu com a lente de Cristiano, assim como várias localidades do Brasil e do mundo – eis uma caminhada que não para. Dessa forma, assuntos, bons encontros e surpresas – nós aprendemos com ele – não se esgotam; basta “continuar aí, andando para lá e para cá um pouco, sempre vai ter coisa interessante para descobrir”.

Cristiano Mascaro é fotógrafo, arquiteto e professor. Publicou livros como A Cidade (1999), São Paulo (2000) e O Patrimônio Construído ­– as 100 Mais Belas Edificações do Brasil (2003). Como pesquisador, escreveu a dissertação O Uso da Fotografia na Interpretação do Espaço Urbano e a tese A Fotografia e a Arquitetura. Lecionou na Enfoco Escola de Fotografia e na Faculdade de Arquitetura e Urbanismo de Santos, além de ter dirigido o Laboratório de Recursos Audiovisuais da Faculdade de Arquitetura e Urbanismo da Universidade de São Paulo (FAU/USP). Saiba mais na Enciclopédia Itaú Cultural de Arte e Cultura Brasileiras.

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