Cidades destaca produções de artistas presentes na coleção de obras de arte do Itaú Cultural. A cada edição da série, uma conversa sobre trabalhos com temáticas e estilos variados, buscando ampliar horizontes. Siga aqui pelo site ou no nosso perfil no Instagram.

Claudio Edinger
Itaetê, 2006
fotografia
100x80 cm
Acervo Banco Itaú
Imagem: Arquivo do artista

Por Duanne Ribeiro

Itaetê é eterna? A depender dos poderes que Claudio Edinger atribui à sua prática, sim. Diz ele, “fotografar é pegar o efêmero e transformar em eterno”. Sendo assim, essa menina de vermelho que sobe a escada até a casa de pintura descascada azul e laranja – o ato mesmo de subir, o pé dianteiro que não chega a tocar o chão, o traseiro já sendo suspenso, o chinelo meio solto no ar – tudo isso foi posto fora do vir a ser. Um instante da vida dessa cidade baiana foi eternizado.

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“Fotografar é encontrar aquilo que a humanidade está procurando: a imortalidade”, especifica Claudio. A fração de imortalidade que enfocamos, a fotografia Itaetê, faz parte da série De Bom Jesus a Milagres, para a qual o artista viajou pela Bahia, capturando circunstâncias em Lençóis, Andaraí, Palmeiras, Bom Jesus, Utinga, Povoado da Passagem... Itaetê possui outra foto na coleção, na qual, diante de uma casa azul e branca, está sentado um cachorrinho.

Em De Bom Jesus a Milagres, destacam-se dois recursos: a cor e o foco. Podemos notar isso já na nossa Itaetê – com nitidez, vemos só a escadaria, pedra e sujeira bem marcadas; desfocadas, as peças de roupa vermelha e as casas. Assim, nos dois terços superiores da foto as linhas nublam-se, são quase manchas as paredes verdes, amarelas, rosa, as portas marrons, os vãos pretos. A figura humana, geralmente (nas fotos que tiramos no dia a dia, por exemplo) em destaque, também não ganha muito detalhe.

Os olhos podem ficar nisso que veem melhor, esse encardido, esse resultado das intempéries e do uso no concreto, ou podem se voltar ao que é comum dar atenção, pessoa e cenário, os quais aqui são pegos de relance, vibrantes. A técnica por trás desse efeito é chamada foco seletivo e é possibilitada pelas câmeras de grande formato. É um procedimento, pensa o fotógrafo, que emula nosso olhar costumeiro e que tem em si uma filosofia:

[...] o foco seletivo [...] além de ser a forma como enxergamos o mundo, cria um paradoxo e uma síntese dentro da imagem. E o que o mundo tem de mais interessante são os paradoxos e as sínteses.

Essa prática atravessa a obra de Claudio. Por meio dela, os banhistas de Ipanema, transformados em vultos, misturam-se com o horizonte, enquanto as palmeiras sobressaem preto no branco. Assim é que o Taj Mahal, na Índia, se contrasta limpo e luminoso com a multidão indiferenciada. E, por todos os exemplos citados, vemos como passear pelo trabalho do artista é passear pelo planeta. Nova York e Los Angeles, nos Estados Unidos; Lisboa, em Portugal; Toscana, na Itália; Paris, na França – essas e outras localidades foram registradas pelas lentes do autor.

“Viajar e fotografar para mim são coisas inseparáveis”, confessa Claudio, “se não puder levar a câmera, não viajo. Entendo muito melhor a realidade com a câmera”. Com isso, talvez possamos sugerir que compreender as cidades, o mundo, exige perceber tensões, perspectivas, momentos que se esvaem facilmente – e saber o que preservar, o que resguardar da passagem do tempo.

Claudio Edinger iniciou sua carreira na década de 1970. Nos campos da fotografia documental e jornalística, trabalhou para periódicos como O Estado de S. Paulo, Folha de S.Paulo, Time, Rolling Stones e Newsweek. Publicou 16 livros, sendo os últimos O Paradoxo do Olhar (2015) e Machina Mundi (2017). A crítica ressalta na sua trajetória a “intensa preocupação com questões sociais relacionadas ao crescimento urbano, às manifestações culturais e às estruturas da própria sociedade”. Saiba mais na Enciclopédia Itaú Cultural de Arte e Cultura Brasileiras.

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