por Jullyanna Salles

 

Narrativas é a sétima série produzida aqui no site que destaca produções de artistas presentes na coleção de obras de arte do Itaú Cultural (IC). A cada publicação, um escritor é convidado a criar um texto literário inspirado em uma obra do acervo. Nesta edição, escreve Jullyanna Salles.

Obra de Samson Flexor, óleo sobre tela. Contornos humanos em uma ciranda. A obra conta com tons mais escuros das cores azul, verde, amarelo e laranja e é toda cortada por retas, culminando em formas geométricas.
Bailarinas, 1950, obra de Samson Flexor. (imagem: João Luiz Musa/Itaú Cultural)

Não tocava música, não havia nenhum casal apaixonado, mas aconteceu mesmo assim. Era um dia frio, como são todos os dias em que alguém vai embora. Ninguém tinha fome, mas tomavam café, vestiam roupas de cores sóbrias e falavam baixo. Aliás, quase não falavam, faziam coro ao silêncio absoluto e agora eterno do corpo que era velado no fundo da sala com cheiro de flores. Apesar desse ambiente sufocado de tristeza, aconteceu.

Foi num final de abraço que o desejo de não ir embora se tornou dança. Duas pessoas que se consolavam nesse tradicional envolvimento de braços e pescoços trocaram as palmadinhas nas costas (que discretamente dizem que é hora de se afastar e viver seu luto sozinho) por um dois pra lá, dois pra cá.

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Um evitar de despedida se transformou em um balançar ritmado, e não demorou até que muitos pares de pernas se juntassem à coreografia, como se não houvesse ali uma cerimônia fúnebre. Ou talvez justamente porque, diante daquele exemplo de morte, ficou vívida a lembrança de que só é possível dançar enquanto há vida. Portanto, se há vida, que não escape uma só oportunidade de dançar.

 

Jullyanna Salles é jornalista formada pela Escola de Comunicações e Artes da Universidade de São Paulo (ECA/USP). Integra a equipe de comunicação do IC desde 2015 e atua na produção de conteúdo para as redes sociais.

Samson Flexor (1907-1971) é pintor, desenhista, muralista e professor. Nascido na Rússia, mudou-se para São Paulo em 1948. Considerado um dos introdutores do Abstracionismo no Brasil, é um artista de produção variada e independente. Da figuração cubista à abstração geométrica, e desta à abstração lírica, volta no final da vida a uma espécie de figuração orgânica e antropomórfica, sem deixar de lado a pintura de temática religiosa e os retratos. Saiba mais sobre o artista na Enciclopédia Itaú Cultural de arte e cultura brasileira.

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