Cores é a sexta série produzida aqui no site que destaca produções de artistas presentes na coleção de obras de arte do Itaú Cultural. A cada publicação, são apresentadas obras variadas, mobilizadas por uma cor primária. Siga esse ciclo também pelo Instagram.

por Duanne Ribeiro

Brasil é vermelho. Brecillis, bersil, brezil, brasil, brazily – todos os termos que nomeavam a madeira do pau-brasil ou o corante extraído dessa árvore derivam da palavra brasilia, que, em latim, significa cor de brasa ou vermelho. A mesma cor caracterizava os nativos: em sua carta de 1500, o escrivão Pero Vaz de Caminha os descreveu como “pardos, um tanto avermelhados”. E essa tonalidade estava não só na pele dos indígenas, como também nas origens do projeto colonial: em 1656, o Padre Antônio Vieira denunciava entradas e bandeiras, cujo “verdadeiro objetivo era capturar índios: extrair de suas veias o ouro vermelho”*.

Esses exemplos sugerem como uma mesma cor atravessa a história em várias direções: serve a narrativas diversas, marca modos de ver, envolve questões sociais e econômicas, mobiliza símbolos seculares. Quando contemplamos o vermelho, vem tudo isso junto?

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Responder a essa questão talvez peça um mergulho em nossos sentimentos. Por exemplo, quando vemos a fotografia Retirando luz vermelha, de Luiz Braga, publicada acima, o que nos ocorre? Na calçada, um rapaz segura um fio com uma lâmpada acesa na ponta. A luz é intensa: deixa vermelhas a pele do jovem e as tábuas verdes da casa à sua frente. Dentro desse local, rostos de meninos que observam são também tingidos. O vermelho não transforma, densifica uma cena que de outro modo poderia parecer mais trivial?

Braga visita o vermelho em várias fotos, das quais destacamos: Açougueiro encarnado e Asa encarnada, que encontram a cor no sangue e na carne; Mãos açaí, que a exibe em palmas sujas de labuta e coloridas do suco de um fruto; Dama de vermelho, que mostra, entre cortinas vermelhas, uma moça de estola e salto alto prestes a adentrar um espetáculo; e Vendedores de queijo, que registra homens formando círculos luminosos no ar. Nelas se evocam o grosseiro, o agressivo, o sensual, o fascinante. O excepcional.

Nas outras obras que trouxemos para cá, esses sentidos também se põem? Em Flores, de Adir Sodré, pode ser que sim: sobre o fundo construído de três tons de vermelho, do mais claro, acima, ao mais escuro, abaixo, estão diversas mulheres nuas, que contornam um grande vaso de flores multicoloridas. As figuras femininas podem ser lidas pelo viés do erotismo, assim como a flor pode ser símbolo da fertilidade. Essas relações são explícitas em outras obras de Sodré – A sexóloga e Falos e flores são exemplos disso.

Já as criações de Willys de Castro, Antonio Dias e Abraham Palatnik parecem obedecer a outras lógicas. Ambas de fundo vermelho – como o trabalho de Sodré –, Sem título, de Dias, e Ascensão, de Castro, constroem relações no interior das obras, com poucos elementos. Sem título traz, em primeiro lugar, o contraste entre o vermelho sólido (ou quase: ele é escasso nas laterais...) e as tonalidades variadas das folhas de cobre e ouro, que são como que manchadas. Regular, irregular; coeso, dissonante. Em segundo lugar, duas desarmonias: o desequilíbrio do espaço dado ao vermelho e às folhas; e a falta de um bloco dourado acobreado. Ficamos com a sensação de que resta algo a preencher.

Ascensão também atua sobre nossas percepções. Tendemos a intuir padrões no que vemos, extraímos semelhanças, criamos classificações, completamos o que nos dão os sentidos – é o que estuda a psicologia da gestalt. Assim, na obra em questão, vemos os triângulos brancos e os triângulos azuis como dois pares; e esperaríamos que a ordem dos quatro fosse azul, branco, azul, branco. Isso explica o título do trabalho: como existe uma lacuna, a impressão é de que há um triângulo não só fugitivo, como voador...

Nenhuma forma geométrica se rebela em W-222, de Palatnik, mas o movimento dá à obra muito do seu atrativo. A composição lembra a da chama: base escura que se eleva em amarelos, laranja e vermelhos. O olho acompanha a transição das cores, o ondulado das curvas é interrompido pelas estreitas faixas verticais. Esse dinamismo pintado se dá noutras obras suas, e nos seus objetos cinéticos a mobilidade é ainda mais rainha (veja).

De um lado, então, nos trabalhos que citamos, o vermelho é protagonista e, do outro, é coadjuvante? Uma cor, concluímos, é capaz de entrar em distintos jogos de linguagem... Podemos desenredá-los todos? Desde sua presença na história do Brasil – no pau-brasil e no ouro vermelho, nas bandeiras do império e da Conjuração Baiana – até exemplos da cultura em geral – a touca do Saci, a capa do Super-Homem, a gravata do Tio Sam –, as possibilidades se multiplicam. Fafá de Belém canta: “Meu coração é vermelho”. Mas, não sei, agora não parece tão imediato interpretar o que ela quer dizer com isso...

 

*As informações deste parágrafo são extraídas do livro Brasil: uma biografia, de Lilia M. Schwarcz e Heloisa M. Starling. Há outra versão sobre o batismo do país: “Brazil” seria o nome de uma ilha mítica na costa da Irlanda; seu rei teria se chamado Brasal. Saiba mais.

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