Acessibilidade
Agenda

Fonte

A+A-
Alto ContrasteInverter CoresRedefinir
Agenda

“Encontros com a nova literatura brasileira contemporânea”: AJ Oliveira

Heróis improváveis em conflitos cotidianos, ambientações urbanas distópicas e enigmas socio-sobrenaturais

Publicado em 14/09/2023

Atualizado às 12:04 de 18/09/2023

Por Enéias Tavares

A série Encontros com a nova literatura brasileira contemporânea apresenta o trabalho de escritores da cena literária recente, com uma seleção atenta à produção de todas as regiões do país. Neste ciclo, dedicado à literatura fantástica nacional, a curadoria e a apresentação são do escritor e pesquisador Enéias Tavares. 

Entre visões sobrenaturais e violentas de uma literatura criada na periferia e debates mensais sobre mercado, criação e carreira: AJ Oliveira

O mundo mudou. Ele encolheu, expandiu e derreteu. Ficou maior, menor, mais vasto, menos aberto, mais complexo, menos igualitário, apesar do nascimento e da morte – por velhice ou acidente – das últimas utopias da moda. Nas últimas décadas, a internet e as redes sociais prometeram democratização de comunidades, igualdade de debates e troca de visões dissonantes, tudo contribuindo para uma aldeia global que nunca de fato chegou a se formar. 

Diferente dela, o que se adensou foram extremismos totalitários, destruição ambiental liderada por grandes corporações aprovadas por governos patrocinados por... Adivinha? Grandes corporações que continuam a ruir nosso bem mais precioso, o próprio planeta que ainda chamamos de lar. Temperam o caldeirão desta nossa pós-modernidade pandemias globais e renovadas guerras que fazem deste admirável mundo novo um miserável conglomerado carcomido. E, como todas as ficções, a literatura fantástica não ignora esses fatos. Ao contrário. A partir do insólito, ela tem relido, revisto e reinventado este mundo em cacos e estilhaços.

Aos leitores de Encontros: as colunas anteriores sobre afrofuturismo, ficção científica e steampunk já evidenciam essa preocupação com o presente. Mas, além das questões sociais em torno de desigualdade, ecologia e totalitarismo, há um adendo importante a este boom tecnológico que todos nós vivenciamos. Falo da utilização das vias digitais para comunicar com leitores e escritores, numa utilização mais pedagógica e saudável das redes. Nessa dupla seara – da literatura fantástica produzida na periferia sobre a periferia para leitores de todas as regiões e do uso tecnológico para debater e produzir literatura –, o paulistano AJ Oliveira tem se destacado por sua obra e trabalho.

Como o próprio AJ se define, ele é um escritor “de quebrada”, que nasceu e cresceu na Zona Leste de São Paulo, entre os bairros de Guaianases, Inácio Monteiro e Cidade Tiradentes. Desde seus primeiros anos – hoje ele tem 32 –, escrevia histórias em caderninhos de brochura, indo desde fanfics de Gato Félix, Pica-Pau e o elefante Babar até crossovers entre Zelda e Thundercats

Seus anos escolares não foram de “chumbo” e sim de “lata”. AJ foi educado nas chamadas “escolas de lata”, também conhecidas como “salas de lata” ou “de latinha” – escolas públicas municipais e estaduais de São Paulo montadas em contêineres metálicos e cobertas de telhas de amianto. Por se tratar de escolas que priorizavam uma educação técnica e profissional, AJ não foi incentivado à leitura, tendo desenvolvido seu gosto pela leitura “tipo aquela garota que você descobre que gostava quando mais novo, mas só se toca disso depois de décadas”.

Sem acesso a bibliotecas ou livrarias, suas primeiras leituras se resumiram aos almanaques da Turma da Mônica, que um “vizinho abandonou na mudança quando fugiu de casa para não pagar o aluguel”, relembra ele, e a uma versão infantil de Os miseráveis, que lhe deram na quinta série. Depois disso, só teve contato com literatura no ensino médio, sendo obrigado a ler Dom Casmurro e terminando por odiar o texto – como muitos daqueles que chegam aos livros por obrigatoriedade e não por curiosidade. Foi nessa época que descobriu a literatura fantástica estrangeira, com Harry Potter e Percy Jackson, e a nacional, com Eduardo Spohr.

“Foi ali que meu amor pelos livros nasceu. A forma como essas histórias me abraçaram, num convite para puxar uma cadeira e curtir até a última página, foi um aprendizado de que é possível morar no mundo dos livros e não apenas passear de vez em quando por ele. Um tempo depois, após ver uma edição de Capão pecado, do Ferrez, sendo vendida num camelô no centro de Guaianases, caiu minha ficha de que pessoas pobres também podiam escrever, apesar de nunca ter ouvido falar de nenhuma até aquele dia”.

Foi com essa série de encontros e desencontros com a literatura e a leitura e com o crescente desejo da escrita e da criação de suas próprias histórias que AJ teve a ideia de criar um podcast – uma mídia ainda com o frescor da novidade, nos idos de 2011. A ideia original do projeto seria chamar autores publicados para que compartilhassem suas experiências de escrita e carreira, visando desmistificar o processo de publicação de livros em um momento em que raramente se falava do assunto no meio acadêmico ou fora de cursos e oficinas pagas. 

O podcast foi ao ar quatro anos depois, mas durante esse tempo AJ se preparou em uma mentoria com o escritor Felipe Colbert, uma experiência fundamental de seu aprendizado, tanto para a criação do programa como para futuros escritos. Os 12 trabalhos do escritorna casa de cem mil acessos – é hoje uma referência do meio, tendo recebido nomes como André Vianco, Felipe Castilho, Fábio Barreto, Thiago Lee, Eduardo Spohr, Kali de Los Santos, Christopher Kastensmidt, Nikelen Witter, Jim Anotsu, Luisa Geisler e Paola Silvieiro, entre outras dezenas de autores em diferentes fases da carreira.

Em quase uma década de projeto, com episódios semanais que somam oito temporadas, AJ usa a mídia podcast para refletir sobre escrita, edição, mercado, publicação comercial e independente e formação de escritores, além de debater questões que dizem respeito a contrato, agenciamento, carreira e relação com o público. A meu ver, Os 12 trabalhos do escritor continua sendo um dos melhores cursos gratuitos sobre carreira e criação literária em nosso país, indicado tanto para novos autores quanto para escritores experientes.  

Foi a partir de uma profícua rede de contatos, muitos deles nascidos do seu podcast, que AJ começou a publicar sua ficção. Em 2018, ele foi o vencedor do Prêmio Watts, da plataforma Wattpad, com o romance Asas, pingentes e imortais. Em seu romance, um adolescente diagnosticado com esquizofrenia precisa lidar com suas buscas pessoais em crescente conflito com o extremismo religioso da família. Nesse cenário, Benjamin começa a desconfiar que as vozes de sua cabeça não apenas são reais como revelam uma poderosa entidade com objetivos nada pacíficos, tudo isso num romance enérgico e desafiador, sobretudo para os que sabem o que a divisão religiosa fez e continua fazendo em nosso país. 

A partir desse romance, disponível on-line, tanto a produção literária quanto seu ofício como podcaster levaram AJ a diversos eventos, entrevistas em outros podcasts e a convites para escrever. Desses resultaram a organização da antologia As crônicas da Unifenda (Plutão Livros), ao lado de André Caniato e Jana Bianchi, além da publicação de diversos contos. Entre eles, destacam-se “God talks” (Mitos de origem, Editora Mitografias), “Kickapoo” (Metalmancer, independente) e “Edição de amanhã” (As crônicas de Unifenda, Plutão Livros). 

No conto inédito escrito para Encontros, “Carreto de regras”, AJ se aventura numa trama que une crítica social, vida metropolitana, angústias financeiras, mistério sobrenatural e consultas de tarô. Se a mistura já despertou sua atenção, prepare-se para um texto fluido e veloz, no qual a metralhadora narrativa de Oliveira homenageia a prosa de Chuck Palahniuk, uma de suas referências. É um conto escrito com verve e som, violência e ação, realidade e magia, numa fórmula nada banal que promete futuras experimentações narrativas. 

Mesclando conflito, cotidiano e sobrenatural, `na releitura de uma das histórias de horror mais famosas de São Paulo, AJ oferece aos leitores um campo semântico rico e variado, que vai da riqueza vernacular literária à linguagem mais célere dos bate-papos do nosso dia a dia, além de uma sonoridade que torna seu texto um presente para leitores que adoram o entrecruzamento de trama e estilo, enredo e forma, conteúdo e musicalidade, os extremos que não raro definem a boa literatura e também a boa literatura de entretenimento. 

Em tempos realisticamente sombrios e tecnologicamente perigosos e enlouquecedores, a ficção paradoxalmente periférica e global de Oliveira nos convida a transpor muros de irracionalidade e distanciamento – social e existencial – para abraçar alteridades tanto insólitas quanto psicológicas, numa literatura imaginativa e inventiva. Em meio a crises que se adensam, a ficção provocativa e engajada, divertida e reflexiva de AJ Oliveira é um passeio pelo potencial da língua portuguesa e da literatura brasileira em ultrapassar barreiras e construir caminhos de compreensão e respeito direcionado a todos.

Vista de dentro de uma carro. Vemos o gabinete do veículo e a rua logo à frente. No retrovisor, é visível um dos olhos do motorista, um homem negro, e um espectro verde e de olhos pretos no banco de trás.
"A casa fala. A casa sente. A casa age." (imagem: Flavia Ocaranza)

Carreto de regras

Das regras não ditas da vida, algumas se fazem leis. Um conjunto de regras inexoráveis praqueles cujos pés tocam o chão, e que contra a luz criam sombras. Não é como jogar lixo no chão, tampouco sobre beber no volante. Pros que pulam na água e fazem “TIBUM” o conceito de “lei que não pega” inexiste.

Casas falam.

Se pouco antes do SPTV você chega em casa com uma batida forte na porta, o baque seco não avisa seus companheiros do que está por vir, mas cagueta as merdas que rolaram no decorrer do dia sem sequer a necessidade de terem estado lá pra presenciar.

Casas falam, mas também sentem.

— Não aceitaram o manuscrito, né? –  Sua companheira sensitiva pergunta, a TV ligada sem ninguém prestar atenção. As mãos grudadas no Kindle e com o celular ao lado, aguardando o toque pra tirar as panelas do fogo. A escalada do jornal enaltece as operações contra a cracolândia. Borrachada e bomba de gás lacrimogêneo comendo soltas. A cena pula pros de cortes de luz da empresa que fornece energia elétrica, recentemente privatizada. Passaram de três pra duas contas o limite de agiotagem burocrática. — Filhos da puta…

Você joga o casaco no balde de roupa suja, cheio até a tampa. Passos ligeiros até o sofá carcomido. Se abaixa numa bitoca seca de boa noite, rápida o bastante pra significar apenas “noite”. Tropeça no tapete da sala e engole a fartura de palavrões mastigados a tarde toda. Se encaminha pro chuveiro pra se livrar da sujeira do dia, torcendo pra não ter queimado a resistência. Da porta do banheiro, seu outro companheiro faz a mesma pergunta e você responde como antes, mas acrescenta:

— Tô de barriga cheia. ­– Na mentira você encontra um afago desonesto com hematomas de horas extras que não valeram o esforço. — Vou tomar uma ducha e ir de lençóis.

E assim você faz.

Um banho de ervas não resolve os males da mente, pois não se lava a cabeça. Contudo, é capaz resolver as tretas do corpo e do espírito. Um bom travesseiro é o ópio que você tem pra hoje.

São quatro da manhã quando você vê o caminhão da mudança virar a esquina. De mochila nas costas, bastaram dez minutos pra mudar a chavinha e organizar seus bagulhos pro trampo do dia: carvão, giz, rosh, mangueira, acendedor, papel, luvas, tarot, caneta, incenso e um soco inglês, pro caso de dar merda no carreto. Pobre que é pobre trabalha com qualquer coisa que lhe paguem. Na sua cabeça, a ideia de não cortarem a luz de casa durante a tarde te impede de dormir. Acordar cedo se torna fácil em determinadas situações. Ao volante, o motorista explana o trampo aliado a outro conjunto de regras não ditas. No caso, das regras malditas que você não quer seguir, mas segue por que dá dinheiro.

— Granfino paga pouco, mas paga, – você escuta sem anotar. As instruções miram os moleques sentados no baú, na parte de trás. Diferente de você, geral é marinheiro de primeira viagem, o tipo que ainda não tirou o cabaço da CLT por culpa da fase de exército, tal como os da semana passada que não quiseram mais voltar. No final do expediente, é provável que eles farão o mercado com os cento e cinquenta da diária da mudança, ou melhor, farão o “quase nada” que a inflação permite comprar. Já você, verá a grana cair e perecer no débito automático pra porra da Enel. Na metade do caminho pro trampo, o motorista escolhe não contar pros moleques que vocês já são a terceira equipe contratada praquela mudança. Talvez seja perigoso, mas não precisam saber. É pra isso que você está lá: tirar a “mobília” que os comuns aprenderam a desver. — Se cês não forem bico sujo, capaz até que role caixinha, morô? Trampo pesado, porém simples. Só não cagar no pau que cês vão longe.

A viagem segue enquanto o papo de trampo evoca novas regras, tanto ditas quanto malditas. O cheiro de incenso dando o ar da graça enquanto as fagulhas de tensão dos moleques colidem com o tédio do teu olhar sonolento. Naquela “casa” nada explode, que não os pipocos do escapamento carente de manutenção. Você encara o terço de madeira com a imagem gasta de Nossa Senhora Aparecida no retrovisor, a coisa balança junto das contas do terreiro e das fitinhas do Bonfim. Pro motorista, proteção nunca é exagero, ainda mais praquele trampo. Você tira papel e caneta de dentro da bolsa, desenha uma runa de canto a canto e tranca a coisa no guarda volumes. O escapamento se cala de imediato.

O veículo percorre um caminho tortuoso do extremo leste até o bairro da Luz. A paisagem é ilustrada por desde os cenários retratados no jornalismo pinga-sangue, até as vitrines falsas que publicitários criam pra vender a São Paulo limpinha da novela das oito. O motorista te acorda com a buzina, procurando uma vaga. O caminhão estaciona e você já nega de bate-pronto quando um maluco estropiado aparece te pedindo cinco reais. A molecada abre o baú carregando o equipamento do caminhão enquanto o motorista tira um lanche debaixo do assento e oferece pro maluco. O figura não só rejeita como sai cambaleando com as vistas pro chão, na busca procura de uma pepita de crack disposta a lhe garantir cinco segundos de plenitude.

Numa lufada de ar, você joga a mochila nas costas e segue o grupo pra portaria do prédio.

O elevador range no abrir das portas, reclamando da idade. No meio do trajeto as luzes piscam. A lata de gente sacode e ameaça despencar “de leve”. Quase em silêncio, você balbucia impacientemente um banimento básico. O susto morre num som de sineta das antigas, anunciando o abrir das portas como se nada tivesse acontecido.

 Você cumprimenta o dono do apartamento logo depois do motorista.

— Chegaram rápido! — O homem exalta.

— É que a gente mora aqui do lado. – O motorista mente – O bom é que a gente gosta de acabar cedo.

Das regras malditas: rico prefere um tiro na boca a um pobre tocando em seus móveis. Isso foi repetido vezes o bastante pros dois moleques temerem um tapão por parte do motorista, caso dessem com a língua nos dentes.

Você sente cheiro de apresuntado no caviar que o dono tenta expor num arroto vanglorioso. Ele chega a inflar os pulmões ao mencionar o tempo em que o apartamento está nas mãos de sua família. Que compraram na planta, que pagaram pouco e que os móveis são de alguma árvore que você ignora a espécie. Rachaduras nas paredes discordam da fala pavonesca. Ele continua, diz que a residência é de um tempo em que sobrenomes com mais consoantes do que vogais a frequentavam pra definir o futuro do país. Você boceja com naturalidade. Odeia pessoas que têm fluência em falar de si mesmas e odeia mais ainda o típico herdeiro que goza com pau dos outros. Ele explica que só falta aquele imóvel pro prédio ser considerado vazio e, numa velocidade morbidamente alta, emenda relatos que vão desde o falecimento recente da mãe até o montante de grana que receberá da empresa disposta a comprar o terreno, dinamitar tudo e transformar num empreendimento comercial megalomaníaco.

— Onde ela morreu? ­­– Você corta a tortura sonora quando ele ensaia um discurso sobre bitcoins. Trampar nesse ramo te dá experiência o suficiente pra entender que existe gente tão pobre, mas tão pobre, que nada tem além de dinheiro. O típico caso de quem acha que tem tudo, até cair na real que, pra certos problemas, ter somente isso significa o mesmo que não ter nada.

Geral te olha de soslaio, o motorista engole meio litro de saliva, menos pelos nervos e mais pela porta se abrindo sozinha atrás do dono. Com uma olhada rápida, ficam claras as silhuetas que dançam num espaço que deveria ser vazio a olhos espiritualmente ingênuos.

— Casa cheia, então?

O dono dá meia volta com o sangue do rosto entrando em greve.

— Ninguém mora aí, pode entrar. – ele balbucia.

— Não que você saiba — você se delicia com o dono segurando o esfíncter. Completa em direção aos moleques — Nem uma cadeira sai da casa até eu terminar, demorou? — Você pergunta sem esperar resposta.

O quarto onde a mulher fez sua passagem fede a farmácia. A mistura de odores ganha toques do carvão que você armou no acendedor recém tirado da mochila. As rachaduras nas paredes crescem. O acabamento inicia um alternar de saltos de fé do teto ao chão conforme a coisa avança. Nem fodendo que essa boca de porco vale algo além da reforma. Você queima o incenso nos quatro cantos do quarto e termina de montar o fumo no rosh. Enquanto rosqueia o narguilé, sons de unhas raspando as paredes lhe convidam a cair fora.

— Tá tudo bem aí? — o dono grita. Geral acompanha o ritual pela porta aberta, mas sem coragem de entrar.

Você troca passos até a suíte, procurando algo que não caberia na mochila. Saindo de lá, dá uma última olhada nos caroços que o espiavam e bate a porta na cara deles pra casa informar o quanto são bem vindos. Por fim, coloca a vassoura atrás da porta e passa a tranca desenhando uma runa no cabo.

— Agora nem o diabo entra, se é que já não entrou.

Você puxa o tarot da mochila com sussurros lhe jogando ideias erradas aos ouvidos. O calor na orelha esquerda grita sobre a falta de segurança.

Numa embaralhada rápida, pergunta qualé o rolê da casa.

Passado, presente e futuro…

O Pendurado dedura um passado de ciclo sem fim

A Lua marca o presente. Dos mistérios, da névoa e, o mais importante, do entrelace com o sobrenatural.

Um dos carvões no acendedor explode. Faíscas infinitas se misturam à massa corrida caída no piso de taco. Você escuta um riso canalha na orelha esquerda e quase ri junto com o hálito presente em sua nuca. Você sente os pelos na espinha crescerem, olha pros lados à procura de um observador. Com a mangueira na boca e uma tragada digna dos antigos comerciais da Marlboro, solta a fumaça e deixa a magia acontecer.

Uma…

Duas…

Três…

A Babilônia esfumacenta toma o quarto pra si no sabor canela. No sabor do fogo. No fogo do mago. Da onipotência que só você pode ter ali, caso não queira terminar numa foto exposta no programa do Datena, como rolou com os caras das últimas duas mudanças. No meio da neblina, você analisa o quarto da velha morta e imagina uma cela superlotada do antigo Carandiru, sem notar diferenças entre um e outro. Afogadas na fumaça, silhuetas tomam vida, ou algo próximo disso. Há quem bafore latinhas nos cantos do quarto, uma idosa com o estômago aberto perece na cama com as vísceras se fazendo banquete de almas famintas. Há corpos pretos acorrentados naquele lugar. Marcas de tiros por toda a pele. Boatos materializados que te encaram como animais prestes ao bote, mas com gemidos de dor ao invés de grunhidos de fúria. Você encontra em cada silhueta o tipo de fim que o SPTV não mostra. Naquele apartamento, outrora vazio, é como se um assentamento de condenados se fizesse intransponível. Das rachaduras crescentes, o apartamento grita que jamais tombará, pois o ódio é a argamassa perfeita quando uma estrutura se sustenta no auge da nêmesis. 

A casa fala. A casa sente. A casa age.

— Ninguém vai sair daqui. – diz uma mulher segurando no colo o corpo de um bebê que não chora ou se mexe. Ela se senta no lado oposto de onde o narguilé se mantém de pé, antes de completar. — E nem vocês!

 Você puxa a terceira carta num assobio que lhe ergue as sobrancelhas.

A Temperança marca o futuro – pois paciência é uma virtude.

***

Das regras não ditas da vida, algumas se fazem leis. Um conjunto de regras inexoráveis praqueles cujos pés tocam o chão, e que contra a luz criam sombras. O conceito de “lei que não pega” inexiste.

Casas lembram.

Se pouco antes do SPTV você chega em casa e, empurrando com o calcanhar, a porta fecha sem nem deixar o som da tranca atrapalhar seus parceiros no telefone, isso não cagueta as merdas que rolaram no dia, mas avisa que nenhuma delas atrapalhará a vida dos que ali vivem.

Casas acolhem.

— Outra proposta pro manuscrito? — você pergunta pra companheira sensitiva, que por sua vez faz um sinal de positivo e se despede da chamada. A TV ligada sem ninguém prestar atenção. A escalada do jornal cobrindo a crise do edifício “Nossa Senhora da Temperança”, o mais novo elefante branco da região da cracolândia. Nenhuma empresa ousa locar a estrutura por conta dos boatos sobre espíritos que rondam os corredores luxuosos. E conforme as notícias imortalizam a lenda urbana, capaz que jamais sejam esquecidos. 

— Mano… – seu companheiro sai do banheiro com o celular na mão enquanto responde e-mails de propostas. O telefone na sala toca mais uma vez, então sua companheira desliga, pois já passou das 18h. — Desde que desenterraram o ritual que tu mandou aquele cliente enfiar no subsolo do prédio, não param de vir propostas da TV a fim de comprar tua história. Acho que dessa vez vai rolar.

A cena pula pras ações em queda da empresa que fornece energia elétrica, pras sucessivas falhas da rede em todo o país. O SPTV não cita o ritual, tampouco a quantia pornográfica que o dono precisou enterrar junto pra aquietar a vingança dos “moradores” dali. Não cita que ele precisou apanhar pra dar o braço torcer e o carreto fazer seu trabalho, e tampouco que foi você quem garantiu a boa daquele dia. Você sabe que há valor em ser o primeiro a escrever a história daquele prédio assombrado, mas também sabe que dar casa aos pobres, sejam estes vivos ou desencarnados, não faz mal pra saúde e nem pros negócios.

— Se vier uma proposta boa pra espalharmos mais sobre aquela gente, é moradia garantida pra eles. – Você diz e, num beijo estalado e sorridente em ambas as bocas, tropeça no carpete, mas segue até o banheiro já mirando as ervas ao fundo. — Preciso tomar um banho antes da gente jantar… se já estão ligando por causa daquele trampo, nem queiro pensar como vão ligar por causa da que vão me levar pra fazer amanhã.

 

AJ Oliveira é escritor, tendo publicado Asas, pingentes e imortais, e podcaster, à frente do programa Os 12 trabalhos do escritor.

Enéias Tavares é escritor, professor e tradutor, e tem trabalhado com projetos transmídia envolvendo a série Brasiliana Steampunk (brasilianasteampunk.com.br). Seus livros já foram publicados por editoras como LeYa, Avec, Arte & Letra e DarkSide Books. Sua curadoria em Encontros valoriza a produção insólita nacional, partindo do projeto Fantástico brasileiro (fantasticobrasileiro.com.br), sediado na Universidade Federal de Santa Maria (UFSM).

Coluna escrita por:

Enéias Tavares

Enéias Tavares

Escritor, professor e tradutor.
Compartilhe