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"Encontros com a nova literatura brasileira contemporânea": Cacá Fonseca

O livro de Cacá Fonseca toca profundamente ao nos permitir adentrar no duelo que ela travou com a morte

Publicado em 08/09/2022

Atualizado às 17:03 de 19/09/2022

A série Encontros com a nova literatura brasileira contemporânea apresenta o trabalho de escritores da cena literária recente, com uma seleção atenta à produção de todas as regiões do país. Neste ciclo, a curadoria e a apresentação são da pesquisadora Fabiana Carneiro da Silva.

Encadernado de modo artesanal, o livro é revestido por uma longa pele que se faz em algodão cru, estampado manualmente por um carimbo vermelho que grafa em tipografia antiga seu título: Ofidiarium (2020). O desvelar da obra provoca, assim, a experiência material de se ver nascer por entre nossas mãos uma serpente, uma pele de serpente, a qual, compreendemos depois, é transfiguração da pele da própria autora, Cacá Fonseca, multiartista nascida em Goiás. Essa porção de corpo – simbólica e material (haja vista o rastro do corpo da autora que produz o próprio livro) – que temos em mãos diz muito sobre o gesto de partilha da intimidade que esse diário perfaz. “Feito em sonho durante a travessia de dois desertos concomitantes, a pandemia e o câncer”, o livro de Cacá em texto e imagem poetiza e ritualiza o processo de enfrentamento de um câncer de mama vivido pela autora. Conforme vocês verão na breve seleção de fragmentos que aqui partilhamos, bem como no vídeo Despedida, em que um dos textos do livro é vocalizado em performance prévia à mastectomia* que Cacá realizou, o signo “ofídio” é o território em que se enraíza o gesto de criação artística. A conhecida característica das serpentes de trocar de pele é evocada como alusão ao processo de metamorfose do corpo-subjetividade da autora. Nessa esteira, adensando tal compreensão, o que este livro parece me dizer é sobre a escolha do âmbito literário como um “espaço para morrer”. É Maurice Blanchot, em O espaço literário (2011), quem, questionando a noção da escrita como uma estratégia de viver eternamente, isto é, de ser uma “maneira memorável de unir-se à história”, propõe: “O escritor é então aquele que escreve para morrer e é aquele que recebe o seu poder de escrever de uma relação antecipada com a morte”. O livro de Cacá Fonseca me toca profundamente justamente ao criar uma forma que nos permite adentrar no soturno duelo que ela travou com a morte. Esse primeiro livro da autora – híbrido em sua configuração textual – elabora, portanto, uma “poética do morrer” e, como não poderia deixar de ser, em sua contraparte dialética, é também uma celebração da vida. Da vida que serpenteia espiralada, desenhando no Tempo o movimento do infinito, o movimento do próprio movimento, que, borrando as fronteiras entre começo e fim, chegada e partida, embala o mistério da existência. 

 *Cirurgia de remoção da mama.

A escritora está em primeiro plano, com uma blusa branca. Atrás dela, do lado direito, há um estante de livros.
A escritora Cacá Fonseca (imagem: Acervo pessoal)

textos de Ofidiarum

Ofidiarium é um livro íntimo, feito em sonho durante a travessia de dois desertos concomitantes, a pandemia e o câncer,

                      tempo,
                      veneno,
                      química. 

 

 

Eu te reverencio, cobra
SERPENTE
sempre senhora, sempre velha
ainda criança, já velha, muito velha

Absorve o tempo do chão
chupando no corpo o pó invisível
do rastejamento
de encostar, esfregar
Barriga-corpo-inteira
Rente ao chão

Esse viver deitado
sem pés, mãos, pernas, pescoço, braços
Esse corpo membro único
um tudo de flexibilidade
lingual
lábios
mola
ondulações

Poderia, com muita coragem,
te comer inteira
te devorar
ser teu túnel
por onde você, mulher, senhora,
Ancestral
Entre em mim
— Você cabe nos meus buracos.

 

 

encontrei um enigma na palavra mama, talvez seja um mistério sabido por vocês, mas pra mim, nesse hoje denso, tempo sobre tempo, resolvi escrever pra vocês que tem me acompanhado como guias, xamãs, gurus-gurias, oráculos, calor, voz e corpo e contar desse enigma.

Mama e amam revelaram-se enlaçadas como um infinito de corpos, uma na outra, aquela imagem sem princípio e sem fim, uma tornando-se outro... ou o infinito tridimensional como cortou Lygia Clark em 1963 na obra que ela chamou caminhando...

me sinto assim, esse infinito caminhando, ando, estando, percorrendo o infinito que liga mama e amam e talvez agora o enigma já esteja desvendado pra vocês... mas vou insistir em revelá-lo tal como uma cartomante da cura, do futuro ou da curiosidade...

MAMA AMAM MAMA AMAM MAMA AMAM MAMA AMAM MAMA AMAM MAMA

encontrar o amor e no plural e encarnado em nós sujeit_s eles elas elxs amam diz muito do estar caminhando nesse deserto...

mama, na primeira direção, aquela fundada pela  linguagem ocidental...

amam, na direção inversa, mas sobreposta, espiralada, que torna infinita a linguagem do ocidente e a realinha ao movimento solar, que se faz de leste a oeste, da direita para a esquerda...

e reler essas letras no alinhamento do movimento solar, parece ancorar outro calor na palavra, essa mesma, que agora entendo como uma única, amam mama; e mais próximas amammama; e em outra ordem mamaamam; e agora em infinito amamamamama,

são apenas 2 letras assim como são apenas 2 peitos,

mas quão infinito de afetos, nomes, datas, espaços, músicas, rostos, sorrisos cabem nessas 2 letras que reembaralhadas pela estrela sol, fazem nascer pra mim o sentido maior da vida, quando hoje, dia 5 de outubro sinto como a vida me emociona,

as crianças, o céu, o alimento, a conversa, a saudade, as águas...

Tenho me dedicado a uma leitura bonita sobre a metamorfose. Ali encontrei um sentido precioso para me acompanhar na travessia desse deserto. A nossa existência nesse aqui-agora como sopro e como forma e fiquei com uma vontade imensa de contar pra você esse enigma, que dizem do sopro e da forma, amam é sopro, mama forma...

E pensando no sopro, me lembrei daquele sopro nas brasas quando a fogueira está prestes a apagar, sopro de renascimento da brasa em chama; do sopro do vento na vela do barco capaz de deslocar na densidade do mar esse pequeno corpo; do sopro das velinhas de aniversário, momento muito amado por mim, aquele ínterim de repactuar com a vida esse novo ciclo, de me sentir acompanhada pela minha gente, de desejar em segredo e silêncio um porvir sempre tão vasto...

amanhã posso dizer, com muita convicção, a retirada das mamas são também a prova carnal, da carnadura da pele, dos tecidos, das glândulas de que o amor, o amor plural é que ancora o sopro da vida, a forma está em contínua metamorfose pra mover o barco, reacender a chama e repactuar com a vida nossa vontade de estar aqui...

entro às 7 horas na cirurgia e deixo aqui um convite para vocês me enviarem um sopro, de qualquer distância, em qualquer tempo, com a certeza de que chegarão aqui em

mamaamamamamamam

 

 

“O ciclo da transmutação, que consiste em viver-morrer-renascer, é simbolizado pela troca de pele da cobra. A energia da cobra é a energia da totalidade da consciência cósmica e da capacidade de viver todas as experiências de peito aberto, sem oferecer resistência” – carta xamânica

Cobra
Venha deslizando
Com fogo nos olhos

Morda-me
Desafie-me
Permita
Que eu me realize.
Seu veneno transmutado
Acende a chama eterna
Abram-se as portas do céu,
Cura-me mais uma vez!

 

Cacá Fonseca é artista gráfica. Pesquisa as cosmopoéticas do livro, da palavra e das imagens da diferença. Mestre e doutora em processos urbanos contemporâneos pela Universidade Federal da Bahia (UFBA), é professora do Departamento de Artes Visuais da Universidade Federal da Paraíba (UFPB). É cofundadora da editora Sociedade da Prensa. Como editora publicou em caráter colaborativo os livros: Cambana, Kijetxawe zabelê – Aldeia Kaí, Atxuhú KaíTopografia aérea: uma fábula sobre poleiros e artistas Expedição catástrofe: por uma arqueologia da ignorância e Bahia de todos os tipos. Atua desde 2008 na consolidação da Fortaleza das Onças: núcleo rural de experimentações artísticas e ambientais, em Goiás. É mãe de Aurora e Violeta, com quem sonha as atividades do Ateliê Gurugurias – um espaço doméstico de criação.

Fabiana Carneiro da Silva, neta de Amada e de Quiteria, filha de Lourdes e mãe de Imani e Yeté, tece um caminho que alinhava docência, pesquisa e ações artísticas no campo dos saberes contra-hegemônicos, sobretudo a partir do eixo constituído por literatura, corpo e experiência comunitária. Doutora em teoria literária e literatura comparada pela Universidade de São Paulo (USP), atua como professora adjunta do Departamento de Letras Clássicas e Vernáculas da Universidade Federal da Paraíba (DLCV/UFPB).

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