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Em “Perê”, Daniel Moraes reinterpreta o Saci sob nova perspectiva

Livro terá pré-lançamento no \\ENTRE\\ mostra de artes e cultura def 2026

Publicado em 05/05/2026

Atualizado às 10:55 de 05/05/2026

por André Felipe de Medeiros

Muito antes de nascermos, o Saci-Pererê já não era apenas um personagem muito conhecido nacionalmente, mas um verdadeiro ícone do imaginário brasileiro. Dos mitos populares aos clássicos da produção cultural, o menino travesso, de gorro e cachimbo, é onipresente. O que mais há de se falar sobre ele?

No livro Perê, o artista Daniel Moraes propõe uma nova perspectiva: a de uma pessoa com deficiência sobre um personagem que, por tudo o que é conhecido, tem como característica mais definidora o fato de ter uma só perna. Ou seja, o olhar capacitista reconhece o saci em primeira instância por sua deficiência. Na edição de 2026 do \\ENTRE\\ mostra de artes e cultura def, Daniel realiza o pré-lançamento da obra, com mediação da co-curadora do evento, Brisa Marques. O evento acontece na quarta, 6 de maio, às 18h, na sede do Itaú Cultural em São Paulo.

“É uma versão minha sobre o Saci-Pererê que vem evidenciar uma nova camada, relacionada principalmente com a deficiência e de forma que pudesse construir uma nova história sobre o personagem”, diz o artista, “é uma história com filtro anti capacitista e bastante poética, preservando a sua fabulação para que possamos imaginar outras histórias não capacitistas”.

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Uma fotografia em plano médio, com fundo em tons de cinza e branco, mostram um homem de pele clara e cabelos curtos e escuros. Ele veste uma camisa cinza de mangas longas e calça azul-escura e está apoiado em uma parede branca com os braços cruzados, encarando a câmera com seriedade. Ao fundo, uma grande peça de tapeçaria branca está pendurada na parede, com um desenho em preto de uma cama e travesseiros. À direita, pequenos desenhos brancos e pretos estão pendurados na parede, e a luz natural entra pela janela lateral
Daniel Moraes (imagem: Heverton Harieno)

Primeiras linhas

Daniel Moraes é artista visual, curador, educador e diretor da plataforma DEMONSTRA. Sua pesquisa no mestrado investigou a imagem do corpo com deficiência na história da arte, e a relação da representação das pessoas com deficiência com monstros. “Uma das características mais marcantes e muito presente em qualquer monstruosidade é a questão da deficiência”, explica o artista, “não existe nenhum monstro que não tenha algum tipo de deficiência, seja ela física ou psicológica. Ao investigar figuras do repertório brasileiro, me deparei com o Saci-Pererê e percebi que precisava repensá-lo”.

“Se colocarmos uma lupa mais realista sobre a figura do Perê, percebemos que ele é um menino com deficiência. E um menino marginalizado, com muitas camadas para além da deficiência”, conta Daniel, “uma das coisas que mais me chamavam atenção era o próprio nome Saci-Pererê, tradução do Tupi para ‘a dor que pula’. Isso era um choque para mim, vi que tinha muita coisa para falar sobre ele, porque uma das coisas que mais significam sua identidade, a partir do nome, é essa associação à sua deficiência de uma forma muito densa, muito potente, temos que olhar para isso de alguma maneira. Entendi que era um assunto que precisava ser revisitado”.

De volta ao Brasil, após o mestrado em Portugal, o artista começou uma pós-graduação em livro infantil ilustrado, que o ajudou a pensar a obra para o universo das crianças, com o qual ele ainda não havia trabalhado em sua arte. Para isso, ele estudou também o que já conhecemos do personagem, desde as fábulas da tradição oral brasileira até o famoso livro de Monteiro Lobato, publicado em 1921. 

“Eu tinha muito conceito por trás, e um repertório denso de referências dentro da investigação artística”, explica ele, “entendi que tinha que decodificar tudo isso em uma linguagem poética e, de certa maneira, acessível ao público infantil”.

Um homem de pele clara, vestindo blusa preta e calça jeans, caminha da esquerda para a direita em uma galeria de arte. Ele tem cabelos curtos, raspados nas laterais. O chão do espaço amplo e branco está forrado com diversas folhas grandes de papel pardo e telas, contendo desenhos manuais com formas, rostos e linhas, predominantemente em tons de preto, azul e rosado. O homem atravessa o espaço entre as obras dispostas pelo chão. O ambiente é iluminado, com paredes brancas.
Daniel Moraes (imagem: acervo do artista)

A forma do livro

O livro Perê, enquanto objeto, é também uma obra que desafia nosso olhar sobre a figura do Saci-Pererê em seu formato. A ideia inicial, conta Daniel, era que nossa leitura girasse como o redemoinho do personagem - um conceito que, por mais interessante que fosse, se mostrou impossível pela não-linearidade do giro, ou seja, o fim emendava no início. Ainda assim, a solução encontrada é também uma quebra de paradigmas normativos da leitura.

“A materialidade veio da busca do imaginário do aleijado, do corpo que é um fragmento, que é dito imperfeito”, conta o artista, “até pelo ritmo do próprio Perê, do salto e do aparente desequilíbrio em sua forma de caminhar, eu queria que, de alguma maneira, o ritmo da leitura fosse quebrado”. Para isso, Daniel brinca com os eixos horizontais e verticais das frases, “para as pessoas perceberem esse desvio da leitura. E tem tudo a ver com um aleijo, com esse corpo desviante”.

A escolha das ilustrações feitas com recortes e com carvão também está intimamente ligada ao conceito de Perê. “O carvão é um material que eu utilizo muito dentro da minha prática artística e ele tem esse aspecto que ele te induz ao erro muito fácil”, explica Daniel, “é um material muito volátil, que cria um risco muito irregular. Ele cria uma gestualidade muito propícia para o erro, mas, para mim, isso é fantástico, porque ele respeita o peso da minha mão, ele respeita o meu erro”.

“Queria trabalhar com colagem e recortes, então toda a composição foi sendo recortada - eu fazia alguns desenhos e recortava fragmentos. Esse processo fala de fragmentos, do aleijo e da deformação enquanto materialidade dessas coisas. Tem muito a ver com imperfeição e deformação. E o recorte também tem um grande significado para mim. Dentro da minha pesquisa artística, revisito esses instrumentos manuais de corte para falar de uma coisa muito pessoal, que é a minha amputação da mão”.

Foto em close-up de um braço e mão sobre uma superfície branca. A mão é parcialmente amputada e a pele está coberta por uma substância preta e densa, semelhante a carvão ou pigmento, que se concentra do punho até o polegar. A mão está aberta e estendida. Acima da mão, na superfície branca, há um pequeno montículo da mesma substância preta, com formato irregular e denso. O fundo é uma superfície branca com marcas de rastro da mesma substância, sugerindo um processo de manuseio ou criação artística manual.
Daniel Moraes (imagem: arquivo do artista)

O corpo na cultura

O pré-lançamento de Perê faz as vezes de abertura para o \\ENTRE\\ mostra de artes e cultura def 2026. Sobre o evento, Daniel diz que parte de sua relevância vem de sabermos que “existe uma invisibilidade secular do corpo com deficiência, e que essa história foi contada e apagada pelo olhar normativo. É um momento muito tardio de entendermos que a deficiência é uma ciência que produz conhecimento e que precisa se manifestar dentro da cultura”.

Para o artista, espaços como o \\ENTRE\\ são importantes como “construção de território” para atuação de artistas def, para muito além da questão da visibilidade. “O artista com deficiência vai fabular outras perspectivas e criar outro futuro ao colocar o conhecimento do seu corpo na cultura de uma maneira própria”. Daí também a importância da diversidade de corpos, vindos de diferentes contextos, para compreendermos melhor as inúmeras possibilidades da cultura def.

“Não podemos identificar a poética da deficiência de maneira muito clara, porque sabemos que a deficiência também não é padronizada. Ela não é um processo de identificação, muito menos da construção de uma identidade. Temos que tomar muito cuidado e deixar a poética da deficiência vibrar em inúmeros lugares, e não ser uma construtora de uma identidade específica, já que o corpo com deficiência também não é específico”.

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