Moira Braga compartilha detalhes de sua participação no \\ENTRE\\ mostra de artes e cultura def 2026
Publicado em 05/05/2026
Atualizado às 18:17 de 05/05/2026
O nome Hereditária tem ligação direta com uma rara doença, chamada Stargardt, que tirou a visão da atriz Moira Braga aos sete anos de idade. No espetáculo, o termo ganha várias outras conotações para além da genética, ao comentar aquilo que se herda também como sociedade e como cultura. A obra tem seu lugar na programação do \\ENTRE\\ mostra de artes e cultura def 2026, com apresentação marcada para as 21h do sábado, 09 de maio, no teatro do Itaú Cultural.
Nos dois dias anteriores (07 e 08), Moira ministra a oficina Corpo, cena e acesso, que propõe um trabalho de investigação corporal para pessoas, independente do corpo que tenham, entenderem que podem ser ferramentas de comunicação. No mesmo dia 07, a artista participa da mesa Acessibilidade estética: a linguagem expandida dos corpos ao lado de Giovanni Venturini, com mediação de Claudio Rubino.
“O que mais me chamou atenção quando conheci o \\ENTRE\\ foi a valorização dos processos”, conta Moira, “poder apresentar o que estamos estudando e pensando, não necessariamente uma obra pronta. É o que possibilita o desenvolvimento de uma cultura”. Ela, que foi curadora da mostra em 2021, observa que o evento tem “papel importantíssimo de fortalecer os artistas também enquanto pesquisadores. Fico muito feliz de poder voltar a São Paulo para esta edição”.
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Em cena
“A beleza do teatro é o trabalho artesanal, que se constrói todos os dias”, conta Moira Braga, que comemora a oportunidade de apresentar Hereditária desde setembro de 2025. “Como atriz, é uma delícia poder aprimorar minha atuação e viver o processo de descobrir coisas novas na peça”.
Para conceber o espetáculo, Moira convidou o diretor Pedro Sá Moraes, que assina também as canções originais de Hereditária. O bailarino e coreógrafo Edu O, o primeiro professor de dança cadeirante em uma universidade pública no Brasil, é responsável pela direção de movimento.
“Inicialmente, eu não queria que fosse uma história autobiográfica”, explica Moira, “mas, fui percebendo ao longo do processo, que quanto mais pessoal é uma obra, também mais universal ela se torna, porque todo mundo se identifica com alguma coisa. Em Hereditária, falamos sobre heranças congênitas, culturais, sociais e políticas. Sobre as heranças que queremos ter e as que não queremos, também as relações de vida e morte, encontros e desencontros. Todos, em algum momento, se veem na peça. Isso é muito bonito”.
A peça incorpora audiodescrição e tradução em Libras – interpretadas por Isadora Medella e Luize Mendes Dias – organicamente em sua dramaturgia, não como recursos adaptados para acessibilidade. Há também exploração tátil prévia do cenário para pessoas cegas, ou de baixa visão.
“Meu barato é esse quebra cabeça”, comenta a artista, “o desafio de encontrar uma estética que fica interessante para todos, e que não fique caracterizada como uma arte estereotipada. Estamos sim fazendo uma arte aleijada, mas do lugar dessa potência”.
Fora do palco
O que Moira Braga viverá nesta semana no \\ENTRE\\, seja na oficina, na mesa de bate-papo e, é claro, na apresentação da peça será uma experiência de troca - com o público e com outros artistas def. E essa tem sido sua vivência de trabalho, sobretudo com Hereditária.
“Tem sido muito bonito notar as conexões”, explica ela, “as pessoas vêm falar comigo depois da peça para conversar sobre algum tema do espetáculo. E é interessante notar que são públicos muito diversos, inclusive de pessoas que não estão acostumadas a ir ao teatro. São recepções também diferentes, tem gente com olhar de ‘história de superação’, tem quem não acredite que a história é minha. Preciso dizer ‘é sim, olha esse piso tátil, é porque eu sou uma artista cega, ele me ajuda a me orientar’. E percebo também o olhar da surpresa e da admiração pelo que estamos fazendo”.
“Mesmo para quem está habituado ao teatro, essa linguagem surpreende. Percebe que é Hereditária é feito com uma linguagem ‘fora da caixinha’. Isso é resultado de uma pesquisa de muito tempo na minha vida artística, de como trazer Libras e audiodescrição para a dramaturgia”.
Sobre o que experimentará na mesa e na oficina, Moira conta que “sempre tenho uma ideia, mas, por já fazer isso há muitos anos, tenho que ir muito aberta para sentir qual o público que estará ali. O que vou levar é minha expertise enquanto artista cega, e minha pesquisa que respeita as diversidades de corpos como possibilidades ímpares de movimento”.