Por Marcella Affonso

“Nós caminhamos para nos encontrarmos e falarmos com nossos parentes. Às vezes, caminhamos por causa do falecimento de nossos parentes. Mesmo em lugares distantes, se estamos dispostos. [...] Quando nós precisamos deles, nós vamos. Quando eles precisam de nós, eles vêm. E essa é a vida dos Guarani. Se não estamos tranquilos em um lugar, nos mudamos para outro. Nos mudamos para outra aldeia ou saímos em busca de um lugar para construir uma nova aldeia. Desde os tempos antigos, esse é o nosso modo de ser. Nós caminhamos.”

É assim que Elsa Chamorro, indígena da aldeia Koenju, de São Miguel das Missões, no Rio Grande do Sul, explica a ancestral prática Mbya-Guarani da jeguatá, termo que significa “caminhar” em seu idioma de origem e possui um amplo significado na cultura dessa população. O depoimento, registrado em vídeo, faz parte do conjunto de fotografias, filmagens e outros objetos digitalizados que compõem o site Jeguatá: Caderno de Viagem, o qual acaba de ser lançado em edição bilíngue (português e guarani) para acesso do público.

Pensado como um caderno de notas, o site remonta a viagem que os artistas Ana Carvalho, Fernando Ancil e os cineastas indígenas Ariel Kuaray Ortega e Patrícia Ferreira Para Yxapy fizeram de Koenju à aldeia Pindó Poty, na Argentina, buscando seguir os traços do tradicional caminhar Guarani, tanto na sua dimensão mítica, em busca da “terra sem males”, quanto cotidiana, quando praticada para visitar parentes, trocar sementes de plantio e matéria-prima para a confecção de artesanatos ou ainda para buscar novos territórios onde erguer suas aldeias. No caminho, passaram por antigas ruínas jesuíticas e outras aldeias Guarani cercadas pelo universo do agronegócio, remetendo, ao mesmo tempo, às histórias antiga e recente de desterro e resistência dessa população. “Procuramos entender quais eram os limites entre esses territórios [Guarani e não indígena], tanto físicos quanto simbólicos. Isso foi uma constante durante a viagem”, explica Ana.

Elsa para Júlia | foto: Jeguatá: caderno de viagem

Contemplado pelo Rumos Itaú Cultural 2015-2016, o projeto buscou ainda, e sobretudo, compreender o modo como os Mbya seguem resistindo e se reinventando, busca empreendida e materializada no site de forma singela, como conta Ana: “Não tivemos a pretensão de dar conta de todo o universo Mbya. A ideia era trazer um pouquinho desses encontros, dessas narrativas da caminhada Guarani nesse território que eles habitam e transitam, mas tudo de uma maneira muito pequena”. Fernando reforça: “É um trabalho bem simples, mas carregado de muito afeto. Acho que ele é muito rico nesse sentido”.

Iniciado em janeiro de 2017, o deslocamento de ida e volta de uma aldeia a outra ocorreu em sua maior parte de carro e durou cerca de 15 dias. Patrícia e Ariel foram os responsáveis por propor o trajeto percorrido e por introduzir Ana e Fernando nas comunidades por onde passaram. “Os dois guiavam as conversas com os caciques e outros moradores das aldeias, nos orientando e abrindo passagem para que o trabalho pudesse ser realizado com confiança e participação da comunidade”, conta Ana. A escolha do percurso, explica ela, se deu de forma afetiva: Patrícia e Ariel optaram por visitar aldeias onde tinham parentes próximos e aldeias desconhecidas por eles, mas pelas quais seus pais e avós já haviam passado.

De meros registros a objetos de troca

Todos os documentos digitalizados que se encontram no site foram coletados pelos viajantes ao longo do caminho: são recortes de jornais, mapas e embalagens de alimentos e bebidas, entre outros objetos relacionados aos Guarani que indicam a trajetória percorrida. Da viagem também resultaram as fotos analógicas e digitais produzidas – tiradas pelos quatro – e os vídeos realizados – dos quais Patrícia e Ariel participaram na mediação com os entrevistados.

Patrícia, em Koenju - foto: Jeguatá: caderno de viagemCabeça de onça - foto: Jeguatá: caderno de viagemJúlia, em Pindó Poty - foto: Jeguatá: caderno de viagemJúlia e família, em Pindó Poty - foto: Jeguatá: caderno de viagemMarcelo, em Pindó Poty - foto: Jeguatá: caderno de viagemMilho nativo, em Jejy - foto: Jeguatá: caderno de viagemRomy, em Koenju - foto: Jeguatá: caderno de viagem

No decorrer do processo, as fotografias e os vídeos – sobretudo as polaroids, por seu caráter instantâneo – ganharam a função de objeto de troca entre parentes e aldeias distantes. “Elsa, por exemplo, tinha uma prima que não via há mais de 30 anos, Júlia, que por sua vez reencontrou o irmão através do filme Tava, a Casa de Pedra (produzido pelo Vídeo nas Aldeias) e para quem gravou uma videocarta. Essa é uma dimensão fundamental do projeto”, comenta Ana.

Sem rumo

Mais que um conjunto de páginas on-line, o resultado final do projeto Jeguatá é uma espécie de instalação. Nele não há um menu tradicional, mas um índice que remete a uma tabela de jogo dos sonhos coletada em uma cidade próxima a Pindó Poty, a partir do qual é possível acessar os documentos, as fotos e os vídeos, ligados entre si por diferentes associações. Projetado pela editora gráfica Priscila Gonzaga, o site convida o público a navegar livremente, sem rumo, pelo material coletado e produzido durante a viagem e a descobrir, aos poucos, os pequenos encontros travados durante o trajeto.

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