Sirlene Barbosa e João Pinheiro são convidados da terceira edição da Banca de Quadrinistas e expõem seus trabalhos no evento nos dias 22 e 23 de setembro.

Sirlene Barbosa é mestra em linguística aplicada e estudos da linguagem pela Pontifícia Universidade Católica de São Paulo (PUC/SP) e professora de língua portuguesa. João Pinheiro é artista visual, professor e autor de histórias em quadrinhos. Os dois são autores de Carolina, obra em HQ sobre a escritora Carolina Maria de Jesus indicada ao Prêmio Jabuti.

Como aquecimento para a Banca, os convidados escolheram um de seus trabalhos para publicação no site e comentaram a escolha. Sirlene e João enviaram algumas páginas de Carolina. Confira abaixo:

Por que vocês escolheram essa história?
Sirlene Barbosa
Porque ela [Carolina Maria de Jesus] tem uma importância fundamental como escritora, mulher e negra e pouco, ou quase nunca, aparece nos currículos escolares – pelo menos nos da educação básica. Faço o recorte da educação básica porque fui coordenadora de Sala de Leitura da rede municipal paulista e, a partir de 2014, a Secretaria Municipal de Educação passou a gerir um projeto de leitura de escritores que estão fora do cânone literário e que têm muito a dizer – Carolina faz parte desse time.

Em uma breve pesquisa com uma média de 40 docentes de Sala de Leitura, apenas 5 conheciam a escritora, mas nenhum deles havia usado sua literatura em sala de aula. Em 2014, ano de seu centenário, recebemos alguns livros para compor o acervo da Sala. Recebemos duas caixas com livros do Ferreira Gullar (40 unidades) e duas edições de Quarto de Despejo: Diário de uma Favelada – o grande best-seller de Carolina. Essa discrepância de importância literária – e isso não significa que Gullar não seja importante – me colocou na condição de apresentar a escritora, com urgência, principalmente aos educandos. Acreditei que a história em quadrinhos seria o gênero mais apropriado, pois estudantes curtem muito o gênero e porque tenho um quadrinista em casa [risos].

João Pinheiro O principal motivo é a indignação com o fato de a escritora Carolina Maria de Jesus permanecer quase totalmente desconhecida pelo público. Achamos que ela é uma personagem importante da nossa história, uma pessoa que nos ajuda a entender, inclusive, o século XX no Brasil: o racismo estrutural, o domínio da cultura pela elite, o desenvolvimento das desigualdades no estado de São Paulo – resultante da migração em massa de outras regiões do país, que se intensificou em meados desse século –, o consequente nascimento das favelas e a posterior expansão da cidade para as periferias.

Podem falar sobre o processo de criação dela?
Sirlene Barbosa
Pesquisei toda a obra da escritora, bem como a de pesquisadores que têm a vida e o trabalho dela como objeto de estudo. Fomos à sua cidade natal, Sacramento (MG), pisamos no chão que ela pisou, conhecemos a escola em que ela estudou por apenas dois anos – mas que foram anos fundamentais para sua vida, pois ela não parou mais de ler. Também conhecemos o acervo da cidade, no qual estão algumas páginas originais da autora e objetos pessoais. A partir dessa minha pesquisa prévia e do argumento, o João fez o roteiro, a pesquisa visual e a arte.

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