A lembrança primeira que Chico César guarda de Vitor Ramil tem uma festa como cenário, evento ocorrido em Canela, no Rio Grande do Sul. Ali, aproximaram-se e, tempos depois, na Argentina, o paraibano participou do sexto CD do colega, Tambong (2000). Vitor, por sua vez, recorda-se de uma apresentação de Chico em terra carioca, oportunidade em que o idealizador do álbum Cuscuz Clã (1996) recebeu o gaúcho, de modo gentil e receptivo, no camarim. As memórias pinçadas simbolizam, no fundo, começos de um laço construído com palavras e melodias. Tal amizade é celebrada em dois encontros no Itaú Cultural: em 26 de maio, Chico César é o anfitrião; no dia 27, Vitor Ramil assume a dianteira de uma atividade que, acima de tudo, é um bom papo entre parceiros.

Os lugares de entrevistador e entrevistado, postos alternados a depender da noite, parecem soar, para os amigos, como mera formalidade, elemento logo desmontado por ser diálogo com gente tão próxima. E é prosa mesmo, corrida e franca, que dá sumo à reunião: nada de grandes produções, luzes inflamadas, cenários a tomar o palco. “Não são shows, atenção! São conversas: em um dia sobre o trabalho de um; no seguinte, acerca da obra do outro”, enfatiza Chico.

Ramil, por sua vez, aproveita uma reforma em sua casa, em Pelotas (RS), para aquecer um afeto há muito cultivado: entre um restauro ali e um conserto acolá, ele põe-se a ler e reler, ouvir e reouvir, sentir e sentir de novo o companheiro. “De repente, escuto De Uns Tempos pra Cá (2006), o disco dele que mais gosto. De repente, Estado de Poesia (2015). De repente, o volume Versos Pornográficos (2016). Nesse ambiente da minha formação, lar onde fiz as minhas leituras iniciais, penso bastante nele, um dos meus amigos mais queridos, um dos artistas que mais admiro”, pontua o autor de Estrela, Estrela (1981).

 

Vitor Ramil | foto: Marcelo Soares

Satolep e Catolé, Satolé e Catolep

Chico está em Vitor, Vitor está em Chico, dado que a vivência de ambos se cruza, se acha. O contato com o fabular, substância literária e musical, por exemplo, deu-se em idade tenra para os dois. Na vida do cantor nordestino, o encanto surgiu por meio da literatura de cordel. “Vivíamos na zona rural e o meu pai, ao voltar da feira da cidade aos sábados, sempre trazia um folheto, uma espécie de história curta contada em rimas e impressa numa folha de formato A4. Eu era sempre o encarregado de ler, sob a luz da lamparina, os versos para a família”, rememora a voz de “Mama África”.

Dos 8 aos 15 anos, ao trabalhar em uma loja de livros, álbuns e fotografias, ele percebeu que som, vocábulos e imagem caminham juntos, trio constituinte de ciclo vivo que se alimenta. Já a experiência do sulista principiou com cuidado materno, mãe que o apresentou à coleção O Mundo da Criança. Depois, alcançou Monteiro Lobato, Mário Quintana – que o então jovem poeta tentou imitar –, Jorge Luis Borges e, agora, um sem-fim de nomes.

 

Chico César | foto: Luiz Garrido

O par-eixo dessa cena anda assim: música e literatura trabalham em fusão e, mesmo quando distantes, não cortam elo. “Ficam falando dos outros e de si mesmas, bem e mal. Acho que transam”, palpita Ramil. Sejam artes, sejam músicos, as duplas que forem: um vive no outro, o outro vive em um.


AuTORES EM CENA
sábado 26 de maio de 2018
às 20h
domingo 27 de maio de 2018
às 19h
Sala Itaú Cultural (224 lugares)
[duração: 70 minutos]

Entrada gratuita

[classificação indicativa: 14 anos]

distribuição de ingressos
público preferencial: duas horas antes do espetáculo, com direito a um acompanhante – ingressos liberados apenas na presença do preferencial e do acompanhante
público não preferencial: uma hora antes do espetáculo, um ingresso por pessoa

Clique aqui para saber mais sobre a distribuição de ingressos.

Veja também