Por Fernanda Guimarães

Uma pergunta. Foi a partir de uma pergunta que o Conexões Itaú Cultural ganhou forma, em uma conversa entre Claudiney Ferreira, gerente do Núcleo de Audiovisual e Literatura do Itaú Cultural, e João Cezar de Castro Rocha, pesquisador e professor de literatura comparada na Universidade do Estado do Rio de Janeiro (Uerj). Rocha comentava que a Enciclopédia Itaú Cultural era muito utilizada por professores de literatura brasileira no exterior, e a pergunta feita por Claudiney foi: Quem são e onde estão esses professores que trabalham com literatura brasileira no exterior? O nome do projeto, naquele momento inicial, derivava diretamente do aspecto topográfico da pergunta: Lugares (referência à ideia de lugares de fala dos estrangeiros).

Para começar um texto que deseja ser um registro histórico ou memorialístico de uma década do Conexões Itaú Cultural – Mapeamento Internacional da Literatura Brasileira, é irresistível falar, em primeiro lugar, da palavra que dá nome ao projeto. O nome que se atribui pode cumprir, no mínimo, a função de encerrar ao mesmo tempo uma definição e um desejo, ou seja, neste caso, aquilo que o projeto disse ser em sua origem (seu passado) e aquilo que gostaria de ser (seu futuro). Passados dez anos, com a ilusão de fechar um ciclo, podemos pensar o que foi o projeto até aqui e o que ele vislumbra ser deste ponto em diante.

De acordo com o Houaiss, o substantivo feminino “conexão” é o “ato ou efeito de conectar, de ligar”, como também “o que liga, une, conecta” ou a “relação lógica ou causal; nexo, coerência”. É, ainda, a “ligação social, profissional, de interesses, de amizade etc.” e, especialmente no plural, denota o “arranjo, combinação, indivíduo ou grupo contatado para promover [algo]”. Uma forma de resumir o projeto é dizer que ele é o mapeamento da presença da literatura brasileira fora do Brasil, mas isso talvez seja o seu passo inicial (o aspecto “Lugares”).

Uma qualidade fundamental a nortear o trabalho da equipe do Conexões é a possibilidade de refletir sobre os dados coletados. O nome do projeto diz respeito, então, tanto ao caráter de “ligação” com o estrangeiro quanto à sua possibilidade de inter-relacionar profissionais que têm em comum o esforço no avanço da literatura e da cultura brasileiras fora do Brasil, bem como as possíveis trocas e identificações mais específicas em torno de suas pesquisas ou obras de interesse. Como resultado, podem surgir projetos e mesmo políticas públicas que contribuirão enormemente para o fortalecimento da literatura e da cultura brasileiras.[1]

Há ainda o aspecto tecnológico do nome. Ao longo da década de 2000, estar conectado passou a ter novos significados, bastando evocar, como ilustração, a cena atualmente comum de pessoas esbarrando no que não veem à frente por estarem sempre com os olhos fixos em alguma informação digital que chega via smartphone. Vale lembrar que o iPhone foi lançado em 2007, mesmo ano em que o Conexões teve início, e provocou uma revolução tanto na possibilidade de conexão quanto na interface com o usuário dos aparelhos de celular – algo que se refletiria, daquele ponto em diante, no próprio desenho e estruturação de aplicativos envolvendo os mesmos recursos “intuitivos” trazidos pela inovação de Steve Jobs.

Desde seu início, o Itaú Cultural também adotou a política de publicar on-line todos os dados possíveis do mapeamento, inclusive permitindo o acesso, em cada gráfico, aos nomes dos respondentes daquela opção, com sua microbiografia. Assim, ao clicar na opção “Machado de Assis” na pergunta sobre escritor de referência, o interessado pode saber quais mapeados têm Machado como referência ou objeto de pesquisa em seu trabalho.

O desenvolvimento do projeto começou a ser planejado no final de 2007, quando foi feita uma pesquisa na web para localizar professores e pesquisadores de literatura brasileira em universidades estrangeiras. Essa pesquisa, que minerou cerca de mil nomes, permitiu à instituição ter certeza de que havia um universo significativo para ser mapeado. Nessa época, o mapeamento já contava com o trabalho de Felipe Lindoso, antropólogo e especialista em políticas de livro e leitura do Brasil, tendo publicado e continuamente acompanhado os debates sobre o assunto. Para somar à experiência de Rocha, que tinha passado por universidades na Inglaterra e nos Estados Unidos – sendo, portanto, capaz de fazer uma importante articulação com profissionais da Academia –, Lindoso pôde trazer um outro perfil fundamental para o Conexões (à época, Lugares): o dos tradutores. Ficaram, assim, definidos os perfis que participariam do projeto naquele primeiro momento: professores, pesquisadores e tradutores de literatura brasileira no exterior.

Em 2008, começou o trabalho prático, com a definição do questionário e dos primeiros nomes de participantes a convidar, além do envio e recebimento dos primeiros questionários. Para ajudar Lindoso e Rocha nesse processo, foram chamadas para participar do projeto Rita Palmeira e Adriane Oliveira, pesquisadoras acadêmicas de literatura brasileira em São Paulo e no Rio de Janeiro, respectivamente, cada uma dando assistência a um dos curadores. Ambas dividiam a tarefa de enviar os questionários, processá-los no sistema e criar as minibiografias dos cadastrados. Houve também, desde o primeiro momento, o envolvimento das equipes de tecnologia da informação do Itaú Unibanco e do Núcleo de Inovação do Itaú Cultural para a construção do banco de dados, ao mesmo tempo que o questionário era desenvolvido pelos consultores do projeto. Depois da pergunta original, que se tornou impulso para o projeto, agora tomavam forma as várias perguntas do questionário.

A primeira versão do documento era bastante extensa. Algo que desde cedo se mostrou necessário foi reduzir o tamanho do questionário de forma a tornar o preenchimento menos demorado, mas as perguntas principais mudaram pouco ao longo do tempo. Depois de responder a questões simples de identificação e filiação institucional, informando data de nascimento (dado que pode permitir estabelecer “gerações” de profissionais) e como se classifica (pesquisador/professor/tradutor), o “mapeado” – nosso jargão também herda a intenção cartográfica – responde a questões sobre sua relação com o Brasil, seus interesses, se vão além da literatura (contemporânea ou não) e quais são, se considera que o idioma dificulta a difusão da literatura brasileira. Há ainda perguntas sobre os temas de preferência, os escritores que leu, estudou ou traduziu, sugestões para incrementar a presença da literatura brasileira fora do Brasil, dicionários usados, se eles são satisfatórios e, para os tradutores, se foi solicitado algum apoio à Fundação Biblioteca Nacional ou a outras instituições ligadas ao governo brasileiro para realizar a tradução.

Em 2010, quando o projeto contava com cerca de 150 mapeados, Felipe Lindoso se debruçou sobre as informações coletadas no banco de dados para analisar as respostas à questão de a língua portuguesa ser ou não um obstáculo para a difusão da literatura brasileira. O que encontrou foi intrigante: as mesmas razões são citadas por quem acha que a língua é um obstáculo, quem acha que não e quem se define como neutro. Para Lindoso, isso refletiria a ambiguidade da percepção do português como idioma internacional.[2]

Todas as questões citadas acima geraram gráficos disponíveis no banco de dados on-line[3] do Conexões Itaú Cultural. Mas há ainda muitas questões dissertativas, que configuram um grande repositório de informações relevantes a serem analisadas de forma mais detida em estudos futuros: referências bibliográficas usadas em cursos de literatura brasileira, orientações e temas de pesquisa, publicações, livros traduzidos, participações em congressos, viagens ao Brasil, autores por traduzir e observações gerais sobre a situação atual da literatura brasileira, especialmente em sua relação com outras literaturas familiares ao mapeado.

Uma demanda fundamental, que permitiu a formação da primeira rede de mapeados, encerrava o questionário: a solicitação de indicações de outros profissionais que também poderiam colaborar com o projeto. Solicitavam-se, para usar o vocabulário controlado do projeto, as conexões do mapeado. Essa rede de indicações e a participação dos consultores e das pesquisadoras do projeto em eventos ligados à literatura, assim como a pesquisa proativa (levantamento de listas de tradutores fornecidas por editoras ou instituições, por exemplo), foram importantes estímulos para o aumento do número de mapeados. Um evento fundamental para esse aumento, nos primeiros anos, foi o congresso da Brazilian Studies Association (Brasa), que aconteceu em Brasília em 2010. Foi lá que, em vez de um documento de texto enviado como anexo via e-mail, o questionário passou a ser respondido na plataforma SurveyMonkey. Isso significou um avanço no preenchimento do questionário, que agora podia ser feito mais rapidamente e on-line, com os dados diretamente armazenados na plataforma.

Um projeto que se estrutura de modo digital toma emprestado também o aspecto simultâneo das conexões – sinapses? – por ele comportadas. Assim, ao mesmo tempo que o banco de dados é alimentado e constantemente atualizado,[4] reflexões sobre ele são produzidas. Isso acontece de forma especial nos encontros internacionais realizados ao final de cada ano, e existe hoje um acervo considerável de vídeos no canal do Itaú Cultural no YouTube [youtube.com/itaucultural], com entrevistas de muitos dos participantes do projeto, algumas das mesas de debates promovidas nos encontros e edições do programa Jogo de Ideias.

Outro ponto que desde cedo se mostrou importante para o projeto foi o registro memorialístico do processo de trabalho, das dificuldades e experiências de professores, pesquisadores, tradutores e editores de literatura brasileira no exterior, além de escritores que falam da trajetória de suas obras mundo afora. Esse acervo é audiovisual e vem sendo construído desde 2008, contando hoje com 180 vídeos com duração entre um minuto e uma hora e meia, que totalizam cerca de 19 horas de material.

No X Encontro da Brasa, em julho de 2010, João Cezar de Castro Rocha apresentou comunicação em que refletia sobre a novidade trazida pelos 116 questionários respondidos até aquele momento, em especial quanto ao perfil do novo brasilianista. Em primeiro lugar, chamava a atenção para o fato de muitos dos mapeados terem abordagens amplas em relação à literatura, sendo marca da contemporaneidade uma visão que se interessava pela cultura (como acontece com a tendência em torno dos “estudos culturais” mundo afora), sem deixar de lado a literatura, mas incorporando outras formas de expressão, como o audiovisual e os meios digitais, ou a música e as artes plásticas. Apontava, em seguida, para aquele que considerava o dado mais inovador proporcionado pelo projeto Conexões Itaú Cultural: se antes o brasilianista era o estrangeiro que se especializava em assuntos brasileiros, agora, graças aos dados levantados, era possível afirmar que o brasilianista podia também ser um brasileiro radicado no exterior. Outro achado interessante foi o de que os mapeados – pelo menos naquele universo[5] – tinham forte interesse por literatura contemporânea, e não exclusivamente pelos clássicos. O conhecimento da literatura brasileira no exterior seria muito mais amplo, o que favoreceria mesmo a superação do exotismo, dos tabus e lugares-comuns.

Antes ainda do encontro em que Rocha apresentou sua análise sobre uma possível mudança no perfil do brasilianista que o banco de dados permitia vislumbrar, no II Conexões Itaú Cultural – ocorrido no Rio de Janeiro em novembro de 2009, em parceria com o Fórum de Ciência e Cultura da Universidade Federal do Rio de Janeiro –, mais um produto do projeto começou a ser desenvolvido.

Em sua fala na mesa Pesquisar a Literatura Brasileira Contemporânea – Padecer no Paraíso?, Pedro Meira Monteiro, pesquisador, professor e mapeado do Conexões, refletia sobre o ato de dar aula fora do Brasil, que caracterizava como o deslocamento no qual um Brasil era levado pelo viajante. Seria natural que ele se desfizesse pelo caminho. Talvez o mais produtivo seria, propunha ele, em vez de ceder à tentação de simplesmente remontar o país imaginário, levar essa desmontagem às últimas consequências. Falar para alunos que nunca souberam quem foi Machado de Assis desmontava, a zero de jogo, a fantasia da centralidade do Brasil e da integridade da literatura brasileira. A partir dessas e outras reflexões, foi proposta a Meira Monteiro a organização de uma publicação. A Primeira Aula reúne textos de Marília Librandi-Rocha, José Luis Passos, Lilia Moritz Schwarcz, João Cezar de Castro Rocha, Michel Riaudel, John Gledson, José Miguel Wisnik, João Moreira Salles, Ettore Finazzi-Agrò, Peter W. Schulze, Florencia Garramuño, Gustavo Sorá, M. Carmen Villarino Pardo, Charles A. Perrone, Carola Saavedra, Roberto Vecchi e Vivaldo Andrade dos Santos, além de ensaio do próprio organizador.

O livro ecoa o conceito amplo de literatura, considerando-a em conjunto com outras disciplinas, falando da experiência do professor brasileiro em terras estrangeiras – não apenas o professor de literatura. Há profissionais ligados também à música e ao cinema, bem como tradutores e escritores. Dos 18 articulistas, 12 são mapeados pelo Conexões.

O cotidiano da equipe de pesquisa – agora formada por Rita Palmeira e por mim –, em conjunto com os curadores do projeto e as equipes de TI e Inovação, continua sendo o de buscar potenciais novos mapeados, convidá-los a integrar o banco de dados, atualizá-lo e disponibilizar as informações no blog do Conexões. É um trabalho minucioso e mais artesanal do que a afinidade com a tecnologia e o mundo digital podem fazer parecer, porque o elemento humano-interpretativo é que dará sentido aos dados compilados. Mesmo no ato de compilar os dados, por maior que seja o apoio da tecnologia da informação, é constante a preocupação com sua confiabilidade – quando uma atualização de sistema demanda a migração dos dados, por exemplo, há verificações manuais de cada registro por algum dos integrantes da equipe.

Uma pergunta final ajuda a encerrar o relato dessa produtiva primeira década de projeto: Para onde aponta o Conexões Itaú Cultural?

A grande expectativa, neste momento, é a de aumentar o número de mapeados, em especial nos países em que ainda há poucos participantes, como os dos continentes africano e asiático. Há também a intenção de ampliar o foco do mapeamento para outras áreas de expressão, como cinema e música.

Para a produção deste texto, algumas perguntas foram propostas aos integrantes da equipe, a fim de que também seus comentários se fizessem presentes nesta tentativa de transmitir resumidamente as etapas do percurso do projeto até aqui. Foi no diálogo com Rita Palmeira que uma dimensão muito valiosa do projeto apareceu: o Conexões não apenas desempenha o papel fundamental de mapear, criar uma rede de conexões, entender os temas e autores estudados ou traduzidos – que podem ser índices de certa imagem do país fora das suas fronteiras –, ele também retorna à sua origem. Foi desenhado partindo da universidade e das políticas do livro, e a elas regressa, com dados que antes não existiam e que hoje podem gerar estudos e políticas públicas.

Uma nova definição de Conexões – agora, além do plural, deveria começar com caixa-alta, porque se tornou nome próprio – demanda também um verbete enciclopédico: “iniciativa de mapeamento e estímulo à reflexão sobre cultura brasileira no exterior que, apenas entre 2007 e 2017, gerou um banco de dados com 347 mapeados ligados a 164 instituições pelo mundo; artigos, livro e 19 horas de vídeos, correspondentes a 180 registros audiovisuais de professores, pesquisadores, escritores e tradutores; 10 encontros internacionais, com 41 mesas de discussão e 105 convidados; e continua”.[6]

 


[1] O texto Conexões Itaú Cultural – Mapeamento Internacional da Literatura Brasileira: estrutura conceitual e perspectivas, de João Cezar de Castro Rocha, resultante da comunicação por ele apresentada no encontro Rumos Conexões de 2010, aborda precisamente essa aspiração maior do projeto, mostrando como ele surge necessariamente na contemporaneidade, fazendo uso dos recursos da internet para aliar levantamento quantitativo com análise qualitativa, tendo em mente um conceito amplo (não normativo) de literatura. Disponível em: http://conexoesitaucultural.org.br/wp-content/uploads/2011/07/Conex%C3%B5es-Ita%C3%BA-Cultural-%E2%80%93-estrutura-conceitual-e-perspectivas-JCCR.pdf.

[2] Disponível em: http://conexoesitaucultural.org.br/wp-content/uploads/2011/07/O-PORTUGU%C3%8AS-como-dificuldade.pdf.

[3] O banco de dados, normalmente acessível pelo endereço http://conexoesitaucultural.org.br/, está passando por uma importante reformulação e em breve estará disponível novamente.

[4] Vale observar que o universo de mapeados varia no tempo, ou seja, professores se formam, mudam de instituição, mudam de assunto, aposentam-se etc.

[5] Rita Palmeira observa que trabalhamos com dados que dependem de uma colaboração voluntária, isto é, só temos informações de quem se dispõe a fornecê-las. Por isso, ao analisar o banco de dados, é importante levar em conta que se trata dos profissionais que têm interesse em se conectar ao projeto, e não da totalidade dos profissionais da área. Para conhecer a análise da pesquisadora do Conexões sobre os tradutores mapeados pelo banco de dados, ver Versões da literatura brasileira no exterior a partir do banco de dados do projeto Conexões, publicado na Revista Observatório Itaú Cultural n. 17. Disponível em: http://d3nv1jy4u7zmsc.cloudfront.net/wp-content/uploads/2014/07/OBS17_BOOK-PDF-final.pdf.

[6] Foi observada por mais de um participante dos encontros do Conexões e pela imensa maioria dos mapeados a necessidade de desenvolver políticas públicas que tivessem continuidade (João Cezar de Castro Rocha comenta, em seu texto de 2010 já citado, que a continuidade é uma autêntica palavra-chave, repetida em quase todos os questionários). Além de aproximar pessoas que trabalham com literatura e cultura brasileira no exterior, o Conexões Itaú Cultural mostra a consistência de sua atuação, algo raro no contexto brasileiro: o projeto chega ao seu décimo ano com muitos resultados e ainda muito trabalho por fazer.

 

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