por Edu Carvalho

Não foi difícil para a Cátedra Olavo Setubal de Arte, Cultura e Ciência escolher para o ano de 2018 seu novo titular. Bastou que a cátedra (realizada pela USP em parceria com o Itaú Cultural e o Instituto de Estudos Avançados), olhasse para seus próprios princípios para ver que eles apontavam à trajetória da educadora e ativista social Eliana Sousa Silva.

Ponte para diálogos, parcerias e transformações, Eliana, de 57 anos, nascida em Serra Branca (PB), será a primeira mulher ocupando a posição. Para ela, no entanto, assumir um cargo de liderança talvez não seja tão inédito, já que aos 22 anos foi a primeira mulher a se tornar presidente da Associação de Moradores da Nova Holanda, uma das 17 comunidades pertencentes ao Complexo de Favelas da Maré, na Zona Norte do Rio de Janeiro. Durante toda a vida, ofereceu lugar de escuta às mais de 140 mil histórias que vivem na Maré.

Desse mesmo local surgiu outra força na missão de modificar a realidade existente no Rio. Marielle Franco (1979-2018), vereadora e ativista dos direitos humanos, brutalmente assassinada no dia 14 de março, também ocupava espaço de resistência junto com Eliana na busca por dias melhores e possíveis. Para todos. As lutas, as experiências e as vivências compartilhadas por ambas iam e vão ao encontro dessas esperanças.

Foi em meio às marés de violência e desigualdade existentes que a mais nova titular da Cátedra Olavo Setubal desenvolveu todos os seus trabalhos durante os últimos 30 anos – da pesquisa, em 1997, na qual relatava que menos de 0,5% da população das comunidades havia chegado à faculdade, à criação da Redes da Maré. Nesse meio-tempo, criou o Pré-Vestibular Comunitário da Maré, atendendo diversos moradores e mostrando que outro caminho pode (e deve) ser feito. Marielle fez parte do projeto, que a levou a conseguir bolsa integral na Pontifícia Universidade Católica do Rio de Janeiro (PUC-Rio) para o curso de ciências sociais.

Formada em português – literatura pela Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), com mestrado em educação e doutorado em serviço social, ambos pela PUC-Rio, Eliana coleciona prêmios como o Claudia, o Ashoka Empreendedores Sociais e o Prêmio Itaú Cultural 30 Anos (veja o vídeo acima), que são reconhecimentos pela sua atuação na Maré.

Esta entrevista foi realizada poucos dias antes da execução de Marielle Franco e de Anderson Gomes, motorista que a acompanhava, numa tragédia que comoveu o país. Com a palavra, Eliana.

Foto: Christina Rufatto

Martin Grossmann, coordenador acadêmico da Cátedra Olavo Setubal e ex-diretor do Instituto de Estudos Avançados da Universidade de São Paulo (IEA/USP), diz que com sua chegada “a cátedra se volta para um universo da cultura diferente daquele privilegiado na universidade”. Como é para você ocupar essa vaga, sobretudo por ser a primeira mulher, e qual será seu maior desafio?

Primeiramente foi uma surpresa quando recebi o convite do Martin para ocupar a cátedra. Eu me senti honrada de ter sido lembrada, de haver sido pensado o meu nome para ocupar um espaço que, pelo que li e entendi conversando com algumas pessoas, é um lugar para trabalhar a dimensão do diálogo da USP com a sociedade nesse campo da arte e da cultura, principalmente. Achei interessante esse processo de identificar uma pessoa com o meu perfil, que tem uma trajetória de haver crescido numa favela e, ao mesmo tempo, haver tido acesso à universidade.

Estar nesse lugar é de alguma forma contribuir para esse processo da USP de trazer uma discussão muito difícil, no sentido de se vincular com a sociedade, buscando estabelecer reflexões e trazer as pessoas para entender o papel que uma universidade pode ter nas mudanças e nas transformações sociais. No Brasil há muito pouco essa perspectiva, e a cátedra é um espaço que pode fazer isso. Temos muitos desafios e um deles é, no período de um ano, trazer essa discussão à USP e a segmentos que estão dentro da universidade, ao mesmo tempo estabelecendo diálogo com a favela e com determinadas periferias.

A “falta” foi uma presença na sua vida, e você diz isso. Sete anos, vinda da Paraíba com mais cinco pessoas e morando em um barraco de 50 metros quadrados. Isso a influenciou de alguma forma para ser a agente transformante-transformação na sua própria vida e na de diversos indivíduos?

Na realidade eu entendo que essa minha trajetória, de quem migrou de um contexto específico [de seca na Paraíba] diretamente para uma favela no Rio de Janeiro, de morar em condições bem precárias, me causava estranhamento. Tentava entender por que certas pessoas viviam assim e outras não. Quando fui crescendo e entendendo que isso era parte da desigualdade do país, algo construído a partir de escolhas dos governantes e feito historicamente, eu me dei conta de que deveria ter algum papel nesse contexto, e é algo em que acredito até hoje. Cada pessoa têm um papel nesse processo de transformar coletivamente.

As minhas condições causaram na minha subjetividade algo que me fez querer ser uma pessoa que busca de outras formas superar esse processo. Formas de me juntar com outras pessoas que têm a mesma perspectiva de estar aqui no mundo fazendo algo que dê sentido à sua própria vida, a partir de uma dimensão que vai além do individualismo. Acabei me tornando alguém que se entende no mundo a partir desse lugar, não importa aonde eu vá ou o que eu faça. Estarei sempre estranhando, buscando formas para que as mudanças aconteçam. Não consigo naturalizar, por exemplo, a violência que a gente vive hoje no Brasil. Não poderíamos dormir sem pensar coletivamente nesses enfrentamentos.

Um dos valores da Redes da Maré é "arte e cultura", e a cátedra é um espaço que se destina a promover discussões e atividades voltadas para esse trabalho. Podemos esperar um encontro dessas duas esferas, a partir do próprio intuito de conectar através de parcerias?

A Redes da Maré tem cinco eixos, e eles foram escolhidos numa função de entender o que naquela realidade da Maré poderia ser uma mudança estrutural, como poderíamos interferir na desigualdade que tem ali. Trabalhamos com a perspectiva de transformação social a partir do reconhecimento da ausência de direitos, que precisa ser construída por meio de dinâmicas das próprias pessoas que vivem ali. Arte e cultura são direitos que podem ser materializados. Espero trabalhar arte e cultura na cátedra, mostrando como elas podem contribuir para pensar a sociedade e o papel gerado através dessas dinâmicas sociais. Espero conseguir trazer uma reflexão e dialogar com as questões que vivemos no país e no mundo, apresentar como elas afetam a nossa vida.

Um dos objetivos da Redes é potencializar cada vez mais o morador das favelas. Qual é o trabalho que a sociedade pode fazer para contribuir nesse processo de reconhecer a autonomia muitas vezes cerceada?

A Redes visa à dimensão da potência que vem dessas regiões e que temos recentemente acompanhado no país, no sentido de que elas podem produzir mudanças e contribuir numa nova dinâmica social. Quando a Redes nasceu, tínhamos a ideia de que, nas favelas do Rio de Janeiro, a gente precisava produzir e elas precisavam acontecer, porque alguns direitos não estão estabelecidos nessas regiões. Trabalhamos numa dinâmica de reconhecer que o problema de muitas pessoas não terem acesso a uma educação de qualidade, arte e cultura e ao que a cidade pode oferecer está relacionado à forma como a sociedade se organiza nesse processo. As favelas vêm construindo alternativas de resiliência em relação a isso.

O morador da favela é um cidadão, e não um ser extraordinário, sem nenhum adjetivo, que serve apenas para criar hierarquia em relação às pessoas que vivem em outra parte da cidade. De maneira geral, a sociedade precisa de encontros para trabalhar as diferenças. Formar diálogos e aberturas para entender que existe, em um momento como este, uma falta de reconhecimento dos direitos de todos. Precisamos criar caminhos para deslocar visões que cristalizam as dicotomias entre quem vive na favela como se fosse natural. Precisamos trabalhar outra linguagem que estabeleça maior empatia com o outro.

Em 2012 você lançou o livro Testemunhos da Maré, que traz depoimentos, relatos em primeira pessoa da rotina vivida ali, entrevistas e um apanhado de dados. Seis anos depois, prestes a assumir um novo cargo: qual é o amanhã que a Eliana quer testemunhar?

O Testemunhos da Maré é um livro que tenta trabalhar essa ideia de desnaturalizar a violência na favela. Foi um exercício de pensar minha própria inserção e como podemos enfrentar isso. Quero testemunhar e até estou buscando ser parte da construção desse amanhã. A gente tem uma urgência muito grande de diminuir a violência bélica no país. Quero testemunhar alguma mudança nesse processo, alguma interferência. Testemunhar um amanhã em que a gente reconhece uma forma diferente de ver o outro. Que algo vá mudar no racismo que vivemos, principalmente ligado à violência. Que não vamos achar normal morrerem 60 mil pessoas por ano por arma de fogo e que a gente como sociedade vai de alguma forma mexer nessa interação de maneira estrutural. É o amanhã que quero testemunhar, construindo bases no hoje para isso.

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