Por Marcella Affonso

Pontilhados é um espetáculo de dança contemporânea. Mas não só. Realizado ao ar livre de maneira itinerante, unindo poesia e tecnologia, toma a cidade como palco e convida o público a contemplar o espaço urbano com outros olhos: acompanhando “uma história de amor e saudade”, que costura toda a peça, os participantes passeiam a pé por pontos históricos, realizando pequenas paradas ao longo do trajeto para assistir às cenas coreografadas.

“A ideia é que o público se desconecte um pouco da velocidade e da dinâmica em que se vive hoje, principalmente nas grandes cidades, nas quais não se percebe nada, nem a arquitetura nem as outras pessoas”, conta a criadora e diretora do espetáculo, Mônica Lira.

A narração da peça e sua trilha sonora são transmitidas via antenas de rádio ao público, que as escutam por meio de fones de ouvido, distribuídos antes do início da apresentação. Os bailarinos e bailarinas, no entanto, nada escutam. “É um desafio para os artistas do espetáculo. Tudo é extremamente cronometrado e isso também encanta o público, porque ele fica procurando para ver se eles estão com alguma coisa no ouvido e não encontram. É curioso”, comenta.

Criado em Recife (PE) pelo Grupo Experimental e pensado para a história e as estruturas espaciais locais, o roteiro do espetáculo ganha agora sua primeira adaptação: dentro da 25ª edição do Festival Porto Alegre em Cena, a obra será apresentada nos dias 19, 20 e 21 de setembro em Porto Alegre (RS). As apresentações no município gaúcho são parte de Pontilhados – Intervenções Humanas em Ambientes Urbanos, projeto contemplado pelo edital Rumos Itaú Cultural 2017-2018, e marcam a primeira saída da peça da capital pernambucana desde sua estreia, em 2016.

Cena do espetáculo Pontilhados, em Recife (PE) | foto: Rogério Alves

Mesma estrutura, novas memórias

A ideia de levar a criação original a outras capitais brasileiras surgiu tão logo o espetáculo estreou. “Desde então eu venho estudando como a obra poderia tomar outras realidades, cidades e outros formatos”, lembra Mônica. Além de Porto Alegre, na região sul, o espetáculo migrará para o Sudeste do país, aportando no município de São Paulo – locais escolhidos pelas similaridades que carregam com Recife e outros grandes centros urbanos em suas delicadezas e problemáticas, como o trânsito desenfreado, a falta de moradia, o caos.

As cenas em que se desenvolvem as coreografias e a história que acompanha o espetáculo serão mantidas na íntegra, preservando-se a estrutura de criação inicial. Os contos narrados, contudo, mudam. A ideia é adaptar o roteiro adequando a narrativa ao meio espacial local e agregando memórias e artistas de cada região.

Em Porto Alegre o espetáculo partirá da Igreja Nossa Senhora das Dores e seguirá até o Cais Mauá, ambos no Centro Histórico. Além de cinco artistas do Grupo Experimental, irão compor o elenco sete bailarinos e bailarinas do território porto-alegrense, selecionados entre 23 pessoas por meio de uma residência artística realizada no município de 6 a 13 de setembro.

Colaborativo, afetivo

Tanto na capital gaúcha quanto na paulista, a residência é uma das etapas previstas no projeto e, além de servir para selecionar os artistas locais que participarão da peça, funciona como um espaço de troca, em que os residentes aprendem sobre o espetáculo, mas também participam de seu processo criativo, trazendo suas vivências, memórias, histórias, que depois são incorporadas no roteiro.

Das memórias porto-alegrenses, Mônica destaca duas que serão revividas durante as apresentações: as festas dadas pela artista Nega Lu, personalidade falecida em 2005 que marcou a cena cultural da cidade, e os personagens criados por Qorpo Santo, autor morto no município em 1883 e considerado por alguns como o precursor do chamado Teatro do Absurdo (a edição 2013-2014 do Rumos contou com um projeto sobre o dramaturgo: Qorpo Santo – Três Linguagens, que produziu uma peça, uma trilha sonora e uma animação).  

Ambas as cenas não estavam previstas. A primeira será apresentada por todos os participantes da residência artística e a segunda por um grupo local, o Santo Qoletivo. Nesse sentido, Mônica chama atenção para a importância do diálogo com os habitantes de cada cidade e dessa fase colaborativa para a impressão da identidade local no espetáculo. “A ideia é nossa, mas depois dessas conversas acaba que o projeto não é mais apenas meu, é dessa parceria, de todos que colaboraram”, ressalta.

Próximo ponto, São Paulo

As apresentações na capital paulista estão previstas para ocorrer nos dias 28, 29 e 30 de novembro deste ano. Como já foi dito, assim como em Porto Alegre haverá uma residência artística prévia para selecionar artistas locais para participar do espetáculo. Acompanhe o site para saber mais informações.

 

Pontilhados em Porto Alegre
quarta 19, quinta 20 e sexta 21 de setembro de 2018
concentração às 16h
[duração aproximada: 60 minutos]
saída: Igreja Nossa Senhora das Dores (Rua dos Andradas, 587 – Centro Histórico, Porto Alegre – RS

Quantidade de fones: 50 unidades
Ingresso: distribuição dos fones por ordem de chegada (50 pessoas)
Observação: na retirada do fone, cada pessoa deixará um documento, que será devolvido quando o aparelho for entregue

Atividade gratuita

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