por Um Por Todos - Anna Muylaert

Estive em Abadiânia (GO) umas quatro ou cinco vezes nos últimos anos. Sentia ali – especialmente na chamada sala da corrente, onde cerca de 200 pessoas oravam juntas em silêncio – uma energia positiva e quase inebriante. Nunca entendi bem o que de fato acontecia. Acho que ninguém entendia. A explicação local era de que havia entidades de luz, canalizadas por João de Deus. Não sei. Mas agora, depois de todos os crimes, atos e armas expostas, fica ainda mais complexo entender as supostas curas do local.

Mas não é disso que quero falar. Quero falar de abuso. Em primeiro lugar quero declarar minha solidariedade às centenas de vítimas e dar meus parabéns à ativista Sabrina Bittencourt – que, com suas parceiras, levantou essa lebre para Pedro Bial –, pela coragem de dar o pontapé inicial, e à Rede Globo, por sustentar o contra-ataque que terminou na milagrosa prisão do médium goiano.

E quero refletir sobre os inúmeros comentários que li nas redes sociais de homens indagando: “Por que essas mulheres não falaram antes? Por que demoraram tanto tempo?”. Em primeiro lugar, é preciso computar as inúmeras denúncias (e processos) que já haviam sido feitas contra o médium nas últimas décadas, inclusive da própria filha dele – arquivadas por falta de provas. O homem era poderoso; de forma indireta sustentava uma cidade inteira e ameaçava quem tentasse denunciá-lo. Se não fosse um gigante midiático para contra-atacar, a sangria nunca iria parar.  

Em segundo lugar, e principalmente, quero falar sobre educação de gênero. Não esqueçamos que, de forma geral, enquanto um menino é incentivado a voar, a falar alto, a lutar pelos seus direitos e a conquistar o mundo, a menina é incentivada a ser discreta, bonita, bem-comportada e, principalmente, obediente. Essa educação – mesmo para mulheres autônomas financeiramente, como eu – é uma cicatriz difícil de ser transformada, pela sua profundidade ancestral. Por mais que cresçamos, lutemos e nos tornemos independentes e responsáveis pelo nosso destino, há sempre em nossa mente um local recôndito, sombrio e muito antigo – de menina obediente que precisa da aprovação masculina para sentir-se inteira. E é sobre esse local que precisamos nos debruçar.

Nós mulheres estamos sendo moldadas para obedecer e acatar silenciosamente atos abusivos há milênios. Eu me lembro, na minha adolescência, de uma praça perto de casa na qual homens praticavam exibicionismo. A gente descia do ônibus no pé da praça e caminhava para casa quando, de repente, um homem surgia por trás de um arbusto, com o pau para fora e se masturbando. A gente sentia aquele constrangimento e saía correndo em desespero. Eu nunca soube de alguma colega que tenha reagido ou chamado a polícia. O que nos dominava na hora dos ataques era tão somente o constrangimento e o medo.

No livro A Jornada da Heroína (The Heroine’s Journey), a norte-americana Maureen Murdock, depois de entender o circuito do herói, resolveu estudar mitos protagonizados por mulheres em várias culturas. Ela percebeu que, enquanto a viagem do herói se caracteriza pela separação – iniciação –, pelo retorno, ou seja, pela derrocada do dragão no mundo externo, a jornada da heroína é tão somente conseguir o feito de deixar de ser guiada pelo desejo alheio e passar a ser guiada pelo próprio desejo. Parece fácil, né? Mas não é. Há milênios que as mulheres são educadas, segundo Simone de Beauvoir em Segundo Sexo, “não como um ser em si, mas sua existência é relativa ao masculino, ela não é considerada um ser autônomo”. Ou seja, apesar dos avanços do século XX no que diz respeito à educação e a oportunidades, nós mulheres ainda somos criadas nas entrelinhas culturais para principalmente servir aos desejos masculinos. Como podemos nos livrar dos abusos se muitas vezes nem mesmo percebemos que estamos sendo abusadas?

Volto às vítimas de João Teixeira de Faria. Em especial à primeira brasileira que falou no programa do Bial. Ela narrava os atos abusivos do médium ao mesmo tempo que narrava seus pensamentos durante o ataque. A vítima dizia que, enquanto ele passava a mão nela, ela pensava coisas como “se berrar, posso ser morta etc.”; paralisada, deixava o médium abusar de seu corpo impiedosamente. Eis nossa vulnerabilidade, eis nosso infortúnio. Por que, em vez de se perder nesse constrangimento mental, ela simplesmente não se levantou e foi embora? Certamente essa vítima, como todas as outras, não foi embora porque não conseguiu, porque nossa educação milenar não deixou.

O machismo não está apenas nos atos abusivos dos homens. O machismo é um software que está impregnado tanto na mente dos homens quanto na das mulheres de maneira estruturante.  E, enquanto nós mulheres não conseguirmos tomar consciência dessa nossa fragilidade tão particular quanto universal e não passarmos a agir pelo nosso próprio crivo e desejo, estaremos sempre vulneráveis a abusos sexuais, morais, físicos, psicológicos, emocionais e financeiros – tanto de líderes espirituais quanto de patrões, parceiros, pais, namorados, maridos e até filhos. É preciso que estejamos unidas cada vez mais, dando-nos o direito de dizer não, de pedir divórcio, de fazer denúncias e abrir processos, de berrar e de dar a cara para bater, sendo chamadas de loucas, mentirosas ou oportunistas – sem nos abater. Vai ser uma grande luta. Talvez demore mais uns séculos, mas não podemos nos acovardar. Afinal, o que é o machismo senão o abuso institucionalizado?

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